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Após trauma, ela hoje ajuda mulheres a pedalarem juntas e sem medo

Matheus Pichonelli

09/12/2019 04h00

A professora Bruna Fávaro, que ajuda a reunir mulheres para pedalarem juntas pelas cidades

 

Como muitos ciclistas, a professora do ensino básico Bruna Fávaro, de 33 anos, aprendeu a andar de bicicleta ainda na infância. Ela pedalava nas férias, durante as viagens para o interior, mas evitava encarar as ruas de São Paulo, onde nasceu.

A relação tortuosa com a cidade chegou ao ápice em 2012, quando sua cunhada, a bióloga e cicloativista Julie Dias, morreu atropelada na avenida Paulista. "Isso me trouxe muitos medos. Achava que era uma briga perdida, muito perigosa. Evitava fazer minhas coisas de bicicleta, apesar de ter uma rotina curta."

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Tudo mudou em 2013, quando um grupo de ciclistas amigos de sua cunhada resolveu fazer uma homenagem a ela e organizou uma pedalada até São José dos Campos (SP), onde vivia a sua família, a 120 km da capital.

"Já estava fazia muito tempo sem pedalar. Tinha uma bicicleta parada, mas dei um trato nela e fui com esse grupo. Foi bem difícil, estava super fora de forma", relembra.

"Quando fiz esse pedal, conheci muitas outras pessoas que gostavam muito da Julie. Com esse contato, comecei a perceber que eles pedalavam todo dia, mesmo morando longe do centro. Fui então criando coragem. Hoje eu uso a bicicleta sempre que posso."

A retomada a levou a perceber o quanto esse modo de locomoção é hostil para mulheres. Uma realidade que precisava mudar. 

"Sozinha, a mulher não tem chance de pedalar por esses lugares. Mas com cem pessoas esse pedal se viabiliza". Foto: Marina Ortis Lopez

 

 

 

 

 

Em 2019, ela e um grupo de amigas ajudaram a trazer a São Paulo o evento 100Gurias100Medo, movimento iniciado por dois coletivos feministas em 2016, que levou uma centena de ciclistas mulheres a tomarem as ruas de Porto Alegre. Nos anos seguintes, a iniciativa se repetiu em Florianópolis e no Rio de Janeiro.  

A versão paulistana do evento, realizada entre 15 e 17 de novembro, contou com palestras, rodas de conversa temáticas, oficinas de mecânica básica, aulas para iniciantes e, claro, muita pedalada: ao todo, as mais de cem ciclistas percorreram cem quilômetros da cidade, passando por avenidas movimentadas, como a Berrini e a Faria Lima, e pontos históricos. 

"Sozinha, a mulher não tem chance de pedalar por esses lugares. Mas com cem pessoas esse pedal se viabiliza", resume. 

Bruna conta que, ao pedalar pela cidade, o assédio é ainda muito comum. O medo, também. "Quem está no carro passa a mão na gente ou faz todo tipo de gracinha. Tem a questão da fina, quando o motorista não desvia de você, se aproxima, como se dissesse que o lugar da bicicleta é no parque no fim de semana."

Ocupar esses espaços, afirma Bruna, envolve contestar a forma como a bicicleta ainda é pensada para o público masculino, a começar pelas ciclovias. 

"Tem estudos que mostram que a trajetória que uma mulher faz é diferente da do homem. A deles é linear, da casa para o trabalho ou algum outro ponto, como a academia. A da mulher é entrecortada: ela passa no mercado, pega a criança na escola, vai até a farmácia. E as ciclovias costumam atender o público masculino", explica. 

Segundo um levantamento da associação Ciclocidade divulgado em 2015, o número de mulheres que usam a bicicleta como meio de transporte em São Paulo não chega a 6%.

Grupo de ciclistas fazem o reconhecimento do trajeto do evento 100Gurias100medo

"Esse dado é bem assustador. Conheço muitas meninas que têm medo de pedalar pela cidade. Ou que só pedalam quando estão com o namorado ou marido. Ou que param após o nascimento dos filhos."

Eventos como o 100Gurias100Medo, segundo a cicloativista, servem para reunir ideias de enfrentamento a essas barreiras através da ocupação do espaço público, contestando sobretudo a forma como a cidade se urbanizou e privilegiou os automóveis. 

"Vieram meninas de muitas regiões, que criaram redes de contato, trocaram experiências e de alguma forma se encorajaram a fazer a opção pela bicicleta. Outros encontros menores já aconteceram depois, de gente que se conheceu e se organizou, começou a participar dos coletivos. Algumas foram até o Pico do Jaraguá ou até cidades próximas. O legado para a cidade foi manter essa conexão entre meninas que atuavam de forma mais isolada."

Além do assédio, diz a cicloativista, muitos consideram estranho que uma mulher chegue de bicicleta, suada, no ambiente de trabalho. "Muitas mulheres têm dificuldade de achar aquilo feminino. Muita gente questiona: 'Como vou pedalar de salto?', 'E a saia?', 'E meu cabelo?', 'Não é nojento?'. Tem todo esse formato de que a mulher precisa estar bem arrumada que se quebra com a bicicleta. E tem o machismo que muitas não conseguem romper."

Ainda assim, a professora não pretende desistir tão cedo. "Sinto que a cidade é um pouco minha quando estou com a bicicleta. Não sei dizer bem o porquê. Me sinto mais conectada com a cidade, apesar de ser mais perigoso. Talvez porque eu preste mais atenção, andando mais devagar. Eu percebo detalhes que não percebo quando estou de moto ou de ônibus."

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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