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Com quase cem mil mortos, festa por futebol parece escárnio

Matheus Pichonelli

06/08/2020 04h00

(Bruno Santos/ Folhapress)

Nesta semana o Brasil saberá quem é o novo campeão paulista.

O vencedor sairá da disputa entre Palmeiras e Corinthians, clássico de 103 anos, 31 milhões de torcedores e 52 títulos estaduais somados.

Não é empolgante?

Não.

Nas arquibancadas vazias em Itaquera, onde aconteceu o primeiro duelo, na quarta-feira (5), Dia Nacional da Saúde, cabe apenas o silêncio de 49.205 torcedores que não puderam preencher a capacidade máxima da Arena Corinthians por causa da pandemia do coronavírus.

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Longe dali, a única batalha que me interessava é a que acompanho há duas semanas num grupo de WhatsApp, onde uma das minhas melhores amigas compartilha notícias sobre o pai, que está infectado e respira com ajuda de aparelhos em um hospital em Recife.

No mesmo grupo acompanhamos a agonia de outra grande amiga, com quem dividíamos a esperança pela recuperação de uma pessoa querida de sua família, espécie de segunda mãe. Ela, porém, não resistiu.

Nas redes, não tem dia que amigos, parentes e conhecidos não dividam a aflição sobre a internação de amigos, parentes e conhecidos. Uma delas acaba de perder o pai e o tio para a covid-19. Chegamos ao estágio em que já não podemos dizer que não conhecemos ao menos uma pessoa morta na pandemia que, há algum tempo, nos juravam se tratar apenas de uma gripezinha que só faria estrago em caso histeria.

Tristeza mudou de nome.

Prova de que podemos sair da pandemia, mas a pandemia não sairá tão cedo de nós, como escreveu o Gregorio Duvivier na Folha, é a apatia e o anticlímax que assombram as pequenas concessões à alegria que nos permitíamos até pouco tempo.

O esporte era uma dessas concessões.

Por 90 minutos, mais acréscimos, ver uma partida de futebol era uma forma de estar com novos e velhos amigos –eu, ao menos, sinto meu vô por perto a cada gol ou reza para que a bola passe longe da nossa área. Da mesma forma como ele lembrava do pai, que passava dias sem tomar banho, só de raiva, quando o Palmeiras perdia.

Tem um pouco de ancestralidade em cada reverência ao nosso esporte favorito. Tudo agora parece suspenso.

Eu poderia escrever quilômetros para tentar explicar, sem jamais entender, o efeito catártico das explosões de raiva e de alegria nas arquibancadas ou janelas de casa por causa de um simples jogo.

Não é só futebol, afirmamos em coro. É a história de quem o constrói. Pelé, Marta, Romário, Formiga, Ronaldo, Cristiane e todos os ídolos e ídolas que ainda virão.

Mas, até o final desta semana, estima-se que o Brasil atingirá a desastrosa marca dos cem mil mortos na pandemia. Isso só nas contas oficiais.

Cem.

Mil.

Mortos.

Dava para encher dois estádios da primeira partida da final.

Dois.

Estádios.

Inteiros.

De corpos.

Tento de alguma forma aderir aos esforços para recriar a atmosfera minimamente festiva dos grandes jogos. E me convencer de que o esporte é um intervalo de distração possível em rotinas tão doídas. Ruim com ele, pior sem ele.

O esporte, como a arte, existe para ajudar a não enlouquecer. A acreditar nos últimos lances, no milagre dos detalhes, na dose extra de esforço, na mística da superação de quem correu com uma perna a mais por alguém que ficou a caminho.

Pode ser, mas tudo soa agora tão artificial quanto um orquidário de plástico. Inclusive as vitórias. 

No Rio, dez pessoas morreram durante as partidas disputadas na reta final do estadual, cuja volta foi acelerada por dirigentes e grupos políticos situados no negacionismo mais obtuso.

Em São Paulo, antes da primeira final, a pobreza de espírito dos responsáveis pelo espetáculo foi noticiada como rusgas da rivalidade centenária. Dirigentes do Corinthians se negavam a aplicar testes de covid-19 em seus atletas. Alegavam que os rivais palmeirenses não cumpriam protocolos de isolamento e que ao menos um jogador foi visto na praia na véspera.

Grande exemplo.

Na dúvida entre dormir mais cedo ou carregar a apatia para a frente da TV, mais ou menos como o personagem do Bill Murray em "Encontros e Desencontros", lembro do diálogo da filha com o pai que se desfaz da própria casa em um dos contos de Guimarães Rosa:

"-Pai, a vida é feita só de traiçoeiros altos-e-baixos? Não haverá, para a gente, algum tempo de felicidade, de verdadeira segurança? 

E ele, com muito caso, no devagar da resposta, suave a voz: — 'Faz de conta, minha filha… Faz de conta…'"

Tenho muito de inveja, e um pouco de pena, de quem ainda consegue vibrar por futebol.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.