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Filha de empregada faz financiamento coletivo para filme sobre nova senzala

Matheus Pichonelli

29/06/2020 04h00

Cena do filme "Aqui Não Entra Luz", que conta com financiamento coletivo para ser finalizado

Karoline Maia levou a mãe ao cinema na segunda vez que foi assistir "Que Horas ela Volta?".

No filme de Anna Muylaert, lançado em 2015, ano em que ela se formou em Rádio e TV, uma empregada doméstica (Regina Casé) que vive nos fundos da casa de uma abastada família paulistana recebe a visita da filha, que mora em Recife e vai a São Paulo prestar vestibular. A presença da jovem inteligente e questionadora interpretada por Camila Márdila acaba abalando as engrenagens silenciosas das relações de trabalho naturalizadas naquela mansão.

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Em uma sala do circuito Paulista-Augusta, onde a plateia era majoritariamente branca, a hoje cineasta de 26 anos ouviu risadas nos momentos do filme que mais a assustavam. Karoline também é filha de empregada doméstica. "No ponto que era para criticar, a branquitude ri dela mesma quando ela, na verdade, deveria refletir", lembra.

Quase cinco anos depois, a cineasta se prepara para lançar seu primeiro longa metragem, o documentário "Aqui Não Entra Luz".

Para isso, ela lançou uma campanha de financiamento coletivo para poder finalizar o filme, que investiga as relações de trabalho construídas no ambiente doméstico desde o Brasil colônia até os tempos atuais. De lá para cá, segundo a diretora, a senzala foi atualizada como quarto de empregada, e é a partir dessa transformação que ela explora as "complexidades, violências, semelhanças e especificidades entre o trabalho escravo do passado e o trabalho doméstico de hoje".

O documentário é resultado de uma viagem com uma equipe composta majoritariamente por mulheres negras que visitou casarões antigos e prédios contemporâneos. As entrevistas aconteceram em Acupe (BA), Salvador (BA), Belo Horizonte (MG), Rio de Janeiro (RJ) e São Luís (MA).

"O filme já existe", conta Karoline ao blog. "Foi gravado em 2019. O que precisamos é de mais recursos para continuar a montagem. O financiamento vai dar mais tempo para amadurecer a narrativa e a finalização de som, de cor, a trilha sonora, todos os detalhes. Vamos aquietar um pouco e concentrar 100% no filme."

A meta de doações é de R$ 80 mil para finalização e R$ 50 mil para distribuição. "Estamos otimistas que vamos atingir a meta. A campanha está sendo muito bonita. Estou feliz com essa trajetória do filme." Até a sexta-feira passada a arrecadação tinha chegado a R$ 61 mil.

A cineasta Karoline Maia. Foto: Camila Izidio

A ideia do filme surgiu em 2016. A cineasta conta ter vivido uma situação racista que serviu como pontapé para questionar muita coisa. Foi o dia em que uma chefe disse para ela: "Vai dormir no quarto de empregada. Ali na 'senzala"'. "Ela mesmo fez a comparação com a senzala", relembra Karoline, que prefere não dar ênfase a esse episódio. "O filme não é sobre isso. Eu já tinha a ideia de fazer um documentário. Mas foi uma situação que me provocou a querer saber mais sobre tudo isso e ir atrás dessa história."

Com o amadurecimento da ideia, ela decidiu se colocar no filme, narrado em primeira pessoa. "Sou filha de trabalhadora doméstica e entendi que o caminho feito a partir desse olhar seria interessante. Mas o filme trata de uma busca mais ampla", resume.

Foi essa perspectiva que filmes recentes sobre a temática, não atingem inclusive "Que Horas Ela Volta?" e o recém-lançado nas plataformas digitais "Três Verões", de Sandra Kogut — ambos são protagonizados por Regina Casé.

Karoline ainda não assistiu ao drama de Kogut, mas conta ter se identificado com o longa de Muylaert, criticado na época por não ter atores negros nem nascidos no Nordeste, como seus personagens. "Existe essa complexidade. Mas, falando de um lugar mais afetivo, eu gosto do filme."

