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No futebol, meninos viram usinas de raiva a ser despejada no inimigo

Matheus Pichonelli

28/11/2019 04h00

Jogadores do Flamengo, capitaneados por Gabigol, desfilaram diante dos torcedores, no Rio (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Gabriel Barbosa, o Gabigol, tinha acabado de fazer o gol do título do Flamengo na final da Libertadores da América, em Lima, no Peru, quando foi expulso pelo árbitro Roberto Tobar, por fazer gestos obscenos, segurando o pênis, para a torcida e o banco de reservas do River Plate.

O gesto quase passou batido –pelas câmeras de transmissão, pela euforia que tomava conta da maior torcida do país e por meu filho de seis anos, que, mal acabou o jogo, começou a bater bola pela sala, chapelando o sofá e dando caneta nas cadeiras fingindo ser não mais o Neymar, seu antigo ídolo, e sim o craque flamenguista. Um craque que comemora gol mostrando o muque, num sinal de força.

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De volta ao Brasil, como soldados que desembarcassem da Segunda Guerra, os campeões foram saudados pelo público como heróis. Na celebração, não faltaram desabafos e provocações contra rivais, a ponto de um promotor tentar proibir a presença da torcida flamenguista em território inimigo, o estádio do Palmeiras, no fim de semana seguinte, sob risco de pancadaria.

Houve também confusão, nas ruas, com a polícia.

Quem é fã e acompanha futebol sabe que a catarse do último fim de semana era quase inevitável –eu mesmo, enquanto tento encontrar outra obsessão além do futebol, seria capaz de limpar minha conta bancária para viver algo parecido com meu time.

Mas se um extraterrestre viesse pra cá naquele momento, teria dificuldade em entender exatamente o que faz do futebol um território tão minado por paixões. Ninguém ali vence. Vinga-se.

Para entender como esse afeto é mediado, é preciso fazer como os cientistas, voltar ao ponto original, observar como essa força é represada, e por que esse clima de tensão é tão diferente das celebrações, quase uma confraternização, dos jogos do futebol feminino

Como tantos outros, fui um jogador frustrado (de futebol de salão, mas fui) na juventude. Por um curto período da adolescência, eu treinava de duas a três vezes por semana, jogava com o uniforme do meu clube, o 22 de Agosto, de Araraquara, e viajava pelo estado para enfrentar os "inimigos" de Catanduva, Jundiaí, Matão. Vira e mexe a partida acabava em pancadaria.

Por isso, me vi em tantas cenas do filme "Aspirantes",  longa de Ives Rosenfeld que estreia nesta quinta-feira, 28. O filme acompanha a trajetória do jovem Junior (Ariclenes Barroso), atleta amador que entra em uma crise profunda diante da gravidez da namorada e do sucesso do melhor amigo, prestes a se tornar profissional.

Até o fim da história não sabia se minha identificação era por causa das "homices" que sobram nas cenas ou do meu fracasso no campo esportivo.

Na cena mais marcante, Junior conversa com o amigo sobre a paternidade iminente –um segredo que estranhamente ele demora a revelar. Até então, aquela irmandade é mediada com pouca conversa e muitos gestos, naquela estupidez clássica de garotos tentando se afirmar, entre socos, testes de virilidade e provocações sobre a sexualidade alheia.

Por ironia, os gestos de carinho que faltam à namorada sobram ao amigo nas horas de aperto.

Mas no momento em que os dois meninos, diante do abismo da vida adulta, se veem sozinhos com os muitos medos reais diante do que se anuncia, a conversa é quase gutural. 

Um não consegue se abrir para o outro.

Tudo o que o amigo mais talentoso tem a oferecer é dinheiro emprestado. O resto é silêncio.

Confuso e assustado, Junior se mostra incapaz de elaborar o que sente. É quando o menino esforçado se transforma em um homem violento, fechado e impulsivo. Mesmo quando ganha. A raiva move os vencedores.

Sem canais para extrapolar, inclusive os familiares, aquela masculinidade encontra abrigo no futebol, que em troca oferece a ascensão almejada.

Ariclenes Barroso em cena do filme "Aspirantes"

Nas cenas de jogo, enquanto não se impõe, o aspirante é engolido. Ele pede um passe, uma chance, como quem pede socorro. Dele só vemos o rosto. O futebol, ali, é esporte individual. A bola sequer aparece. 

Tudo muda quando o treinador entende que aquele garoto, como outros tantos aspirantes, é uma usina termelétrica de raiva. Uma raiva que precisa ser represada e despejada no adversário/inimigo.

Esvaziada de consciência, essa guerra pede brutalidade, um substantivo masculino, tóxico, que estraçalha seus soldados para gozo da torcida.

Mas uma hora o jogo acaba. O dinheiro, em muitos casos, também.

Os transtornos ficam, entre eles o alcoolismo e muitas vidas pessoais devastadas, como uma cidade bombardeada. Impossível não lembrar de tantos ídolos ou antigos ídolos do esporte que, na dor e na delícia das glórias, trocaram os melhores anos de suas vidas para guerrear, entre concentrações, privações, superexposições e afetos manipulados. 

Será que um dia teremos a generosidade de olhar para esse outro lado dos nossos ídolos?

Fome de quê?

Na leva de filmes independentes, estreia também nesta semana o documentário "Fernando", um contraponto à máquina de guerra dos meninos de "Aspirantes". Dirigido pelo trio Igor Angelkorte, Julia Ariani e Paula Vilela, o filme acompanha a rotina do artista Fernando Bohrer, ator e professor que ensinou teatro para gerações no Rio de Janeiro.

Uma dessas experiências deu tão certo que ele foi expulso de uma pequena comunidade porque, nas suas palavras, estava dando acesso a um patrimônio cultural e artístico que a maioria ali não tinha. Esse acesso criou um espírito crítico, através da sensibilidade, que levou as crianças a questionarem o colégio, a igreja, a família e o governo. 

Em uma cena memorável, ele conta do dia em que, ao encenar a vida de Beethoven, foi questionado por um aluno se o compositor alemão era um marginal. "A mãe dele morreu, a minha fugiu. Nossos pais eram alcoólatras. Tenho irmãos para tomar conta. Minha história é igual à dele. E, aqui na cidade, todo mundo diz que sou marginal."

A guerra, ali, está em outro território. O território da autodescoberta.

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Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.