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Fala de Bolsonaro sobre vacina é teste positivo para ignorância

Matheus Pichonelli

03/09/2020 04h00

(Eduardo Anizelli/ Folhapress)

O general que na pandemia assumiu interinamente o Ministério da Saúde nomeou, na semana passada, um veterinário para comandar o Departamento de Imunizações e Doenças Transmissíveis

Se tudo der certo (para ele), o especialista em prevenção e controle de doenças em animais será responsável pelo programa nacional de imunização dos brasileiros que falam e pensam quando as primeiras doses da vacina contra a covid-19 estiverem prontas para distribuição.

Isso se os humanos que pensam ser quadrúpedes permitirem.

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Quatro dias depois da escolha, uma apoiadora pediu ao presidente Jair Bolsonaro "não deixar fazer esse negócio de vacina, não, viu? Isso é perigoso".

Com os dedos, Bolsonaro fez uma espécie de continência à interlocutora e saiu pela tangente: "Ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina".

No Twitter, a Secretaria de Comunicação do governo endossou a conversa. Prometeu recursos para estados e municípios, recursos para saúde e economia. Prometeu "TUDO" em caixa alta, "mas impor obrigações definitivamente não está nos planos".

Para mau comunicador, meia confusão basta.

Na mesma semana, o Brasil passava dos 120 mil mortos por coronavírus, número 60 vezes maior do que previa um dos principais conselheiros do governo para a área da saúde. O boicote aos esforços pelo isolamento tinha como meta "salvar a economia". O rombo de quase 10% do PIB do segundo trimestre mostra que não conseguiu nem uma coisa nem outra.

No sexto mês da pandemia, Bolsonaro decidiu brincar com o sistema de imunização do país com um aceno aos grupos antivacina, um flerte com o atraso em pleno século 21. Não existe cura, afinal, contra a ignorância.

Este flerte, que contraria uma lei do próprio governo, já chega com sinal trocado. "Impor obrigações" aos cidadãos, aqui, pode ser lido como uma tentativa do governo de fugir de seus deveres e responsabilidades em relação à saúde pública. Os mercadores da salvação paga agradecem, enquanto os bolsonaristas mais fanáticos já preparam memes ligando o Zé Gotinha ao comunismo.

De duas uma. Ou Bolsonaro não sabe o que diz ou sabe muito bem, e isso só piora a situação. Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente, que o capitão gostaria de mandar para a latrina, "é obrigatória a vacinação das crianças nos casos recomendados pelas autoridades sanitárias".

Essas autoridades passaram a quarentena tentando vencer o vírus e as sabotagens explícitas da maior autoridade política do país.

O saldo está aí.

Em entrevista recente ao podcast Café da Manhã, da Folha de S.Paulo, a professora de Saúde Pública da USP Deisy Ventura lembrou que qualquer manual básico sobre gestão de emergências tem na comunicação de risco um pilar fundamental. Isso se faz com discurso unificado e clareza e deve reforçar a confiança nas autoridades sanitárias. "Na comunicação somos um desastre completo, inclusive por conflitos e partidarização de questões que não têm nenhuma relação com política no sentido eleitoral", disse a especialista.

Em alguns casos, a comunicação oficial não era só errática. Era mentirosa, como o post sobre uma suposta queda no número de mortes por doenças respiratórias no Ceará que o Instagram precisou cobrir com o selo de fake news.

No Brasil, a vacinação foi responsável pela erradicação da varíola e da poliomielite (paralisia infantil), mas isso parece um detalhe em um tempo em que, para evitar a divulgação de más notícias, é preciso matar o mensageiro –ou impedir que faça seu trabalho, como tentaram os Guardiões do Crivella, amigo do peito do presidente, no Rio.

Em abril, quando pouco mais de mil pessoas já haviam morrido por coronavírus no país, Bolsonaro apelou ao seu "direito de ir e vir" ao provocar uma das muitas aglomerações que promoveria ao longo da pandemia. Ele chegou a vetar a obrigatoriedade do uso de máscaras em espaço público, para alegria de quem confunde liberdade individual e direito à autossabotagem com direito a ser mau cidadão e infectar outras pessoas.

Tudo em nome da liberdade, conceito no vocabulário bolsonarista que não se estende à autonomia da Polícia Federal, à vontade da maioria dos procuradores do Ministério Público ou a ministros indispostos a vender a cloroquina e o armamentismo como solução para todas as dores. 

Esse conceito se aplica menos ainda à liberdade de professores abordarem temas como educação sexual em sala de aula, de bancos públicos dialogarem com grupos LGBT, de servidores se manifestarem como antifascistas nas redes ou de uma criança de dez anos interromper a gravidez após ser sistematicamente estuprada pelo tio. Para pessoas como ela, liberdade é uma blitz de fundamentalistas na frente de um hospital.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.