Matheus Pichonelli http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal. Sun, 23 Jun 2019 12:34:05 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Crise na seleção masculina dialoga com crise da masculinidade. E viva Marta http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/06/23/euforia-com-a-copa-feminina-indica-que-uma-mudanca-profunda-esta-a-caminho/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/06/23/euforia-com-a-copa-feminina-indica-que-uma-mudanca-profunda-esta-a-caminho/#respond Sun, 23 Jun 2019 07:45:08 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=1487 Stuart Franklin – FIFA/FIFA via Getty Images

 

O Brasil estava em campo, e eu precisava entregar um texto naquela tarde. Via tudo de soslaio, entre a tela da TV, do computador e do celular, minhas ferramentas de trabalho.

Zero a zero, resultado perigoso. Zero chance de me concentrar.

Pênalti para o Brasil. Deixo o trabalho para o dia seguinte, com uma certa culpa.

Marta parte para a bola.

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Uma hora dessas, na Copa do ano passado, a masculina, eu já estava num estágio pré-coma alcoólico, liberado de qualquer compromisso desde a véspera, com o ouvido no Galvão Bueno e o olho na churrasqueira.

Entre a marcação e a cobrança no jogo feminino, consigo lembrar de cada gol do Ronaldo Fenômeno; inclusive do primeiro dele, também num Mundial na França, e até da sua voz gaguejante, quando era comentarista da Globo, e se viu ultrapassado pelo alemão Klose, no fatídico 7 a 1.

Gol. Da vitória. O 17º dela em Copas, marca que ninguém jamais alcançou.

Só que, para mim, a maior jogadora de todos os tempos tinha apenas dois gols em Copas. Um contra a Austrália, na semana passada, e outro contra a Itália. Ambos de pênalti. Os dois que eu vi em tempo real. Os dois que torci e vibrei quando a bola entrou.

Onde eu estava nos 15 gols anteriores?

O gol me traz uma sensação diversa. Tenho certeza de que centenas de TVs estavam ligadas na vizinhança. Mas, dessa vez, não vou à janela gritar contra tudo e contra todos, botar para fora os meus demônios, as minhas broncas de tudo o que não posso xingar, a não ser em dia de jogo – a minha concessão quase semanal ao estágio pré-civilizatório, o qual nem eu mesmo me reconheço.

Dessa vez, sinto uma espécie de euforia contida; um nó na garganta que se desdobra em silêncio em um corpo que não abraça nem é abraçado. Comemoro em silêncio, como quem reza.

Horas mais tarde, minha amiga Josie Rodrigues, torcedora fanática do Inter de Porto Alegre, me escreve para contar, em uma crônica, que chorou na hora do gol, lembrando de quantas forças quase impediram a Marta de estar lá.

Em sintonia, ela também se perguntava onde estavam os outros gols da maior artilheira em Copas que não comemoramos.

Dias antes, Marta celebrou seu primeiro gol na Copa da França de forma peculiar. Não foi balançando o dedo indicador para cima, em alusão ao slogan da cerveja número 1, mas em direção à chuteira, onde um símbolo azul e rosa do movimento “Go Equal” lembrava da assimetria das relações (que deveriam ser)  igualitárias – no esporte, inclusive.

No jogo seguinte, o símbolo era um batom roxo. Que deu o que falar.

Aquele gol que enfim assistíamos era da Josie. E da Fhoutine, sua melhor amiga. E das tantas amigas que não se cansam de escrever e compartilhar reflexões sobre quanto precisamos mudar – e que outro jogo é possível, além dos que premiam os vencedores de sempre.

E os “meninos”?

Quis o destino que a Copa feminina acontecesse nas mesmas semanas em que o Brasil recebe a Copa América masculina, o segundo torneio mais importante depois do Mundial. Poucos parecem se empolgar com o time masculino dessa vez.

Não porque os jogadores sejam mais ricos, tenham mais visibilidade, mais patrocínios. Não porque o brasileiro esteja indiferente à “sua” seleção – que sempre teve gênero, o masculino.

Mas porque tudo o que se vê na equipe do técnico Tite tem cara de filme antigo. Um filme que muita gente tem preguiça de rever ou cultuar – independentemente do resultado em campo.

De alguma forma, a crise na seleção masculina parece dialogar com a crise da masculinidade na virada da década. Os homens antes bajulados por qualquer façanha, já não circulam pelo olimpo, já não falam sem ouvirem contrapontos, já não interrompem falas impunemente e não têm carta branca para serem pais ausentes, maus maridos ou parceiros agressivos.

