PUBLICIDADE

Topo

No governo de mitômanos de Bolsonaro, Decotelli é regra, não exceção

Matheus Pichonelli

02/07/2020 04h00

Pedro Ladeira/Folhapress

Carlos Alberto Decotelli deixou o governo Bolsonaro cinco dias após ser anunciado como o novo ministro da Educação. Seu ex-futuro-chefe está de parabéns, como tentaram emplacar no Twitter os seus seguidores.

O presidente, que se gaba de ter um sistema de informações paralelo para saber tudo o que acontece, foi informado pela imprensa que o escolhido não tinha doutorado nem pós-doutorado como havia informado.

Veja também

As inconsistências curriculares que levaram à queda seriam um escândalo se este não fosse um governo que fez da mitomania a sua pedra fundamental. Não por acaso, seu chefe é chamado de "mito".

O caminho foi longo, mas as paredes do edifício farsesco começaram a ser erguidas há quase dois anos, quando o então candidato Presidência, em entrevista ao Jornal Nacional, mostrou às câmeras o livro "Aparelho Sexual e Cia", do suíço Philippe Chappuis e da francesa Hélène Bruller –parte, segundo afirmou, do projeto Escola sem Homofobia, que ele e seus apoiadores apelidaram pejorativamente de "kit gay".

"O pai que tenha filho na sala agora, retira o filho da sala, para ele não ver isso aqui. Se bem que na biblioteca das escolas públicas tem", apelou.

Detalhe: o livro nunca fez parte do projeto nem nunca foi distribuído nas escolas.

Em rede nacional, Bolsonaro mentia descaradamente também ao se apresentar como representante dos valores da família brasileira (e não só da sua) que se opunha à realização de um certo "seminário LGBT infantil", supostamente promovido pela Câmara dos Deputados em 2010. O evento, com este nome e foco, nunca existiu.

Eleito com um projeto farsesco, Bolsonaro não quer bancar agora um ministro que mentiu em seu currículo. 

Decotelli, que vê racismo no achincalhe e reitera que dava aulas, sim, na FGV,  não contou como a mesma complacência que beneficiou Damares Alves, Ricardo Salles, Abraham Weintraub e Ricardo Vélez Rodríguez, para ficar só nos integrantes do primeiro escalão que também turbinaram suas credenciais para impressionar a plateia. Eles puxam a fila de uma mistura fina que não diferencia o que é gamela e o que é delírio em atos, palavras e ações contra ameaças comunistas, globalismo, vitimismo e outros ismos que disfarçam a inacreditável inapetência técnica de uma equipe que se pretendia livre de amarras ideológicas. Olavo de Carvalho ri gargalhadas no fundo de seu inferno particular.

Terceiro ministro da Educação em um ano e meio de governo, Decotelli em breve será esquecido, assim como Regina Duarte, Gustavo Bebianno, Nelson Teich e outros quadros que caíram antes mesmo de esquentar a cadeira.

Mas que ninguém guarde o episódio na caixa dos pontos fora da curva.

Decotelli é juvenil perto do que faz o deputado, ex-ministro da Cidadania e espécie de consultor informal de assuntos pandêmicos, Osmar Terra, que chegou a ser cotado para o Ministério da Saúde. Terra é, provavelmente, o maior polo produtor de fake news relacionadas ao coronavírus desde o começo da crise.

Em abril, segundo levantamento da agência Aos Fatos, ele era o parlamentar que mais publicou desinformação sobre a Covid-19 –seguido, vejam só a coincidência, pelos deputados Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e Bia Kicis (PSL-DF).

No início da pandemia, Terra dizia, por exemplo, que a quarentena fez aumentar o contágio na Itália e espalhava que a Holanda havia conseguido controlar a pandemia sem fechar lojas –o que não correspondia à verdade.

Cravou também que a pandemia acabaria em junho e mataria menos do que uma gripe comum (mais precisamente 4.000 pessoas, numa conta mirabolante feita com o ministro Onyx Lorenzoni).

Pois só nas últimas 24 horas de junho foram registradas 1.271 mortes –em 2019,  nada, nem mesmo acidentes de trânsito, matou tantos brasileiros do que o coronavírus em pouco mais de três meses

No entorno bolsonarista, que tentou como pôde escamotear os dados, Terra compete nariz a nariz com o empresário Luciano Hang. Nos idos de março, o dono da Havan dizia que era muito triste o que os italianos estavam enfrentando, mas que o Brasil tinha várias diferenças em relação a eles. "A Itália é menor que o estado do Maranhão. Nosso clima é diferente, a população está mais dispersa e é mais jovem. A Itália tem 200 habitantes por km², o Brasil tem 24", cravou o dono da Havan.

Pouco depois a Itália, cuja experiência trágica deveria servir de alerta, conta hoje 34,7 mil mortos. O Brasil está perto dos 60 mil e ainda não parou de contar. Foi o que motivou a ironia em forma de onda no Twitter em 1º de julho: "parabéns, Bolsonaro".

Era uma homenagem merecida a quem conversa com personagens de banco de imagens para divulgar ações de governos anteriores e jurava que o clima quente e o uso da cloroquina faria da região Norte –que não fica no hemisfério norte, para desespero do ministro interino da Saúde– uma região livre da pandemia que um dia chamou de resfriadinho.

Se Bolsonaro e companhia são capazes de mentir tão compulsivamente ou se equivocar diante de fatos tão evidentes, o que se pode esperar diante de dados mais distantes do escrutínio popular nos campos da economia, do meio ambiente e da disputa semântica sobre interferir ou não na Polícia Federal?

De todos os episódios, porém, ninguém fez mais jus ao Prêmio Pinóquio de Gerenciamento da Crise do que o advogado Frederick Wassef, defensor da família Bolsonaro até outro dia. Em quase duas semanas, ele ainda não chegou a um acordo com a própria consciência para explicar o que fazia Fabrício Queiroz, amigo e antigo assessor da família, em sua casa em Atibaia (SP). Bolsonaro jurava que não sabia do paradeiro do parceiro de churrasco desde que ele foi exonerado do cargo em que chefiava um suposto esquema de rachadinha no gabinete do filho Flávio na Assembleia Legislativa do Rio.

Sem que fosse questionado, o presidente disse que o amigo estava na cidade do interior para ficar mais perto de um hospital em São Paulo, onde se tratava. De um ponto a outro são 88 quilômetros, mas isso é detalhe. A regra do bolsonarismo é apostar no absurdo até ele cair de podre. Se colar, colou.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.