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Ainda seremos os mesmos quando sairmos de casa ao fim da quarentena?

Matheus Pichonelli

09/04/2020 04h00

Foto: Getty

Por muito pouco não tornei real aquele pesadelo recorrente da infância em que acordo numa certa manhã de sonhos intranquilos metamorfoseado em um imenso aluno que esqueceu de vestir a calça e atravessou o corredor da escola só de cueca.

No caso, a escola do meu filho – ele que dia sim, outro também, pega emprestado meu computador, o único da casa, para as aulas de português e matemática com a professora e os amigos da escola.

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O vacilo tem uma explicação: a sala de aula agora fica a dois passos do banheiro.

Qualquer disfunção gástrica ou som de descarga que vem de lá é um trovão que pode atravessar a sala de aula e virar motivo de chacota para quem não se adaptou à nova vida em quarentena. Como nos piores pesadelos da infância.

Em casa, nosso isolamento social é coletivo.

As visitas chegam em forma de mensagem eletrônica, geralmente com alguma queixa relacionada a uma noite mal dormida, uma crise de ansiedade, um pânico prestes a explodir. Amigos estão aí para isso, penso comigo, mas e quando você também está por um fio e não tem muito a dizer? O que pensar senão em culpa?

Com interesse, leio toneladas de entrevistas de pessoas admiráveis mostrando que nada será como antes amanhã. Pelo menos no mundo lá fora. E aqui dentro?

Faz tempo que não me reconheço. Não sei quem vai surgir da porta para fora quando tudo isso passar. Se é que vai.

Minha dificuldade em me adaptar ao novo ritmo da casa vem de um paradoxo: eu já estava acostumado a passar mais tempo dentro do que fora. Deveria tirar de letra. Errei rudemente.

Desde 2015, quando virei um home officer, venho descobrindo que solidão é bom quando tem hora para acabar. (Ao fim do dia, costumo esperar como um cão à porta a chegada dos donos. Isso também mudou.)

Para quem escreve, o silêncio às vezes é tão importante quanto caneta e papel. Ou uma tela de computador com wi-fi.

Estranho, no trabalho remoto, não é estar só. É não saber o tom nem a expressão facial dos chefes e colegas quando um trabalho é entregue. Ou entender que existem mais nuances entre um "ok, obrigado" do que supõe uma mensagem telegráfica ao fim do e-mail ou conversa de WhatsApp.

Para funcionar, a vida dentro de casa, não só a parte profissional, pede rotina e disciplina. Tem dia para abrir vinho. Ou para cozinhar algo mais elaborado. E tem hora de parar. Ouvir música. Ver um programa na TV. Um jogo no meio da tarde. 

São pequenas concessões que fazem o confinamento voluntário ficar menos penoso (digo voluntário porque há sempre a opção de trabalhar em coworking ou fazer das visitas às sedes um exercício recorrente).

Tudo isso implodiu na quarentena.

Com ela, foi-se embora uma ideia de individualidade, que não é sinônimo de individualismo, mas um conjunto de subjetividades que precisam ser regadas como planta. É esse conjunto que nos faz fortes o suficiente para estar com alguém. 

A ironia é que justo agora que tenho todo mundo que mais gosto por perto nunca me senti tão ausente ou distante do que sou. Me tornei uma péssima companhia.

Falo, claro, de uma perspectiva própria, permeada de privilégios classe-medianos, como ter ainda um trabalho adaptável a distâncias, conexão, uma geladeira preparada para a guerra e um quarto e uma sala para transitar. Além, claro, de pessoas com quem me relacionar nessas horas. O problema é que, com o tempo, até a mais doce das companhias ganha aquela feição jacknicholsoniana de um filme que prefiro não citar.

Por isso passo os dias quieto. E até as conversas de casal, que pediam um pouco de silêncio e intimidade, foram parar em algum lugar do espaço depois da primeira semana de isolamento social. Criança, afinal, tem um sensor próprio que identifica o estalo de um beijo de casal a quilômetros, mesmo durante o sono REM.

Penso em aderir à terapia online, mas logo me dou conta de que a casa não é grande a ponto de guardar meu relato em sigilo profissional; principalmente quando os envolvidos são parte da plateia.

Não tem como fugir, e uma escapada no quintal com os fones de ouvido é quase uma fuga em Alcatraz. A música é um diálogo truncado.

"Não adianta nem tentar me esquecer…"

– Pai!

"Durante muito tempo em sua vida…"

– Paaaaaaai!

Sabe aquela outra? Que diz que temos nosso próprio tempo? Esquece.

As demandas são permanentes. Faz um desenho? Empresta seu celular? Tira uma foto? Põe aquele vídeo do Felipe Neto? (As interrogações são opcionais e podem ser trocadas pelo imperativo dos pontos de exclamação.)

Lembro, ao sair da casa dos meus pais, quando peguei meu próprio controle remoto e escolhi meu primeiro programa de TV sem ouvir resmungo. Foi meu grito de independência particular, versão Scarlett O'hara: "Nunca mais hei de assistir ao Faustão num domingo à tarde!". 

Vinte anos depois, essa conquista agora está sob xeque por causa do coronavírus. Sai o Faustão e entra em disputa um clipe dos Bolofofos. E nem faz sentido comprar briga se na TV não tem sequer futebol ao vivo. Calado, me dou por vencido. E torço para o sono vir logo.

Na sala, a mesa onde costumava passar horas em silêncio, pensando, escrevendo, ruminando, tomando café, chá, lendo e me descobrindo é agora um amontoado de elementos estranhos (enquanto escrevo vejo uma faca, um tablet, um controle remoto, um carregador, um livro didático, um estojo de lápis, a réplica de um arco e flecha, um copo, um guardanapo, uma máscara de proteção facial, uma nota de R$ 5, a bomba da bicicleta, mais livros didáticos, uma caixa de bonecos).

Antes de qualquer entrevista eu agora aviso do outro lado da linha: "Não estranhe os gritos, temos criança em casa".

Uma entrevistada, simpática, até ensaiou: "Tudo bem, adoro crianças". 

Respondi que eu também adorava. Até a quarentena.

Rimos.

De nervoso.

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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