Ninguém, em sã consciência, ainda acha normal chamar alguém de 27 anos de “menino”, nem se encanta em saber que um dos maiores ícones de sua geração tenha as lágrimas, que não sabemos serem reais ou não, lambidas pelo pai-empresário-provedor; nem se inspira pelo seu temperamento de criança mimada, que se desculpa em propaganda de lâmina de barbear e não demonstra qualquer noção de responsabilidade afetiva ou social – e não estou falando de acusações mais graves, que deixo para o julgamento das instituições de fato, não para os juízos da opinião.

Faça o que fizer, o ídolo dos meninos cresceu para ter a compreensão, a solidariedade e o afago de todos, inclusive do presidente – o mesmo que não gastou nenhuma linha para parabenizar a maior artilheira em Copas em todos os tempos.

Isso é (era?) parte de um jogo antigo, que já não surpreende; um jogo que concentra prestígio e não quer dividir a bola.

Se o esporte é um microcosmo dos afetos políticos, e se estamos falando, celebrando e ASSISTINDO a um torneio de futebol feminino, uma arena/trincheira ainda predominantemente masculina, é porque algo irreversível está sendo gestado – por mais que a foto oficial do macho adulto branco sempre no comando indique que a velha ordem se reuniu para estancar qualquer concessão igualitária no campo político. Essa foto é só, e não apenas, reação.

A mudança, essa maior e mais demorada, tem tração nas conexões contemporâneas, onde Marta, antes um nome fora da agenda dos veículos tradicionais (a não ser quando aparecia, uma vez por ano, para buscar o troféu da Fifa de melhor do mundo), é agora um dos assuntos mais citados no Twitter.

Quando criança, achava que era um processo natural das espécies a solidão e o confinamento silencioso das mulheres ao meu redor, que não se conectavam, que ouviam ofensas em silêncio, sem qualquer talento reconhecido, a não ser dar algum sentido à vida dos filhos.

Sabemos, mesmo quem finge ignorar, o que passaram, e do que foram chamadas, as mulheres que se opuseram a esse destino naturalizado.

Não sei até onde vai a seleção brasileira capitaneada por Marta. Mas o que ela e as companheiras mostraram em campo foi algo muito maior do que qualquer euforia esportiva. O que elas mostraram foi a não-rendição.

Pode ser pouco, ou mesmo assustador, para quem cresceu entre louros. Para aquele time, o de um país inteiro que agora se reconhece, troca experiências, compartilha revoltas e se reivindica, essa conexão é um dos muitos sinais de uma mudança profunda prestes a explodir.

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“Com criminalização da homofobia, mundo fica mais chato”: para quem? http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/06/17/com-criminalizacao-da-homofobia-mundo-fica-mais-chato-para-quem/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/06/17/com-criminalizacao-da-homofobia-mundo-fica-mais-chato-para-quem/#respond Mon, 17 Jun 2019 07:00:10 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=1472

Cena do filme “O mau exemplo de Cameron Post”

Minha mãe entrou no provador.

Entre um balcão e uma escada em caracol, fiquei conversando com o atendente da loja, que subia e descia do estoque com outras opções de números e cores das roupas para a cliente.

Até que o alarme da escola soou.

Em fila indiana, os alunos cruzavam a praça da pequena cidade, onde estávamos a passeio, e começaram a gritar e fazer gestos em direção à loja.

“Bicha! Bicha!”

É assim todo dia, explicou o atendente: dava o horário, os alunos que já entravam na adolescência cumpriam o ritual entre galhofas e xingamentos.

Todo santo dia.

Eu devia ter 18 anos quando testemunhei a cena.

Aqueles xingamentos tinham endereço certo (um homem homossexual que trabalhava na loja de uma pequena cidade do interior onde aquela hostilidade era naturalizada) mas de certa forma me atingiam: de dentro da porta de vidro, me via pela primeira vez do outro lado da história.

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Anos antes, se morasse e estudasse naquela cidade, eu provavelmente seria um daqueles meninos que provocavam calafrios em um trabalhador honesto e dedicado toda vez que ouvia o alarme soar.

De onde eu vim, chamar alguém de “viado” era um teste de virilidade. Se o interlocutor respondesse com um soco, estava autorizado a andar com os rapazes, a turma do fundão, onde todo signo ou adjetivo relacionado ao feminino estava proibido. O nome disso, hoje sabemos, é masculinidade frágil.

Da letra L ao V, vivíamos em pânico para não cair na letra 24 da chamada, o número do “veado” no jogo do bicho. Era um apelido pegajoso para o resto da vida.

Nossas referências eram todas masculinas, do esporte aos filmes, passando pela música.

Se falhássemos em qualquer missão, sobretudo no papel de predadores, a repreenda era sonora: “larga de ser bicha”.

