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Fuga de Meghan e Harry é a “História de um Casamento” com final feliz

Matheus Pichonelli

16/01/2020 04h00

Getty Images

Ok, final feliz talvez seja muito: há mais coisas entre o abandono da realeza e a vida ordinária (risos) que Meghan Markle e o futuro ex-príncipe Harry pretendem levar do que supõem os tabloides britânicos.

Por enquanto, podemos ficar tranquilos que dinheiro para o aluguel ou a escola dos filhos não vai faltar.

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O que não tira deles o peso de uma decisão que promete criar jurisprudência mundo afora –e que me impede de fazer coro aos amigos contrariados com o buzz em torno do ex-casal real enquanto temos, por aqui, tantas urgências ainda mais reais a serem resolvidas.

Tempos atrás, escrevi por aqui, no Dia dos Namorados, que o romantismo pintado para vender perfumes e chocolates em 12 de junho escondia o fato de que, no mundo real, longe das propagandas, a vida a dois é quase sempre boicotada.

Sei que o mundo mudou, que nos círculos de discussões mais sofisticadas as pessoas estão mais conscientes de si, de suas responsabilidades afetivas, estão mais desconstruídas e menos vulneráveis às armadilhas de uma sociedade de bases patriarcais. Mas, nascido, criado e agora radicado no interior, sinto que a distopia defendida pela ministra Damares Alves ("menina veste rosa e deve ser tratada como princesa") nunca foi distopia, mas a política de Estado dos sonhos nas melhores famílias.

Isso significa que a figura do homem provedor e da mulher responsável pela casa, pelos filhos e pelo corpo (para não ouvir reclamações do conje sobre qualquer desvio do padrão) ainda é recorrente. Nesse modelo, todas as vontades masculinas são atendidas, e o lugar onde decidem morar é o lugar que quem trabalha escolher –nem que seja um anexo da casa dos pais.

Quando este modelo é quebrado, duas rachaduras promovem verdadeiras inundações no chope da vida a dois.

Uma delas são os amigos, que desde o namoro se esforçam para colocar em você a camisa do bonequinho derrotado no altar com a legenda de "Game Over". Nunca falta quem te liste todas as oportunidades desperdiçadas, entre viagens e voos profissionais, em troca das palavras presença e compromisso.

Da mesma forma, parentes que não falavam com você desde a Copa de 2002 de repente surgem do nada para dizer que você é novo demais para amarrar seu burro e que o que mais tem por aí são novos e efêmeros amores para se viver.

A esses as ferramentas de bloqueio eletrônico são facultativas, mas e quando as cornetagens partem dos pais?

Sem nunca ter passado perto de Buckingham, conheço histórias de casais que tiveram a vida a dois devastada pelas etiquetas, exigências, bisbilhotagem e situações invasivas de todo tipo na vida dos filhinhos criados como príncipes, acostumados a receber aplausos até quando arrotam, e que alguma suposta megera quer levar para longe.

As investidas, que superficialmente abordam a independência das parceiras, a forma como se criam os filhos ou mesmo a organização da casa, têm sempre uma mensagem de fundo: "ela não é pra você!"

A forma como esses caras administram essas intromissões é uma espécie de teste definitivo da vida adulta.

Em "Cenas de um Casamento", clássico de Ingmar Bergman, a história de Johan e Marianne começa a virar poeira quando eles fracassam ao telefonar para a casa dos sogros e avisar que não, naquele domingo não iriam almoçar juntos, como sempre faziam. A impossibilidade de deixarem os papéis de filhos ao assumirem os novos papéis do casamento os leva a uma espiral autodestrutiva, com outras decepções envolvidas.

No caso do "Megxit", é natural que alguém com mais pretensões na vida do que saber se comportar na hora do jantar queira fugir daquela vida encastelada, cheia de armadilhas e, no caso da princesa, provocações de bases racistas.

A notícia é que o futuro-ex-príncipe Harry queira fugir com ela, para desespero dos parentes que estão ma-go-a-dís-si-mos com o anúncio.

Nada, nada, o que Harry está fazendo é exatamente o oposto do que faz o personagem de Adam Driver em "História de um Casamento", recém-indicado ao Oscar de melhor filme. Com a vida ganha em Nova York, o personagem, considerado um gênio da dramaturgia, demora a perceber que a companheira e o filho têm outros sonhos e interesses além de girar ao seu redor –algo que ele só consegue ouvir quando o desacordo vira disputa judicial.

Cena do filme "Historia de um Casamento", de Noah Baumbach

O filme chega a ser irritante porque sabemos desde o começo que aquela separação, e o nível de sofrimento provocado pelos conflitos entre quem queria outra vida e quem não estava disposto a mudar um milímetro (no caso, todos os milímetros de uma costa a outra dos Estados Unidos) por alguém poderiam ser evitados com alguns poucos ajustes entre a carreira e a rotina familiar.

Quando ele amadurece, é tarde demais (desculpem pelo spoiler).

No caso de Harry, há um verdadeiro oceano Atlântico a ser atravessado por ele ao lado de uma atriz com futuro nos EUA. Ao que consta, ela quer um parceiro, e não um príncipe. Sorte deles.

Posso estar enganado, mas romper com as expectativas da família para dizer "tamo junto" para a companheira me parece uma prova de amor e tanto em uma época em que boa parte dos marmanjos não consegue atravessar a rua dos pais para começar uma vida nova.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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