Como Jéssica, uma das protagonistas da trama, Karoline também teve acesso à faculdade enquanto sua mãe sequer terminou a escola.

A cineasta conta que, em seu filme, a voz dos patrões interessava, mas não era a parte mais importante da história, e sim a perspectivas das trabalhadoras. 

"Aqui Não Entra Luz" é resultado, segundo ela, de um conjunto de experiências. "Eu não posso comparar a minha trajetória com a delas. Por mais que eu seja negra, pobre, periférica, e seja filha de trabalhadora doméstica, eu fiz um outro movimento, acessei a faculdade, fui trabalhar com cinema", diz ela, antes de se corrigir: "Quer dizer, fui tentar trabalhar com cinema".

Nascida e criada no Jardim Helena, na zona leste de São Paulo, Karoline conta que seus pais, mesmo não tendo ensino superior, sempre a incentivaram a ler muito. "A leitura me permitiu sonhar. Isso foi muito importante na minha vida."

Ela começou a trabalhar com audiovisual em 2013. Na mesma época, criou com uma amiga uma websérie chamada "Cultura das Bordas". "Saíamos nós duas para filmar. Tínhamos uma câmera Canon T4i, um tripezinho e uma lapela. Não sabíamos o que estávamos fazendo, mas estávamos lá. Meu contato com o cinema começou ali, com essa vontade de contar histórias das pessoas do meu bairro, com quem eu me identificava e respeitava e que mereciam ser ouvidas. Isso amadureceu minha relação com o audiovisual e me permitiu ter sonhos maiores. Como sonhar com um longa metragem. Agora estamos tentando fazer esse filme acontecer."

Sobre a temática do filme, a diretora conta que as notícias recentes mostram que "continuamos diariamente vendo coisas e imagens muito simbólicas". "Outro dia mesmo acordei e o primeiro vídeo que vi no story de uma pessoa que eu sigo foi uma personal trainer, branca, que fez um Tik Tok com a empregada dela. No vídeo, ela e o marido estão com roupa de ginástica. A empregada está com uma camiseta, uma legging, meia, chinelo e pano na mão limpando a cadeira. E todos estavam posicionados para começar a dançar uma musiquinha. Achei esse vídeo muito forte. Na legenda ela comemora que a doméstica tinha voltado pra casa dela. Comemora que ela voltou depois de passar um tempo fora. E que a família dela agora estaria completa. Dá pra ficar muito tempo falando desse vídeo."

Segundo ela, a quarentena e o acesso à internet potencializaram esses casos que sempre existiram, mas que só agora conseguimos ver. Quando o menino Miguel, de cinco anos, morreu em Recife, após acompanhar a mãe no trabalho e ser despachado pela patroa, que o botou no elevador quando a empregada saiu para passear com os cães e ele caiu no choro, Karoline conta que ficou muito tempo mal.

"Chorei bastante. Fiquei pensando nas possibilidades que o Miguel poderia vir a ter na vida dele", diz ela, conjugando os verbos num futuro de impossibilidades.

Como Miguel, a hoje cineasta acompanhava a mãe no trabalho quando tinha entre cinco e sete anos de idade. O pai é professor de música e, já na época, trabalhava em casa. "Minha mãe me levava porque tinha saudade e queria ficar perto de mim."

A mãe, Miriam Mendes, tem 54 anos e trabalha limpando escritórios. Ela não quis dar entrevista para o filme. "Tenho um áudio de pré-entrevista com ela, e talvez esse áudio seja trabalhado na montagem. Mas a gente vai usar material de arquivo para contextualizar essa época da minha vida."

Ao fim da conversa, na sexta-feira (26), surgiu a notícias de que uma mulher de 61 anos foi resgatada em uma casa no Alto de Pinheiros, em São Paulo, vivendo em situação análoga à escravidão, sem salário há uma década e num quarto sem acesso a banheiro.

"É desesperador", resumiu Karoline, antes de concluir: "Essa ferida ainda está muito aberta".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.