As únicas figuras femininas daquela iniciação cabiam apenas nas revistas que roubávamos dos nossos pais.

Em casa ou nas festas de aniversário, quem experimentasse dançar como as meninas recebia bifas dolorosas na orelha até que a cintura fosse definitivamente desativada para qualquer movimento se não a linha reta da “normalidade”. O resto era desvio, e o desvio estava nas cores, nos símbolos, no jeito de andar, falar, ouvir (a depender da música).

Medo de quê?

Já adulto, encerrei um extenso plantão no jornal e fui procurar um lugar para jantar na avenida Paulista. Encontrei um amigo do trabalho, que me apresentou o namorado. Ele perguntou se estava a fim de jantar com eles, e desconversei, mudei a rota. No fundo, tinha medo de ser vistos com eles. Medo de quê?

Do que meus pais pensariam? De alguma família tradicional brasileira se horrorizar? Dos comentários do chefe na segunda-feira?

Até hoje, quando vejo aquele amigo, tenho vontade de pedir desculpas. Eu não sabia o que fazia. Na verdade, sabia.

De onde vinha aquele receio?

Decerto, não tinha nascido nos jovens que cruzavam a praça e faziam o atendente da loja – e todos os amigos que desapareciam do nosso círculo – sonhar em viver em outro lugar, para longe, onde realmente fosse considerada justa toda forma de amor.

O exemplo vinha de cima: do deputado, agora presidente, que prefere ter um filho morto em acidente a ter um filho homossexual, das brincadeiras do chefe e do professor, da piada do humorístico do sábado à noite a ridicularizar falas e trejeitos, do personagem engraçado/desajeitado da novela, dos exemplos de superação no esporte e nas páginas da História, todas dominadas pela bravura de quem associou sensibilidade e aceitação de vivências a fraquezas morais, como uma frouxidão de caráter.

O mau exemplo

O medo vinha da violência, e a violência era uma ideia de correção, como mostrado no filme “O Mau exemplo de Cameron Post”, em que uma jovem, flagrada aos beijos com uma amiga, é levada para um internato para “curar” o desvio, entrar no caminho, aprender sobre o amor. “Que amor”, pergunta a personagem a certa altura, “se aqui somos ensinados a ter nojo e a odiar nossos corpos?”.

Corta a cena e vemos agora a ministra de Mulheres e Direitos Humanos, Damares Alves, observar não apenas homoafetividade no desenho animado inocente, mas uma perversa estratégia “do cão”.

Vemos também campanhas de boicote de empresas engajadas na inclusão. Propagandas de diversidade censuradas. Discursos de como tudo aquilo fere quem é “normal”.

Da infância ao mundo adulto, observei em silêncio uma diáspora de talentos e amizades buscar refúgio em qualquer outro lugar onde não fossem alvo de chacota, na melhor das hipóteses, ou da agressão, na pior delas. Quantos simplesmente não deixaram de estudar pelo simples medo do caminho de casa até a escola?

Onde estavam os responsáveis que não viam o grau de sofrimento nos próprios alunos? Onde estavam os gestores nas empresas que não viam problema nas piadas contra quem só tinha a opção de “aceitar”, rir de si, ou adoecer?

Na roda de pais da escola, agora vejo o sujeito que descreve o horror em ver duas pessoas do mesmo sexo de mãos dadas na lanchonete (“na frente dos meus filhos!”), sendo acompanhado do olhar bovino de aprovação dos outros pais à mesa. Como explicar que ser contra casamento igualitário só dá a ele o direito de não casar com a pessoa do mesmo sexo, e não de impedir que alguém o faça e seja feliz?

Na vizinhança, ouço também o horror do pai de família “obrigado” a passar pelo ponto de prostituição de mulheres trans a caminho de casa – o mesmo que não quer que aquelas pessoas dividam as fileiras com os filhos em sala de aula e busquem outro caminho se não “poluir” a sua vista imaculada.

O crime e a lei

Num instante, volto de tempos em tempos àquela viagem, quando minha mãe entrou no provador da loja da cidadezinha, lembro dos xingamentos contra o atendente e por alguns segundos, insuportáveis segundos, experimento o desprezo de desconhecidos que sequer entendem a própria raiva, mas a alimentam diariamente sob o mantra de que tudo não passa de brincadeira.

Histórias assim me vieram aos montes enquanto escrevia sobre como as empresas têm tomado a dianteira nessa discussão, com grupos LGBT engajados em mudar a cultura e a sintaxe do ambiente de trabalho.

Aos trancos, é possível sentir o vento das mudanças, como sinalizou, na quinta-feira, dia 13, o Supremo Tribunal Federal, ao decidir, por 8 votos a 3, que homofobia e transfobia agora são crimes no Brasil, como é o racismo, passível a prisão.

