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Sem aplausos, com buzinas: o dia em que levei meu filho ao teatro drive-in

Matheus Pichonelli

31/08/2020 04h00

Foto: Cine Drive Campinas

Sábado retrasado fomos ao teatro.

Foi uma surra de "novo normal".

Não, nossa cidade ainda não avançou para a faixa azul da pandemia, as pessoas seguem se contaminando a rodo e já não lembro da última vez que sentei numa poltrona e ouvi uma gravação pedir para desligar bips, pagers e celulares. Talvez tenha sido no tempo em que alguém ainda usava bip.

Um dia no teatro infantil drive-in. (Matheus Pichonelli)

Mas, depois de meses trancafiados em casa, não parecia má ideia, nem a mim nem à mãe, trancafiar uma criança de sete anos em um automóvel por cerca de duas horas. Ou que talvez, só talvez, nosso filho não estivesse tão animado assim para assistir à peça inspirada em uma história da Disney que ele nunca ligou. Fosse uma projeção de jogos de luta no videogame em tela grande, vá lá.

Mas não custava tentar, e ao entrar no quinto mês de pandemia qualquer atração parecia mais interessante do que as paredes do meu quarto. Nem que fosse para conferir a encenação dos melhores lances de Athlético Paranaense e Palmeiras, um dos maiores horrores já transmitidos pela televisão em tempos recentes.

E fomos.

Não era exatamente uma vantagem poder ir ao teatro com a mesma roupa que usava desde a noite anterior, mas era um alento.

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Para entrar na arena, em formato drive-in, foi preciso passar por um túnel sanitário onde uma equipe estrategicamente localizada nos pontos de acesso, tirava, com uma máquina, a nossa temperatura e distribuía um folheto com um QR Code. Era o código para chamar comida pelo aplicativo.

Parecia que íamos entrar em alguma plataforma futurística, mas era só o estacionamento de um shopping da região.

Lá, bastava selecionar os produtos pelo celular e alguém com face shield brotava da terra contaminada com iguarias como pipoca, balas, chocolates e até cerveja dentro da mochila. Pensei em comprar algumas, mas me censurei por causa do valor, o suficiente, em outros tempos, para comprar o terreno onde seria realizado aquele espetáculo. Não valia o preço da logística para sair do carro caso, sob o efeito do diurético, precisasse ir ao banheiro daquela trincheira. 

Pois, em vez de lanterninhas, era preciso chamar alguém por aplicativo para entrar na fila de banheiros high tech ao lado do palco.

Tudo ficou ainda mais complexo quando pensamos na engenharia de tráfego necessária para dar a marcha a ré e desfazer a fileira de carros ao redor quando nosso filho começou a ficar agitado demais naquele ambiente. Com DEZ MINUTOS de espetáculo. Nem a cúpula da CET daria conta do abre-e-fecha, entra-e-sai sobre rodas. 

Foi uma rápida e dolorosa negociação, que terminou com um acordo em termos justos. Ele nos dava o silêncio e a mãe dava a ele, além de pipoca (TRINTA E OITO REAIS O COMBO COM ÁGUA E CHOCOLATE), uma folha para desenhar e acesso irrestrito a tudo o que tinha no celular, inclusive YouTube e o joguinho do Super Mário Run.

Acho que foi neste momento que os atores perceberam que nosso carro parou de chacoalhar.

Os sons do aparelho, é verdade, competiam com os da frequência do rádio, por onde podíamos ouvir o que acontecia na peça.

Os ruídos incomodavam menos do que o sol de um fim de tarde sem nuvens, cujos raios refletidos no vidro dianteiro nublavam qualquer visão. Mesmo para nós, estacionados em um cercadinho de ferro na segunda fileira. 

O palco tinha o auxílio de dois telões e um cenário virtual que trocava conforme os personagens mudavam de ambiente. Uma hora estavam na floresta. Outro, na praça. Depois, em um castelo. Nos outros carros, víamos crianças escalando o banco de passageiros ou embrulhadas no cobertor. Era o fim de semana mais gelado do ano.

Apesar dos contratempos, os atores seguiam de pé. Encenavam, cantavam e dançavam com figurinos propícios a uma tarde de verão. 

O termômetro marcava 15 graus, mas fora do automóvel a sensação térmica não devia ser melhor.

A certa altura, minha atenção competia com uma preocupação algo paternal de quem via a temperatura despencar conforme anoitecia. Eles não estão com frio? Não vão pegar gripe desse jeito? Se alguém espirrar a carga viral chega até aqui?

E ventava. Muito. Ventava tanto que as rajadas cortavam os diálogos ecoados pelos microfones. "Eu gostaria de dizer que Fuuuuuuuuu". "Mas não é certo você Faaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa".

Em um espetáculo drive-in, o nível de atenção não é o mesmo de quando nos incubamos em uma "caixa", fechada em quatro paredes, e a iluminação se concentra no palco. Ao fundo, as árvores chacoalhavam. As varandas dos prédios em volta se iluminavam. E não tinha como não perguntar por que diabos chegavam tantos carros no shopping num sábado de pandemia.

Com os espectadores fechados numa cápsula automotiva, os atores não podiam ouvir nem vaias nem aplausos. Pediam, em vez disso, buzinas. 

Elas pipocaram em diversos momentos do espetáculo, um clássico de outro século coalhado de referências ao Brasil atual –um personagem se negava a atravessar uma floresta com medo de lobos e do coronavírus. Se fechássemos os olhos, poderíamos matar saudade dos tempos de engarrafamento na marginal.

Meu mau humor só foi dobrado quando, ao fim do espetáculo, entre lágrimas, um dos atores da trupe agradeceu o esforço de todos para estarem lá: "Não foi do jeito que queríamos. Queríamos ter voltado antes e não podíamos, mas estamos aqui. Sem aplausos, mas com buzinas, voltamos a emocionar e nos emocionar".

Naquele momento, já era começo de noite. O termômetro marcava 13ºC, com viés de baixa para a próxima atração.

A opção drive-in pode não ser o melhor dos programas para quem tem filhos agitados e acelerados, como o nosso. Mas tem todo nosso respeito (e buzinas) quem, apesar dos perrengues e das condições sanitárias possíveis, faz de tudo um pouco para o show continuar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.