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Aos 84, professora aposentada lança candidatura à embaixada nos EUA

Matheus Pichonelli

22/08/2019 04h00

A professora Dirce Pereira da Silva, "anticandidata" à embaixada nos EUA (Acervo pessoal)

Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) ganhou uma concorrente pela indicação à embaixada brasileira nos EUA. Aos 84 anos, a professora aposentada Dirce Pereira da Silva acaba de lançar sua candidatura ao posto, em Washington.

Candidatura, não, explica ela ao blog. "Anticandidatura, tal como Ulysses Guimarães contra Ernesto Geisel em 1973", corrige. "Teremos discussões muito interessantes", diz ela, entre risos.

Em vez de um pai-presidente, como o deputado federala postulante tem a seu favor a hashtag #DirceNaEmbaixada e uma página-paródia no Facebook. Não se sabe quantos senadores apoiam a campanha, mas ao menos cem pessoas prometem comparecer a um ato simbólico, em Brasília, se a ideia ganhar fôlego. Alguns ex-alunos de Penápolis, onde ela nasceu e lecionou, já se empolgam e manifestam apoio.

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A brincadeira colocou em debate, entre os seguidores da professora que por mais tempo lecionou na rede pública do estado de São Paulo, as credenciais do filho do presidente para o cargo. Um dos argumentos em favor do deputado federal é que ele fala inglês e já fritou hambúrguer durante um intercâmbio no país.

A professora retruca: fala inglês, espanhol e francês. Além disso, já trabalhou como lavradora (1939-1942), lavadeira (1942-1954), professora (1955-2004) e diretora de escola (1974-1986), além de ter licenciatura em pedagogia e pós-graduação em educação.

A página criada para seus seguidores conta com uma enquete sobre qual linha deve pautar sua atuação na embaixada. As opções: "a defesa dos direitos humanos, cidadania e combate a todas as formas de preconceito", "lamber as botas de Donald Trump" ou repetir como papagaio a expressão "tá okay"?

Apesar da oposição, a anticandidata tem algo em comum com o clã Bolsonaro: a presença nas redes sociais. Em sua descrição no Facebook, ela diz ter uma filha de coração, dois netos e dois bisnetos. A um deles ela promete a nomeação ao cargo de Superior-Embaixador. "Comigo não tem nepotismo", brinca.

A ex-professora é neta de um escravo nascido dez anos antes da Lei do Ventre Livre. Em 1954, ela se tornou a primeira professora de uma família que contava com 187 pessoas, todas analfabetas. "A 188ª tornou-se, quase que por ironia, alfabetizadora", conta.

O "dono" dos avôs era um visconde e o primeiro patrão de seu pai tentou comprá-la quando tinha 15 anos. "Tenho nojo só de pensar na cara daquele velho, que demitiu meu pai e o ameaçou de morte por ele se recusar a me vender."

Hoje ela se define como "uma simples militante de direitos de minorias, e nada mais". "Minha luta contra o racismo começou provavelmente em 1934, quando nasci. Esse foi o maior desafio da minha vida, sem dúvidas, mas não foi o único. Eu fui proibida de me casar com meu noivo pelo simples fato de ser negra. A proibição veio não apenas dos pais dele, mas também da própria Igreja."

Em 2008, a prefeitura de Penápolis decidiu homenagear a professora em um ato simbólico, que ela considera um pedido tardio de desculpa por ter sido expulsa de quase todos os bailes da cidade na juventude.

A professora Dirce Pereira da Silva, na década de 50. (Acervo pessoal)

Dirce conta também ter testemunhado de perto o horror da homofobia e da transfobia "quando essas nomenclaturas sequer existiam". "Minha prima Sophia, nascida como José Carlos, foi brutalmente assassinada em 1956. E o mais difícil de suportar é que sei perfeitamente quem a matou. Ele é vivo e tem uns 90 anos de idade. À época, já era casado. Matou minha prima porque ela se apaixonou e queria fugir com ele para viver um romance… como ele tinha certa reputação social, matou a Sophia com medo de que descobrissem algo. A polícia jamais resolveu ou investigou o caso, mesmo porque minha tia já havia expulsado a Sophia de casa", relembra.

Sua avó, criada na senzala, vivia sendo presa sob acusação de charlatanismo. "Mesmo nunca tendo recebido um único centavo para consultar os seus Orixás. Na última vez em que foi presa (sob pretexto de desacato), saiu da prisão aos 92 anos de idade. Vivíamos sob a égide de uma ditadura civil-militar."

Dirce lembra que, sete décadas após ser chamada por todos os seus professores de "macaca com lacinho no cabelo", hoje é chamada de "feminazi", "intolerante" e "vitimista". "Por isso digo que minha geração fracassou: não conseguiu deixar um mundo melhor. Assumo aí a minha parcela de culpa. Formei muita gente, mas minha esperança sempre foram os jovens… E hoje grande, imensa parte desses jovens têm como exemplo um messias, mais precisamente Jair Messias Bolsonaro", lamenta.

No auge da campanha, o jornalista Lucas Franco, seu conterrâneo de Penápolis, gravou um vídeo em defesa do "nonsense" da anticandidatura como uma forma de responder à distopia do Brasil atual. "Ela é a síntese do Brasil. A síntese de um país que violenta as mulheres e os negros. Ela é uma vitoriosa", resumiu.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.