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"As famílias estão sentindo na pele o confinamento das salas de aula"

Matheus Pichonelli

06/04/2020 04h00

Foto: iStock

"Você reparou no que acabou de dizer?", pergunta a escritora Andrea Taubman em uma conversa por vídeo. "Tenta repetir o que você disse."

Eu então reconto a história de quando meu filho pegou uma aranha pensando que era de brinquedo e foi picado. Era uma armadeira.

"É disso que estou falando: estamos perdendo a dimensão do real. A referência do seu filho era um brinquedo, não o animal."

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A conversa dava continuidade a um bate-papo iniciado no Instagram, após a publicação no blog de uma crônica com o balanço da nossa primeira semana em quarentena. Na mensagem, a autora de obras como "O Menino que Tinha Medo de Errar" dizia ser uma crítica contumaz do modelo fordista de escola e que o coronavírus estava criando um "efeito-repensar" para daqui em diante. "As famílias em confinamento com suas crianças estão sentindo na pele o que é o confinamento das salas de aula", disse.

Mãe de dois rapazes, de 25 e 19 anos, a escritora conta ter acompanhado como a escola foi ficando mais conteudista e se afastou das artes e da natureza dos anos 1990 para cá, quando o primeiro filho estava matriculado no ensino fundamental, em Teresópolis (RJ).

A mudança coincidiu com a (cada vez mais comum) substituição das experiências do mundo corpóreo pelas experiências do mundo virtual. "Não existe experiência sensorial real no mundo virtual. Você infere algo que não vivencia efetivamente. Então as crianças vivem em cidades, em apartamentos. Quem estuda à tarde passa a manhã em casa, vendo tela, e acumulando essa não corporeidade. Aquela energia que está só no plano virtual, na adrenalina do videogame, fica concentrada sem nenhuma experiência humana próxima. Ela chega na escola com essa necessidade de interação humana para extravasar energia. E extravasa. Quem lida com isso é o professor", diz ela.

E continua: "Sou de uma geração que brincava na rua. Mas hoje a criança passa do confinamento do apartamento para o confinamento da sala de aula. A medicalização em larga escala é uma coisa que me desespera. Quantos adultos você calcula que começaram a tomar tarja preta nestas semanas? Eu chuto, 'achisticamente', que milhões ao redor do mundo."

Para ela, esse sofrimento acontece porque a dor do isolamento nos forçou a pensar na dor do outro e em formas de como não atrapalhar nem colocar outras pessoas em risco. "Seria diferente se tivéssemos um treinamento permanente da cultura da empatia. Este vírus veio e mostrou que o rei está nu."

A escritora infantojuvenil Andrea Taubman. Foto: Jean Yoshii

A autora afirma que a quarentena dá a oportunidade de saber do que os filhos gostam, do que não gostam e o que movimenta a emoção deles. "A questão é: como vamos usar essa oportunidade? Muita gente pensa 'que saco ter que ficar com o filho o tempo todo'. A gente não vai aproveitar para descobrir nosso filho? Quantas vezes a gente repete a bendita frase 'criança não tem querer'? Como não tem?".

O alerta não serve apenas para o momento atual. Em 2017, após oito anos de elaboração, ela publicou o livro "Não me Toque, Seu Boboca", em que entra no tema da violência sexual a partir do olhar da criança. No livro, ela mostra que o abusador está permanentemente estudando as vítimas. "Ele sabe mais sobre a criança do que nós. Ele é o adulto que dá atenção, que vai dizer que a criança é especial em um mundo em que ela sente que não é feito para ela."

Antes de encerrar a conversa, ela aponta um aspecto peculiar decorrente da pandemia. "Somos estimulados o tempo todo a ser melhores uns do que os outros. Neste momento de quarentena, ser melhor que o outro não te faz melhor em nada. As hierarquias se dissolveram porque estão todos na mesma situação. É isso o que o adulto destrói quando coloca a criança entre quatro paredes para fazer uma prova. Ou quando coloca a criança no pátio da escola e estimula o esporte competitivo. E faz com que a criança se preocupe com o vestibular cada vez mais cedo. Nossa sociedade é idiotamente competitiva. Agora vamos perceber que é possível educar a emoção. O que a educação precisa é de curadoria e monitoramento", diz.

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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