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"E se você falasse com seu chefe como Bolsonaro fala com você?”

Matheus Pichonelli

26/08/2019 04h00

O presidente Jair Bolsonaro participa da cerimônia do Dia do Soldado, na Concha Acústica do Quartel-General do Exército (Antonio Cruz/Agência Brasil)

"Quem manda sou eu", "Interfiro mesmo", "Não sou banana."

As frases acima viraram uma espécie de mantra do governo Bolsonaro. O esforço em demonstrar autoridade alimenta as análises psicológicas mais sofisticadas sobre uma possível tentativa de neutralizar a própria insegurança.

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A postura até faria sentido se o Brasil fosse uma quitanda e o presidente, seu proprietário, mas na vida pública a hierarquia não funciona bem assim. A insistência do presidente em dizer que é ele quem manda sugere que ele ainda não se deu conta de que é um político, e o político é, antes de tudo, um servidor. Como o próprio nome sugere, cabe a ele servir e não (só) ser servido. Ouvir e (não só) ser ouvido.

Isso é o básico do básico, mas não custa voltar algumas casas no tabuleiro civilizatório para lembrar que quem manda nesse jogo é a população, que tem no trabalho da imprensa a melhor interface com seus representantes –embora, se dependesse do presidente, excesso de jornalismo daria cadeia no Brasil.

Aos governantes cabe prestar contas, esclarecer dúvidas, comunicar projetos e resultados. Ao menos em uma democracia é assim que funciona, e até o fechamento deste post nós ainda vivemos em uma.

A postura centralizadora e voltada para si do presidente leva a imaginar o que aconteceria com um trabalhador comum se ele aderisse ao léxico bolsonarista toda vez que é questionado ou precisa prestar contas dos seus atos na "firma".

– Jair, tem um incêndio na sua seção de frutas.

– Não tem, não. Isso é coisa da imprensa.

– Mas tem uma fumaça vindo de lá. Está chegando aos outros departamentos.

– Fake News!

– Isso está entupindo nosso nariz. Você exagerou nos agrotóxicos de novo, né?

– Que nariz? Que agrotóxico? É sensacionalismo isso aí, tá ok? Deve ser golden shower daquele pessoal lá da… lá da esquerda.

– Por que você deixou isso acontecer? Estava no Twitter de novo, né?

– Não fui eu, foi o pessoal que trabalhava aqui antes de mim, tá ok?

– Mas você é o responsável pelo setor há oito meses. Você precisa fazer alguma coisa.

– O que precisamos é acabar com o comunismo e a corrupção, tá ok? E com o po-li-ti-ca-men-te-cor-re-to.

– Mas a quitanda está em chamas, Jair. Está em chamas.

– Bom está na Venezuela, né?

-Jair, você pode abaixar essa arma pra falar comigo, por favor?

-Eu sou assim mesmo e não vou mudar, tá ok?

O diálogo seria impensável em qualquer ambiente sério, mas é exatamente assim que se comporta o presidente toda vez que é questionado ou precisa justificar as palavras, ações e omissões relacionadas ao posto para o qual ele se candidatou e se elegeu.

Quem já leu alguma vez na vida uma lista de revistas especializadas em carreiras sabe que relacionamento interpessoal, capacidade de ouvir, trabalhar em grupo e empatia são algumas das características imprescindíveis para qualquer profissional prosperar no ambiente de trabalho. Isso sem falar nas noções de responsabilidade. Por que em Brasília seria diferente?

A lista de pessoas que deixaram o governo ou a base governista porque ousaram discordar do presidencialismo de colisão (sic) instaurado por Bolsonaro é até aqui a maior prova da incapacidade de gestão de um governante obcecado por armamento, que faz brincadeira sobre troca-troca com ministros, sugere que o brasileiro faça cocô dia sim, dia não, se gaba por ser chamado de capitão motosserra, chama manifestantes e adversários de idiotas úteis, comunistas, esquerdalhas e paraíbas, que faz troça sobre mortos e desaparecidos na ditadura, homenageia torturador, espalha mentiras sobre jornalistas indispostos a bater palma ao capitão e demite os responsáveis por apurar os números sobre desmatamento porque os números não batem com o desejo do chefe.

Tudo isso enquanto empresta avião da FAB para parentes irem ao casamento do filho que planeja presentear com uma embaixada nos EUA.

O último a deixar o barco foi Henrique Pires, que trabalhava na secretaria da Cultura e se negou a chancelar o que ele chamou de censura em um edital para a produção de séries sobre temas LGBT.

Passou longe de ser a única polêmica do governo na semana em que o mundo resolveu se mobilizar em defesa da Amazônia.

Nas condições atuais, reduzir o país à própria quitanda é o menor dos males. Difícil será impedir que ela seja devastada pelo incêndio que, no léxico bolsonarista, há muito deixou de ser uma figura de linguagem.

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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