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Iludido com a sua virilidade, Johnny Bravo é a cara do presidente Bolsonaro

Matheus Pichonelli

07/08/2019 18h43

Johnny Bravo, o personagem limitadão que inspira o presidente da República

 

Centennials correram em peso ao Google para pescar a referência. "A imprensa tem que entender que eu, Johnny Bravo, Jair Bolsonaro, ganhou, porra! Ganhou, porra!", disse o presidente Jair Bolsonaro em discurso durante a semana.

Quem encontrou no YouTube algum episódio perdido do sucesso da TV paga entre 1997 e 2004 deve ter estranhado a autonomeação. Afinal, quem seria capaz de se identificar com uma caricatura tão tosca, de tão clara, de um personagem cuja estupidez estava mais que desenhada na cabeça diminuta pendurada em um corpo imenso e quase inútil?

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Tivesse falado "eu, Darth Vader" ou "eu, Caco Antibes", vilões mais complexos, o presidente talvez assustasse mais a plateia, mas não diria tanto sobre si ou sobre como observa a si mesmo. Essa autoimagem, ao que parece, é incapaz de captar a ironia. "Eu, Johnny Bravo" é uma forma marombada de dizer "Eu, Pateta" ou "Eu, Homer Simpson"- personagens que tinham como marca a incapacidade cognitiva.

A autorreferência, mais tarde compartilhada em sua conta no Twitter, é quase uma afirmação da caricatura que se criou em torno do "mito" presidencial: o sujeito que passa vergonha enquanto faz flexões diante das câmeras mas está convicto de que está abafando.

Como o presidente, Johnny Bravo é o personagem que passa tanto tempo namorando a si mesmo que, no fim da história, não consegue entender por que todo mundo se afasta. O personagem é a caricatura perfeita do que Pedro Cardoso definiu certa vez como homem iludido com a sua própria virilidade.

A nossa versão tupiniquim de Johnny Bravo é o valentão cercado de referências masculinas, piadas de fundo de sala, compostas pelas brincadeiras com tamanho da cabeça de nordestinos e do pênis de orientais, que determina quais são as propagandas adequadas para a família, que confunde filme sobre prostituição com pornografia, e que convida estrangeiros a ficarem à vontade para vir aqui fazer sexo com as brasileiras.

Nos anos 90, essa caricatura expunha ao ridículo o playboy marombado metido a predador e incapaz de tomar sorvete sem sujar a testa. Nos anos 2010, a versão decadente do anti-herói subiu no palanque e descobriu que era uma multidão.

Seria, como o desenho animado, uma caricatura até simpática, por inofensiva, se não tivesse na mão a caneta presidencial.

Mais grave do que a identificação com um desenho animado é a confusão que o nosso Johnny Bravo faz entre oposição e o papel da imprensa. Para ele, a campanha acabou para os jornalistas no momento em que ele venceu as eleições – sendo assim, restaria aos profissionais da imprensa apenas abrir mão de seu papel e passar os próximos quatro anos bajulando o candidato eleito.

Bolsonaro aparentemente não entende nem de desenho animado, nem de jornalismo, nem do papel que ocupa como presidente.

Notícias sobre a contratação de 102 parentes ou parentes de amigos em 30 anos de carreira, uso de candidatos laranja por ministros e colegas de partido, flerte com o nepotismo, carregamento de cocaína em avião oficial e desmatamento da maior floresta tropical do mundo não seriam, para ele, uma forma de fiscalizar as contradições do candidato vencedor, mas revanchismo de quem foi derrotado nas eleições por ele, Johnny Bravo, porra!

Diferentemente de outro mito, o de Narciso, condenado ao se apaixonar por si, é esse personagem estúpido e atrapalhado do desenho animado que o presidente observa quando sua imagem é refletida no espelho. Alguém precisa avisar o presidente que a imagem está desfocada. E que não se sabe de nenhum episódio em que o personagem falastrão da série acabou bem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.