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Regina Duarte não está louca. Está alinhada com o governo que abraçou

Matheus Pichonelli

08/05/2020 10h29

Reprodução CNN

É tentador, confortável até, ver Regina Duarte se despir de qualquer adereço civilizatório e atribuir a implosão do que restava de sua imagem em rede nacional a um suposto surto, um ato impensado de quem não se preparou nem se medicou para o confronto.

Nas redes, ninguém se decidia.

"Ela esqueceu os psicotrópicos."

"Ela exagerou nos remédios."

"É efeito de alguma droga."

"Não, é senilidade."

"Precisa ser interditada urgentemente."

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Só assim fica minimamente suportável receber de uma atriz de trajetória consagrada a positividade saudosa da marcha cantada pelos ufanistas enquanto corpos eram torturados, suicidados, escondidos e desaparecidos na ditadura militar.

A contradição é a força-motriz do bolsonarismo, e Regina Duarte não é seu contraponto. Nem a razão fora da curva.

Essa força política inaugura um novo tempo erguendo para o alto os esqueletos do passado. Bom era o tempo dos generais, eles dizem. Bom era o patriotismo bajulador de quem não queria desaparecer no porão. Bom era poder editar atos institucionais, cassar mandatos, fechar o Congresso, amarrar juízes, distribuir botinadas em estudantes e professores, mandar a imprensa calar a boca, erguer estranhas catedrais e não poder ser confrontado. Tudo em nome da ordem. Tudo perfeitamente atualizado pelo método bolsonarista de emparedar adversários.

O bolsonarismo sente-se confortável no mobiliário do passado, mas não quer falar das suas contradições. Quer lembrar das coisas boas, confeccionadas artificialmente sob o selo da união nacional que não comporta divergências. Os corpos e ideias discordantes tiveram as unhas e digitais arrancadas para evitar a confrontação.

E daí?, diria o mestre de obras desse passado grandioso que temos pela frente.

Essa contradição é um tripé. 

Quando incomoda, o passado é um retrovisor. Se olhar pra trás, bum, ninguém vê o desafio à frente. O esquecimento é seletivo.

Mas quando não incomoda, o passado é conveniente. Pode-se forçar o torcicolo para buscar nas experiências de dois, quatro, dez, 15, 20 ou 60 anos atrás para pinçar esqueletos e imagens fantasmagóricas para obstruir a visão do presente imediato, hoje marcado por uma pilha de mortos em uma pandemia que os gestores do futuro querem limpar com para-brisa. 

O revanchismo também é seletivo: a culpa dos terrores presentes é sempre dos opositores do passado. É quando o esquecimento perde a função para ser esfregado na cara de quem reclama.

O passado, ao mesmo tempo, é referência. Lá estão os instrumentos, as botas e os mapas amarelados dos caminhos já traçados por brilhantes ustras, curiós, stroessners e pinochets. 

Como Joseph Goebbels, o antigo secretário da Cultura também anunciava que a arte em seu país seria heroica, ferreamente romântica, objetiva e livre de sentimentalismo, grande e nacionalista. Ou então não seria nada.

Roberto Alvim deu bandeira demais e foi para a berlinda.

Mas Regina Duarte não assumiu o seu lugar com a missão de abrir portas e janelas e iluminar o ambiente infectado. Não foi atraída pela missão civilizatória nem por loucura, a loucura de quem se descolou da realidade e já não se percebe indefesa diante das bestas-fera.

Chegou para fazer coro ao que o bolsonarismo tem de mais racional e contraditório: o manejo da memória seletiva.

Ela se cacifou para o cargo com um testemunho pessoal: quando conheceu Bolsonaro, encontrou "um cara doce, um homem dos anos 1950, como meu pai, e que faz brincadeiras homofóbicas, mas é da boca pra fora, um jeito masculino que vem desde Monteiro Lobato, que chamava o brasileiro de preguiçoso e que dizia que lugar de negro é na cozinha".

Com essa carta de recomendação, transita hoje entre secretários que veem benefícios na escravidão e ligações entre rock e satanismo. Sua presença entre eles não era desvio; era rota. 

Como uma típica representante do governo onde embarcou, e não da classe que prometia representar, Regina Duarte vê o passado de atrocidades como um lugar sagrado, idílico, da memória afetiva. Lá, estava protegida; não tinha razões para temer.

Os mortos do período?

Ora, falar em vida é falar da morte. Um dia vamos todos morrer, não foi isso o que disse o patrão ao minimizar os enterrados do presente?

Por que desenterrar, então, os mortos do passado?

Melhor fazer um churrasco, reunir os amigos e lavar as mãos.

Na histórica entrevista à CNN Brasil, a figura do retrovisor é manejada pela atriz bolsonarista para selecionar o que pode ou não ser esquecido e apagado e pedir atenção na estrada do presente. Mas o presente tinha mais de 600 mortos confirmados em um único dia da pandemia. Entre eles, artistas. Por que falar deles, se ela mal os conhecia? A Secretaria de Cultura não é obituário.

Como um ato dramático, a militante de verde e amarelo buscou na gaveta o figurino da sinhazinha para perguntar, irritada, a uma das jornalistas da bancada: quem é você? 

Alinhada com o espírito de seu tempo, um espírito que evoca 64 como farol de 2020, Regina Duarte age como o superior que emite ordens, quer combinar as perguntas e manda prender quando é confrontado.

É quando a memória dos mortos vira peso.

Vamos celebrar a vida, pede ela. Tem tanta coisa boa para falar. Não era bom poder esquecer os mortos cantando para frente, Brasil?

Não.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.