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O que Felipe Neto e o premiê do Canadá têm em comum? Eles melhoraram

Matheus Pichonelli

23/09/2019 04h00

 

Justin Trudeau, o desconstruído primeiro-ministro do Canadá, não era nenhum moleque quando escureceu a pele com maquiagem em uma festa na escola onde dava aulas em Vancouver, em 2001. Tinha 29 anos.

A imagem do "blackface", um dos três episódios similares envolvendo o premiê canadense, foi chamada de "lamentável" e "insultante" por líderes de imigrantes muçulmanos do país. Um deles chegou a colocar em dúvida se Trudeau era, no ambiente privado, a mesma pessoa que se apresenta em público.

A dúvida é pertinente. O "blackface" remete aos tempos em que atores se pintavam com o carvão de cortiça para representar pessoas negras de forma exagerada, estereotipada e, claro, preconceituosa.

Não combina com a postura de quem foi eleito, em 2015, com bandeiras progressistas e um discurso sofisticado sobre justiça social, diversidade e inclusão.

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Quando assumiu, Trudeau nomeou um gabinete igualitário, com paridade entre homens e mulheres, uma das prioridades de sua gestão.

"Por que isso é importante?", questionou uma jornalista durante a posse. "Porque estamos em 2015", justificou.

A cena ganhou o mundo e Trudeau logo ficou conhecido como uma espécie de anti-Trump, que seria eleito um ano depois com um discurso abertamente anti-imigração e anti-minorias. O jeito desbocado e ofensivo do presidente americano apontava que não estávamos tão no século 21 assim.

Às vésperas das novas eleições no Canadá, e não tendo conseguido cumprir boa parte das promessas, como reduzir sensivelmente as emissões de gases de efeito estufa do país, o episódio do "blackface", ocorrido há quase 20 anos, tem potencial devastador para a reeleição de Trudeau.

Aos 47, ele precisou ir a público dizer que deveria ter conhecimento, já naquela época, de que se tratava de uma prática racista, mas que não sabia e, por isso, pediu desculpas.

Em uma coletiva, disse ter crescido como filho branco e privilegiado e que não teve a sensibilidade para perceber que seu comportamento era inaceitável.

O caso Felipe Neto

Embora não tenha o peso de um político eleito, e sim um status considerável de figura pública e formador de opinião, o youtuber Felipe Neto esbarrou recentemente em um embaraço parecido. Como o premiê canadense, seu passado o condenava –no caso, inúmeros vídeos em que, como ele mesmo admite, repetia clichês homofóbicos, machistas, transfóbicos e elitistas.

Os vídeos em que desfilava preconceito foram resgatados para contestar o título de militante das causas nobres recentemente assumido pelo youtuber, que tem se posicionado contra o governo Bolsonaro e se rebelou contra a decisão do prefeito do Rio, Marcelo Crivella, de recolher da Bienal do Rio uma HQ com dois homens se beijando. Como resposta, ele distribuiu milhares de exemplares de livros com temática LGBT no local.

Em entrevista ao UOL, ele disse que começou a ter muitas visualizações muito jovem e que seu "processo de amadurecimento foi inteiramente exposto, o que faz com que pessoas sem caráter peguem vídeos de 10 anos atrás e tentem exibir como se mostrassem minha opinião de hoje".

Tanto num caso como no outro, ninguém é obrigado a dar biscoito a quem tomou a decisão correta. Era o mínimo: vir a público e pedir desculpa pelo erro.

Há quem veja oportunismo na nova versão de quem se arrepende de um passado constrangedor, sem levar em conta que, sim, as pessoas mudam (para melhor ou para pior) e que, ao menos no Brasil de 2019, ficar do lado das minorias não é exatamente uma escolha popular. O youtuber, inclusive, passou a ser ameaçado e teve de orientar a mãe a sair do país.

Um clichê antigo diz que a primeira impressão é sempre a que fica (a minha dos irmãos Felipe e Luccas Neto era péssima, inclusive). Se fosse, a nossa imagem seria sempre associada a crianças se esgoelando na saída da maternidade.

Antes do direito ao esquecimento, que permite ao cidadão do século 21 apagar das redes os rastros de atitudes das quais não se orgulham, as pessoas têm o direito ao arrependimento. As versões atualizadas de Trudeau e Felipe Neto são as que chegaram a uma nação inteira, num caso, e a 33 milhões de seguidores, em outro. Antes isso do que o festival de ofensas recentes, conscientes e repetidas de autoridades brasileiras contra a primeira-dama francesa, Brigitte Macron.

Mas as atitudes têm consequências, causam ofensas e assombram. No caso de Trudeau, daqui a cinco semanas saberemos, pelas urnas, se as desculpas foram aceitas ou não.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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