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Adoecer educa? Pergunte a Dinho Ouro Preto

Matheus Pichonelli

09/07/2020 04h00

Dinho Ouro Preto (Lucas Lima/UOL)

Dinho Ouro Preto é, antes de tudo, um forte.

Em setembro de 2009, ele foi diagnosticado com a gripe suína. No mesmo ano, caiu de uma passarela de três metros de altura enquanto fazia um show em Patos de Minas (MG). Sofreu traumatismo craniano, quebrou seis vértebras, duas costelas, um osso da mão, teve uma grave infecção durante a internação e ficou à beira da morte em uma UTI. Passou por diversas cirurgias para colocar os ossos no lugar e precisou reaprender a andar em linha reta.

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Recuperado, teve dengue sete anos depois e, em março de 2020, anunciou que testou positivo para covid-19. Passou 28 dias com febre. "Nunca peguei algo tão forte", disse ele em uma entrevista.

Exaustão, falta de fôlego e rouquidão foram alguns dos sintomas relatados pelo vocalista da banda Capital Inicial. "Vou ficar isolado, me alimentar, me hidratar e esperar", prometeu.

Dinho sobreviveu, mas em nenhum momento diminuiu a gravidade da doença, chamada por ele de "a maior crise da nossa geração".

Se fosse chefe de Estado, essas palavras talvez evitassem que a pandemia se tornasse um morticínio por aqui.

Na última terça-feira (7), Jair Bolsonaro, o chefe de Estado, anunciou que é mais um entre os mais de 1,7 milhão de brasileiros infectados pelo coronavírus.

Um dia antes, cancelou compromissos, pediu distância a apoiadores e revelou ter feito uma "chapa do pulmão". 

Confirmado o diagnóstico, dizendo se sentir melhor, flertou com o perigo numa coletiva com jornalistas. Chegou a tirar a máscara (não obrigatória no país, graças a ele) em alguns momentos, passou a mão no microfone e demonstrou disposição para gravar uma espécie de "merchan" da cloroquina, sua obsessão desde o início da pandemia e que já deixou de ser aconselhada e/ou aplicada por instituições de referência, como a Organização Mundial da Saúde, a agência regulatória dos EUA (FDA), o Instituto do Cérebro, no Rio, e o hospital Albert Einstein, em São Paulo. 

A aposta no medicamento foi o pivô da saída de dois ministros da Saúde com formação em medicina, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich. Nenhum deles sabia o que fazer com o estoque de cloroquina produzida pelo Exército nem com os comprimidos doados pelos EUA.

Bolsonaro aparentemente encontrou a resposta tomando e recomendando o medicamento diante das câmeras. "Com toda certeza tá dando certo. Eu confio, e você?".

O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Marcos Correa/PR

O anúncio de que estava contaminado levou muita gente a se questionar de que maneira a infecção mudaria a relação de Bolsonaro com a doença. Até então, o presidente negacionista se notabilizava por minimizar os efeitos do vírus que, só nas contas oficiais, matou quase 70 mil brasileiros em poucos meses –mais do que qualquer outra doença, crime ou acidente durante todo o ano de 2019.

Será que, sem precisar se colocar no lugar de alguém que não seja ele mesmo, o presidente observaria em perspectiva as próprias declarações, como a de que era preciso enfrentar o vírus como "homem, porra, não como moleque" ou que "todos nós iremos morrer um dia" e "paciência"?

Caso seja hospitalizado, vai querer que um bando de malucos invada os corredores das unidades de terapia intensiva para enfiar o celular e o dedo na cara dos profissionais de saúde ocupados em salvar a sua vida?

Ou vai aproveitar a própria história de superação para dizer que morrer de covid-19 é para os fracos?

Até aqui, a epifania passou longe da chapa do capitão, que em poucas horas já minimizava a doença como sempre e jurava, contrariando os fatos, que os mais jovens poderiam ficar tranquilos porque "para vocês, a possibilidade de algo mais grave é próxima de zero". 

Não tem cloroquina que dê conta da ignorância e nem da incapacidade de aprender com a história, com a própria experiência e com a dos demais. Empatia não está à venda na farmácia.

Para quem voltou a ser exatamente o que era após ser covardemente esfaqueado na campanha, não seria uma pandemia que mudaria o capitão.

Os primeiros sinais pós-covid são uma pá de cal em quem achava que a experiência dolorosa poderia ser educativa para mudar um coração empedernido, como se o presidente fosse uma versão verde e amarela do avarento Ebenezer Scrooge de "O Conto de Natal", de Charles Dickens.

Na vida real, é bom ouvir o que tem a dizer Dinho Ouro Preto, nosso patrimônio da resiliência. "Não foi o acidente que me fez perceber o valor dos meus relacionamentos, da minha família, dos meus filhos, dos meus amigos, ou da sorte que eu tenho de fazer o que eu faço", disse ele, ao relembrar a queda no palco, em entrevista a Joelmir Tavares, em 2016. "Já tinha meio caído a ficha de que eu era um sortudo, sabe? E o acidente… Acidente é um perrengue. Só. Não tem nada de bom, velho. É uma merda."

Que o presidente se recupere logo de suas enfermidades. As do corpo e as da alma.

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.