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Você sente falta do horário do verão? Sim ou com certeza?

Matheus Pichonelli

07/11/2019 04h00

 

O Museu do Amanhã, no Rio – iStock

Preciso confessar uma coisa terrível: sinto falta do horário de verão.

Sinto falta de sair do trabalho e chegar em casa ainda cedo.

De observar as nuances da cidade escondidas depois que escurece.

De olhar, nem que seja pela janela do ônibus, as crianças brincando na rua pelo caminho.

De fazer aquela visita (sincera e desinteressada) aos amigos que têm piscina.

De ver os casais caminhando pelo parque aberto até tarde da noite. 

De invejar os amigos sujando os lábios com o colarinho extra de cerveja para amaciar o dia. 

De levar um livro para a praça enquanto espero meu filho sair da escola.

De brincar de bola com ele até mais tarde.

De ir com ele a pé até a praça e observar as cores da sorveteria, da pastelaria, do carrinho de pipoca e do caldo de cana.

Nessa época do ano, a cidade é para mim o que o bairro do Estácio era para o Luiz Melodia: um lugar que pode me querer ou acalmar os sentidos dos erros que faço.

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É terrível, eu sei, mas meu corpo se habituou, nos últimos 34 anos, a adiantar os relógios nessa época do ano. 

Não tem dia em que esse relógio biológico não me desperta às cinco em ponto me fazendo correr sonambulando até a cozinha perguntando "quem foi quem que deixou a luz acesa?" –para descobrir que a luz acesa é uma bola de fogo situada a 149,6 milhões de quilômetros da terra e que toda manhã me anuncia que é hora de levantar. 

Tem sido assim desde que perdi meu primeiro pôr-do-sol em uma sala de ar refrigerado com cortinas imensas onde não sabia quando era dia e quando era noite. Foi meu primeiro dia de trabalho.

Nada contra a noite, tenho até amigos notívagos, outros insones, mas ela não é para mim.

A noite, para mim, é um garçom que me empurra para casa dizendo "desculpa, mas já estamos fechando".

É o toque de recolher para voltar aos aposentos o quanto antes e evitar as encrencas fertilizadas no escuro.

Em 2016, o pesquisador Weily Toro Machado, professor de ciências contábeis da Universidade do Estado de Mato Grosso, mostrou que, durante o período de horário de verão, o número de assassinatos por arma de fogo diminui 14%.

Qual a explicação? Que tem coisas mais interessantes para se fazer na cidade durante as noites claras do que sair por aí apontando armas? Seria a vitamina D um expansor de humor? Isso explica a carranca dos homens públicos que se abrigam nos bunkers dos grandes conchavos com medo de explodir ou derreter à luz do sol?

Não sei. O que tenho dessa época do ano são lembranças, e a memória afetiva é um dispositivo mais poderoso do que qualquer estatística sobre economia e consumo de eletricidade. 

Minha impressão é que foi num começo de noite ainda clara que conheci todo mundo que amo nessa vida, inclusive a pessoa com quem me casei, numa festa entre amigos debaixo de um sol propício para quem decide passar o resto das tardes juntos.

Enquanto escrevo esse texto, imagino o leitor engajadão me alertando que "o mundo aí pegando fogo e você reclamando que não tem sol para passear com seu filho".

Ele tem razão. Eu também sei reclamar. Meu peito, aliás, é um pote até aqui de mágoa e nele cabe de tudo um pouco. Ou muito. 

Meu protesto não é (só) por 20 centavos. É por 120 horas de vida extra sob sol. E um pouco de alívio cômico quando tudo o que o mundo contemporâneo pede é confinamento.

Por essa lógica de confinamento, as relações sociais se definem entre o meu e o seu, e se dentro do meu território é possível acessar tudo, dos filmes da plataforma de streaming ao telefone da pizzaria, a porta de casa se torna o último ponto de contato com a cidade que adormece cada vez mais cedo com medo dos riscos de esbarrar na própria demofobia, como é conhecido o medo obsessivo das multidões.

Têm razão os que me recordam que a vida é só acordar, sobreviver e dormir. O mar não está para peixe. Está para óleo. E nem aquela volta pela praia ajuda a transformar as pequenas concessões à alegria em força política, essa que nos impede de apodrecer sorumbáticos entre castelos e porões de onde, quanto maior a distância entre nós, maior a chance de nos enxergar como inimigos.

Como Belchior, eu prefiro o humor das praças cheias de pessoas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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