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Sórdida? Fernanda Montenegro e a caça às bruxas no Brasil

Matheus Pichonelli

26/09/2019 04h00

A atriz Fernanda Montenegro vestida de bruxa e cercada por uma fogueira de livros na capa da revista Quatro Cinco Um (Foto: Mariana Maltoni)

Anne Hathaway acaba de ser anunciada como a atriz principal do remake do clássico "Convenção das Bruxas". Será, conforme a sinopse, "a maior bruxa do mundo".

É bom não pisar no Brasil, onde recentemente a ministra da Família, Damares Alves, "denunciou" a distribuição de um manual prático de bruxaria para crianças de seis anos –que, inclusive, ensina os aprendizes de Harry Potter a fazer suas próprias vassouras em sala de aula.

Por aqui, a caça às bruxas há tempos ganhou sentido literal. A ponto de a maior atriz do país, Fernanda Montenegro, ser desancada pelo diretor do Centro de Artes Cênicas da Funarte, o dramaturgo Roberto Alvim, após ser retratada como uma bruxa sendo queimada em uma fogueira de livros na capa da revista literária Quatro Cinco Um.

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Apoiador de primeira hora de Jair Bolsonaro, Alvim chamou a imagem de "sórdida" e disse que ela "mostra muito bem a canalhice abissal destas pessoas, assim como demonstra a separação entre eles e o povo brasileiro".

É assim que se trata um dos maiores patrimônios culturais do país, que acaba de lançar um livro de memórias e tem papel fundamental no filme indicado pelo Brasil ao Oscar de melhor filme estrangeiro do ano que vem? Por aqui, é.

O episódio mostra como chega em boa hora às livrarias brasileiras o livro "Mulheres e Caça às Bruxas", uma coletânea de artigos da historiadora ítalo-americana Silvia Federici.

A obra apresenta as raízes históricas da caça às bruxas e relaciona as versões contemporâneas do fenômeno ao crescente cerceamento do corpo feminino em questões como sexualidade e capacidade reprodutiva.

Em um dos capítulos, a autora questiona o que explica, ao longo de três séculos, o fato de milhares de mulheres terem se tornaram a personificação do mal absoluto, inclusive em representações artísticas.

Uma resposta inicial, segundo ela, está no processo de deslocamentos ao fim da Idade Média, com a desintegração das formas comunais de agricultura que predominavam na Europa feudal –e que levaram ao empobrecimento das populações rurais e urbanas que se tornaram vítimas da ascensão da economia monetária e da expropriação de terras do novo modelo de produção.

Nessa época, escreve Federici, as mulheres tiveram maior probabilidade de ser vitimizadas porque foram as mais "destituídas de poder" por essas mudanças, em especial as mais velhas, que se rebelavam contra a pauperização e a exclusão.

Quem assina o prefácio é a escritora e ativista Bianca Santana, que conta como a história da emergência da modernidade na Europa enalteceu a superação do feudalismo e omitiu como a vida e a organização social das mulheres da época eram marcadas pela importância da comunidade, da partilha de recursos, das tarefas no plantio e dividindo o poder com os homens. Eram chamadas de bruxas, segundo ela, as mulheres que resistiam "de diversas formas ao confinamento e à subordinação exigidos pela nova ordem".

Segundo Federici, as mulheres foram acusadas de bruxaria porque a reestruturação da Europa rural no início do capitalismo destruiu seus meios de sobrevivência.

Outra explicação, segundo a autora, é que o modo de produção que postula a "indústria" como principal fonte de acumulação levou a uma batalha contra qualquer coisa que impusesse limite à plena exploração da mão de obra braçal, a começar pela rede de relações que ligava os indivíduos ao mundo natural, a outras pessoas e ao próprio corpo.

"O elemento-chave desse processo foi a destruição da concepção mágica de corpo vigente na Idade Média. Essa concepção atribuía ao corpo poderes que a classe capitalista não conseguia explicar, que eram incompatíveis com a transformação dos trabalhadores e das trabalhadoras em máquinas de trabalho e que podiam até intensificar a resistência das pessoas a esse processo. Eram poderes xamânicos que as sociedades agrícolas pré-capitalistas atribuíam a todos, ou a indivíduos específicos, e que, na Europa, sobreviveram apesar de séculos de cristianização –muitas vezes, inclusive, sendo assimilados aos rituais e às crenças do cristianismo. É nesse contexto que o ataque às mulheres como 'bruxas' deve ser situado", escreve.

Ao se deixar ser retratada como "bruxa", Fernanda Montenegro se tornou o alvo perfeito para a nova inquisição abrigada no governo Bolsonaro. Uma inquisição que vê em qualquer forma de resistência a um papel de submissão a encarnação de todo mal – logo, prestes a ir à fogueira, ao menos aqui simbólica, como ela mesmo previu e acertou.

A obra chegou às livrarias em setembro. Um seminário com o tema "Democracia em Colapso?" e a participação da autora está previsto para acontecer no dia 15 de outubro, no Sesc Pinheiros.

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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