PUBLICIDADE

Topo

Brasil passa 22 mil mortos na pandemia. A culpa é sua, que 'torceu' contra?

Matheus Pichonelli

25/05/2020 04h00

Jair Bolsonaro festeja aglomeração de manifestantes no dia 15 em Brasília. Foto: José Cruz/Agência Brasil

Devidamente paramentados, como num filme de ficção científica, saímos de casa, até o bosque da esquina, depois de dias de confinamento.

Antes, olhamos para um lado, depois para o outro, e atravessamos a rua sem risco de sermos atropelados pelos perdigotos de algum vizinho igualmente entediado e querendo botar os papos em dia.

Veja também

Na área comum, meu filho poderia pedalar alguns minutos, queimar um pouco da energia represada que poderia mover uma turbina de Itaipu, e voltar para casa menos irritado. 

De longe, vi um garoto, pouco mais velho que ele, se aproximar.

Na cartilha da quarentena, ninguém explicou exatamente qual o modo mais educado de dizer "sai daqui, você não tá vendo a TV?". Ainda mais quando se trata de uma criança.

Na dúvida, segui a trajetória da bicicleta com as mãos abertas em forma de uma redoma imaginária. Até que o pais do garoto se aproximam.

"Posso ver a bicicleta dele?"

Em um minuto, meu filho e sua bicicleta estavam rodeados até pela avó do menino vizinho, que faria aniversário e queria uma bicicleta igual. Igual, não. Melhor. 

"Qual o tamanho da roda?", perguntavam, enquanto colocavam a bike de ponta cabeça e deslizavam os dedos em cada peça da engrenagem.

A senhorinha por pouco não passou as mãos de graxa na bochecha do meu filho como agradecimento.

A curva de contaminação pelo novo coronavírus já era um fato naquele dia, mas bastava abrir a janela de casa para perceber que cada um vivia em seu mundo paralelo na pandemia. Mesmo morando no mesmo bairro, uma pequena cidade do interior onde os casos de infecção começam a pipocar.

Neste mundo paralelo, o vizinho da casa de trás continuava promovendo churrascos homéricos nos finais de semana, com videokê e mergulhos estridentes na piscina, como se houvesse amanhã. Confesso que julguei.

Na rua de baixo, num dos raros passeios com a cachorra, outros passeadores se reúnem diariamente para reclamar que as medidas de isolamento eram piores, e matariam muito mais por inanição econômica, do que qualquer gripezinha. 

Ao fim da tarde, a rua de casa vira zona de guerra, e o inimigo pode estar incubado em qualquer um dos garotos aglomerados para bater bola, ouvir música e fumar narguilé. O síndico diz que está ficando doido, mas não tem o que fazer: todo dia tem alguém implorando, chorando mesmo, para reabrir a quadra porque não sabe como entreter com os filhos em casa. "Eles pensam que estão de férias", diz ele para quem pergunta onde estão seus colhões. 

A pandemia me transformou naquilo que eu mais temia: o vizinho que olha os filhos adolescentes dos vizinhos e pede a Deus que proteja, não sem antes lamentar que a juventude e os churrasqueiros pecadores estão perdidos.

Em minha defesa, estou longe de encarnar o motorista do bairro que de dia veste a fantasia de super-herói e percorre as ruas para xingar todo mundo que saiu de casa sem a máscara.

Se no começo eu via a morte, com a foice e a capa escura, por toda parte, com o passar dos dias os rostos de pessoas próximas me jogavam num esquete do Bruno Sartori, o mago das deepfakes: os cabelos e trejeitos mudavam, mas todos à minha volta têm agora a voz e as feições de Jair Bolsonaro.

Muitos repetem os argumentos do presidente ipsis litteris. Outros, com uma ou outra variação, só para disfarçar o alinhamento automático com o que se viu na reunião ministerial do dia 22 — um roteiro pronto para entender até onde chegamos.

Quando manifesto algum receio (a palavra é pânico, mas eu disfarço), eles dizem que devo enfrentar a pandemia como homem, não como moleque.

Que todos vamos morrer um dia.

Que vírus é que nem chuva, 70% vamos pegar, paciência.

Juram também que desconhecem qualquer hospital que esteja lotado. (A prova é uma foto feita em Paris no fim do século 19, mas a corrente de WhatsApp garante que foi feita ontem em Campinas.)

Outros dizem que não querem esmola do governo, que assim a vida fica fácil, e perguntam o que eu tenho contra o comerciante que quer apenas trabalhar.

Outros batem no peito para dizer que ninguém ia tolher a sua liberdade e o direito de ir e vir.

E tem sempre os parentes e amigos que veem o fim de semana se aproximar e sondam aquela possibilidade de, sei lá, fazer uma visita de leve, viver como antes, quem sabe só um jantar.

Com o constrangimento de lembrar alguma notícia sobre famílias inteiras contaminadas em torno de um bolo e um guaraná vem sempre aquela culpa incutida na resposta. "Então você não quer?". "Então você acha que somos fracos o suficiente para sucumbir a uma gripezinha?" "Deus não vai permitir, homem de pouca fé."

Quando muito a contrariedade vem em forma de um inocente "vamos seguir torcendo". Torcendo?

Custa dizer que as palavras "é, "desejo" e "torcida" não deveriam sequer surgir à mesa no momento em que mais de 22 mil vidas já foram ceifadas na pandemia. 

Custa dizer que ninguém pede para fechar estabelecimentos ou evitar sair de casa porque quer, porque não se importa ou porque não confia na providência divina.

Proibindo ou não, muitos vão preferir ficar em casa a correr riscos. Me desculpe quem tem histórico de atleta, mas nem que seja obrigatório, e não apenas atividade essencial, eu volto tão cedo para a academia. Nem que no combo promocional eu ganhe uma esteira e um corte de cabelo.

Não é questão de querer, e isso deveria ser o óbvio do óbvio.

Entre tantos solavancos, nenhum é maior do que a nova condição que querem impor a quem ousa levantar o dedo para mitos e papos furados dizendo que olha, me desculpa, mas vai dar merda. Está dando. Deu muita.

Como resposta, a patrulha da boa fé tenta o tempo todo limitar você à condição de torcedor. Um torcedor que não entra em campo e se restringe apenas a enviar aos protagonistas do jogo pensamentos positivos sob a trinca da força, do foco e da fé. Desculpa, mas nem em estádio é assim que funciona. Não até o zagueiro perder a primeira bola.

Faz mais de dois meses que estamos vendo um caminhão desgovernado, com um motorista de olhar alucinado ao volante ameaçando atirar em todo mundo que cruzar a sua frente e confundindo direito de ir e vir com licença para atropelar. Inclusive seus ministros da Saúde.

Mas, por esta versão oficial, errado está você que, em vez de torcer para dar certo, prefere alertar os pedestres que tem um caminhão sem freio na contra-mão.

Na reunião do dia 22, ficou evidente que ninguém, entre as principais autoridades do país, tinha a menor dimensão da tragédia que se anunciava. O foco era apenas apertar os cintos, atacar inimigos reais e imaginários e seguir juntos em direção ao iceberg — com armas, despreparo e intimidação. Está na cara que, se existia ali algum plano, ele não tinha a menor chance de dar certo.

Feito o estrago, agora querem te convencer que a culpa é sua, que "torceu" contra.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.