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Bolsonaro escolheu alvo errado: ‘Bruna Surfistinha’ é sobre pais de família

Matheus Pichonelli

19/07/2019 17h38

Deborah Secco em cena do filme "Bruna Surfistinha" (Dovulgação)

 

Jair Bolsonaro declarou que não pode admitir que, com dinheiro público, se façam filmes como o da Bruna Surfistinha. "Não dá. Não somos contra essa ou aquela opção, mas o ativismo não podemos permitir em respeito às famílias. É uma coisa que mudou com a chegada do governo", disse.

Para o leitor desavisado, a fala do presidente leva a crer que, até sua chegada ao poder, o Brasil era uma grande suruba filmada e subsidiada pelo dinheiro dos celibatários involuntários.

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A declaração foi feita durante um cerimônia para comunicar mudanças na Ancine, Agência Nacional de Cinema, na quinta-feira, dia 18.

Eleito pelo voto popular, Jair Bolsonaro tem não o direito, mas o dever de definir o que deve e o que não deve ser prioridade quando o assunto é dinheiro público. A miséria, por exemplo, parece não ser uma das preocupações, como deu a entender ao dizer que "passar fome no Brasil é uma grande mentira".

A menção ao filme "Bruna Surfistinha", que teve mais de 2 milhões de espectadores, gerou 400 empregos e milhões em impostos diretos e indiretos, porém, deveria ligar um alerta sobre quem, em "respeito às famílias", está sentado no cofre do Tesouro e começa a determinar o que é ou não de bom gosto.

Sabemos, ou deveríamos saber, como essa conversa termina – pela lógica bolsonarista, não demora para os recursos e energias da produção audiovisual serem direcionados para histórias de superação, moralidade e meritocracia com títulos providenciais como "O Filho" ou "Os Herdeiros", possíveis sucessos de público e crítica entre os youtubers chapa-branca.

Falta explicar por que uma família se espantaria com o longa dirigido por Marcus Baldini e estrelado por Deborah Secco – a menos que algumas dessas famílias tenham receio de saber o que fazem seus pais quando dizem que vão ficar até mais tarde no escritório ou vão sair para pescar com os amigos. (A cena mais pornográfica do longa é quando um cliente abre a carteira para mostrar a foto da filha que chama de xodó e outros, na sequência, compartilham com a protagonista seus dilemas profissionais, afetivos, familiares).

Fico em dúvida se o presidente viu o filme. Se viu, não entendeu: o enredo não reforça nem de longe o terraplanismo cinematográfico que ele tenta produzir dizendo que seus antecessores financiaram a indecência. O filme, afinal, não faz oba-oba nem propaganda da esbórnia, mas um retrato crítico da exploração sexual, da violência, dos limites éticos entre dinheiro e acesso a corpos e do mundo das drogas – o que leva a personagem a viver não uma doce vida, mas um grande conflito e um grande vazio.

Há modos e modos de encarar essas questões. O pior deles é tapar olhos, bocas, narinas e orelhas, criando falsos inimigos com falsos dilemas.

A estratégia é parecida com o discurso sobre as tais "doutrinação" e "ideologia de gênero" nas escolas. Num país que silencia a violência sexual contra crianças, parte dela praticada em casa e por pessoas conhecidas das vítimas, "falar" sobre o problema se tornou sinônimo de sexualização precoce.

É uma forma de jogar no limbo não só estratégias efetivas de identificação de violência e difusão dos canais de denúncia, como também as orientações sobre prevenção de doenças ou gravidez precoce.

Mais fácil tampar tudo com uma massa de concreto e escrever em cima: TABU. E deixar que a iniciação visual e sexual dos jovens brasileiros seja mediada apenas pelos canais de pornografia de livre acesso que transbordam pela internet.

O ataque aparentemente aleatório a uma produção como "Bruna Surfistinha", para possivelmente reivindicar o maior controle sobre o que o Estado deve subsidiar para consumo das famílias, é mais uma falsa dicotomia.

Como bem lembraram os internautas ao longo do dia, a fala seria menos estranha, à lógica e à coerência, se não partisse do mesmo presidente que, tempos atrás, justificava o recebimento de auxílio-moradia, mesmo tendo imóvel em Brasília, dizendo que precisava de um lugar "pra comer gente".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.