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Letra de "Perfeição", da Legião Urbana, nunca fez tanto sentido como agora

Matheus Pichonelli

16/07/2020 04h00

O cantor e compositor Renato Russo, vocalista da banda Legião Urbana. (Cris Bierrenbach/Folhapress)

Nossa polícia e televisão se encontraram no domingo à noite, quando o Fantástico mostrou o momento em que uma comerciante negra de 51 anos, viúva, cinco filhos e dois netos, foi imobilizada, as botas em seu pescoço, a cara no chão, por um PM em frente ao bar onde trabalhava. O flagrante foi registrado em 30 de maio, cinco dias após a morte de George Floyd, homem negro asfixiado nas mesmas condições por um policial branco nos EUA.

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Diferentemente da revolta que se viu por lá, o meu país com sua corja de assassinos e covardes é celebrado com o apoio resiliente a um governo que estimula o armamentismo, mente compulsivamente e se reivindica como Estado sem projeto de nação.

A estupidez é escancaradas no vaivém entre ministros da Educação. O quarto em pouco mais de um ano e meio é um personagem rodrigueano, fã de castigo físico para crianças, que vê sexo sem limites por todos os lados da universidade e confunde feminicídio com paixão. 

Sem escola, a juventude se vira como pode em conexões mambembes que se tornaram um oceano a mais no fosso que já distanciava alunos ricos e pobres.

As crianças são mortas por balas perdidas, por operações policiais mal planejadas (mal?) na quebrada e pelo vírus que não foi contido por desunião.

Nos pequenos universos de stories e Tik Tok, tristeza e vaidade são despejadas em toneladas de uma bolha a outra.

Por falta de hospitais, os mortos são recolhidos em casa, dependendo de onde se mora.

Ganância, difamação e preconceitos são produzidos e celebrados em gabinetes de ódio por assessores bem pagos da família real.

A Justiça é festejada por fugitivos envolvidos em rachadinhas e milícias que podem cumprir prisão domiciliar sem se apresentar à polícia, mas não por quem é negro, pobre e está condenado a morrer de covid numa cela, sem julgamento e direito a habeas corpus, por carregar dez gramas de maconha.

No Rio, o velho cartão-postal, a água podre não vem da geosmina, mas, sabe-se agora, da alta abundância de bactérias de origem fecal e contaminação por esgoto doméstico e industrial.

Na Amazônia, queimadas e mentiras sequestram e jogam fuligem nas ações de controle ao desmate, respondidas com promessas, desmoralização e demissões dos responsáveis pela divulgação dos números reais que desmontam castelos de cartas marcadas para gringo (não) ver.

O trabalho escravo não está só nos rincões. Está na garupa de entregadores por app famintos que atravessam a cidade para recolher centavos. E está nas residências das melhores famílias que despacham os filhos dos empregados para a morte nos elevadores de condomínios de luxo, trancam idosos em casas do Alto de Pinheiros e na petulância das propostas para trabalhar, lavar, passar, passear, distrair as crianças, os cachorros e dormir no quartinho dos fundos, longe da família, enquanto durar a pandemia.

A hipocrisia e a afetação estão nas carteiradas dos engenheiros formados que humilham o fiscal e também nas do coronel, número 2 da Saúde, que humilha o garçom.

É o jeito bem brasileiro de celebrar epidemias e vibrar com a festa da torcida da equipe campeã que voltou a campo antes da hora e colocou departamentos e jogadores com histórico de atleta em risco para entreter os homens de bem e evitar que eles enlouqueçam, se separem ou transformem o vazio das próprias vidas em agressões aos filhos e mulheres, como disse Renê Simões.

Nas ruas, praças e janelas, a bandeira é celebrada, esticada com pedidos de intervenção militar, flertes a atos institucionais e golpes à vista do passado de absurdos gloriosos, celebrados como "revolução".

Lágrimas verdadeiras jorram enquanto patriotas cantam o hino e normalizam o presidente que não é coveiro e não tem nada a dizer aos compatriotas que morreram a não ser "sinto muito, e daí?".

Há mais ou menos quatro meses a saudade é celebrada e a solidão, comemorada, em lives deprimentes de quem não tem mais a quem ouvir nem tem a quem amar e por onde despejamos intolerância e incompreensão, agora registrados, divulgados e expostos.

A estupidez é também um jeito de esquecer a nossa gente que trabalhou honestamente a vida inteira, se sobrecarregou na quarentena com os afazeres domésticos e demandas virtuais e acabou de descobrir o direito de ser desligado e recontratado com salário menor no mês seguinte porque o Brasil não pode parar. É isso ou nada, eles dizem.

O horror de tudo isso é celebrado sem festa, velório ou caixão por quem se nega a morrer e ser enterrado agora que pode também celebrar a estupidez de quem tem cantado há quase 30 anos a mesma canção e nunca viu em suas letras tanto sentido.

Se estivesse vivo, Renato Russo, vocalista da banda Legião Urbana, faria 60 anos no último dia 27 de março, quando um país entrou, ou deveria ter entrado, em quarentena. O que ele teria a dizer sobre tudo isso não era premonição, era história. Tinha como resposta o irônico título de "Perfeição". Ouça no volume máximo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.