PUBLICIDADE

Topo

As lições de Jacinda, da Nova Zelândia, que estão sendo ignoradas por aqui

Matheus Pichonelli

07/05/2020 04h00

Jacinda Ardern, a primeira-ministra da Nova Zelândia, tem uma ou outra coisa a ensinar ao presidente Bolsonaro. Foto: Hannah Peters/Getty Images

Nem parecia o mesmo país.

Quinze dias antes de a primeira-ministra Jacinda Ardern anunciar um confinamento geral na Nova Zelândia por quatro semanas, eu caminhava tranquilamente pelas ruas de Auckland, a maior cidade "kiwi", e Wellington, a capital, em uma série de visitas às universidades locais a convite da Education New Zealand.

Veja também

Sem nunca ter cruzado antes o Pacífico, meu impacto inicial naquela ilha de 4,8 milhões de habitantes foi perceber como a vida corria a céu aberto em bares, restaurantes, cafés e instituições de ensino. Havia poucos muros e poucas grades entre o espaço público e a sala de aula. Tudo estava "fora"; nada corria para dentro. 

Quando soube do confinamento, já no Brasil, fiquei imaginando como o governo local conseguiria mudar os hábitos em um país de tantos sotaques onde a livre circulação estava no próprio DNA. O desafio parecia ser ainda maior em uma cidade como Auckland, onde 4 em cada 10 moradores nasceram em outros países. (Em toda a Nova Zelândia, os imigrantes somam 27,4% da população.)

Foi nesse contexto multifacetado que as autoridades locais anunciaram o fechamento de fronteiras, a implantação de uma rigorosa quarentena e um programa de testagem em massa para a Covid-19.

Cerca de 40 dias depois, a Nova Zelândia conseguiu achatar a curva de contaminação do coronavírus e já pode afrouxar as normas de isolamento social. Vinte pessoas morreram desde o começo da crise – quando eu estava lá, apenas uma pessoa estava infectada.

Como foi possível?

Dawn Freshwater, vice-reitora da Universidade de Auckland, conta ao blog que informações claras e análises sistemática de dados foram fundamentais para municiar as ações do governo. Ela destaca o trabalho da microbiologista Siouxsie Wiles e a modelagem do professor Shaun Hendy, diretor do Te Pūnaha Matatini, um centro de excelência em pesquisa em sistemas complexos. "Os países com os melhores resultados no combate à pandemia, como a Nova Zelândia e a Austrália, demonstraram uma resposta rápida e agressiva à Covid-19, informada pela melhor ciência possível que os governos podem acessar, incluindo modelagem matemática e estatística de alto nível", conta ela.

Freshwater conta que, quando a quarentena se tornou iminente, os 40 mil estudantes e 6 mil funcionários da universidade tiveram 48 horas para se adaptar a uma rotina fora dos campi. "O que poderia ter sido um pesadelo logístico foi notavelmente tranquilo. Após três dias úteis da mudança para o bloqueio de nível 4 (isolamento total), a maioria dos estudantes de seis faculdades seguiu seus cursos remotamente, graças ao esforço da equipe de TI e dos próprios estudantes e professores, que se adaptaram rapidamente a essa nova maneira de ensinar e aprender."

A universidade, onde 30% dos graduados são da área da saúde, também lançou um serviço online que permite aos alunos acessarem aplicativos de qualquer dispositivo, e não só em laboratórios de informática. 

Peças-chave em uma das nações mais abertas do planeta, os estudantes estrangeiros que, diante da pandemia, não puderam voltar ao país no início do ano letivo receberam planos de estudo individuais. Na Universidade de Auckland, um Fundo de Dificuldade de U$ 2 milhões foi criado para ajudar os mais afetados economicamente.

Como suporte, o governo da Nova Zelândia lançou um site dedicado ao acolhimento dos estudantes internacionais. Administrado pela Education New Zealand, o site "NauMai NZ" (expressão maori que significa "boas-vindas") possui dicas de estudo, orientações para entrevistas de emprego, informações sobre escolas e universidades e uma seção dedicada à saúde mental dos alunos.

Com emojis e inteligência artificial, os alunos podem indicar se estão tristes, com saudades de casa, solitários, depressivos ou mesmo com pensamentos suicidas. O site, então, oferece conteúdos de apoio e informa telefones de suporte psicológico 24h, além de contatos de médicos e serviços de terapia nas universidades.

A plataforma, segundo Sahinde Pala, diretora de experiência estudantil e cidadania global da Education New Zealand, tem ajudado os estudantes internacionais a se conectarem uns aos outros por meio de uma série de vídeos chamados "Stay Well, Stay Connected". 

"Também temos estudantes hospedando sessões ao vivo [as lives] no Instagram da Education New Zealand, onde respondem a perguntas de outros alunos e fornecem suporte e informações aos alunos por meio de um grupo que criamos no Facebook, o International Student Support."

Sem achismos, e com o apoio da comunidade científica, a postura diante da epidemia fez com que a primeira-ministra neozelandeza fosse citada como "possivelmente a líder mais eficaz do planeta" pela revista americana "The Atlantic".

Ela já foi chamada também de "Santa Jacinda" pelo "Financial Times". "Firme" e "otimista" foram algumas das características usadas para descrever o desempenho de quem, no auge da crise, cortou 20% do próprio salário e de outras autoridades durante seis meses.

Um dos momentos mais tensos foi quando o ministro da Saúde do país, David Clark, descumpriu a recomendação do governo e foi à praia com a família. Ele mesmo reconheceu: "Fui um idiota".

Diante do caso, Jacinda Ardern disse que, em circunstância normais, o auxiliar teria sido demitido. Apesar da bronca, ela preferiu evitar "um grande transtorno no sistema de saúde".

Por aqui, o ministro que fazia seu trabalho foi demitido no primeiro espirro de vaidade, enquanto seu chefe batia o pé e não só furava a quarentena como virava o maior vetor de aglomerações.

A Nova Zelândia, é verdade, tem só um terço da população de São Paulo, e qualquer comparação de contextos e desafios históricos seria, no mínimo, simplista. Mas na escala de lideranças globais, Jacinda é hoje uma espécie de antiBolsonaro, presidente que passou semanas desdenhando a pandemia, desafiando as pessoas a saírem de casa e anunciando remédios milagrosos para a cura sem comprovação científica. Hoje está mais engajado em emparedar ministros e calar jornalistas do que em assumir a responsabilidade na crise. 

O resultado é desastroso. No dia em que chegou ao ponto auge da briga com o ex-aliado Sergio Moro, o país contabilizava 600 mortes (oficiais) por coronavírus em apenas 24 horas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.