A reação era esperada: “mas o mundo está muito chato mesmo, hein?”, disseram os condenados a viver para sempre na turma do fundão.

Penso, então, em todos os amigos que expulsamos de nosso convívio, por nossa culpa, nossa tão grande culpa, e agora me pergunto: esse mundo ficou chato para quem?

Quem sabe agora, deixando claro o que é crime e o que é brincadeira, sem zona cinzenta, ao menos na lei, saibamos de cor a lição. Só nos resta aprender.

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Bolsonaro e a síndrome de Marty McFly: estamos de volta aos anos 80 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/06/10/bolsonaro-e-a-sindrome-de-marty-mcfly-estamos-de-volta-aos-anos-80/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/06/10/bolsonaro-e-a-sindrome-de-marty-mcfly-estamos-de-volta-aos-anos-80/#respond Mon, 10 Jun 2019 07:00:41 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=1459

Cena do filme “De volta para o futuro”

Jair Bolsonaro é a versão brasileira Herbert Richers de Marty McFly, aquele personagem da franquia “De volta para o Futuro” que zanzava pelo tempo provocando estragos no futuro.

A caneta presidencial é o seu Corcel DeLoren prestes a caducar no Congresso: com ela, um país inteiro pode voltar dez anos no tempo desde a semana passada, quando o capitão brecou normas contemporâneas de trânsito, como a lei da cadeirinha infantil.

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O lema do novo governo é resgatar tudo o que é velho. Nas leis de trânsito, por exemplo, exames toxicológicos sobre quem mais pode causar estragos em caso de acidente serão dispensados, como no tempo das diligências.

E os radares e lombadas serão aos poucos tirados de cena para que os brasileiros de bem voltem a sentir o prazer de dirigir, atropelar e se arrebentar em paz — e sem as viaturas do politicamente correto.

Maldosos dirão que se trata de legislar em causa própria, já que o presidente, três de seus filhos e a primeira-dama somam, juntos, 44 multas de trânsito nos últimos cinco anos. Disseram o mesmo quando foi exonerado o agente do Ibama que multou Bolsonaro por pescar em área proibida.

O esforço, porém, pode ser só sintoma de saudosismo crônico. Uma espécie de síndrome de Marty McFly.

Se fechar os olhos por alguns segundos, os fãs do capitão que foram às ruas em sua defesa no último dia 26 já podem se imaginar como se estivessem nos tempos dos escapamentos e dos automóveis possantes, quando era possível fumar, queimar o bigode e jogar as cinzas da ousadia e da alegria pelo quebra-vento.

Em alguns casos, será um retorno sem volta ao auge do porte físico, do vigor atlético, da virilidade facilmente confundida pelos tempos da ordem e da obediência — temos saudades, afinal, do “nosso tempo” porque no “nosso tempo” nossos corpos obedeciam imediatamente nossos comandos.

Vai ver é isso o que buscamos quando nos agarramos às normas e símbolos do nosso auge, e rejeitamos tudo o que soa novo e diferente, como as ideias de diversidade, consciência e juventude expressas em uma propaganda de banco cheia de cores, piercings, tatuagens e cabelos afro que precisou ser censurada. 

“Retrocesso” se tornou a palavra da moda em cinco meses de governo, e não adianta mostrar que leis como a da cadeirinha diminuem o número de mortes de crianças e adolescentes nos acidentes de trânsito em até 60%.

Os novos tempos trouxeram de volta a pochete e o conhecimento místico dos gurus e feiticeiros. Iluminismo, ciência e inovação são agora papo de comunista.

Assim, com outras duas canetadas, sobre porte e posse de armas, o presidente pode também mandar um país inteiro para a virada do século, quando os assassinatos por arma de fogo cresciam em média 5,5% nos 14 anos anteriores ao Estatuto do Desarmamento. Entre 2003 e 2017, a taxa caiu para menos de 1%, mas o capitão acha que precisa mudar isso aí, taokey?

“Mas os especialistas dizem!”, dirá o iluminado e doutrinado leitor.

“Tem que mudar os especialistas também, taokey? Nada de dinheiro para pesquisa, nada de verba para universidade, nada de gente pensando soluções para o futuro sem as ferramentas enferrujadas do passado, taokey?”.

Seguindo seu mestre, até o ministro da Cidadania, Osmar Terra, decidiu comprar briga contra a ciência e, com base em uma volta empírica por Copacabana, contestou um estudo da Fiocruz, feita com mais de 16 mil pessoas, que negava haver uma epidemia de drogas no país — sem a tese da epidemia, não dava pra reeditar a guerra às drogas de Ronald Reagan nos anos 1980, em que todo mundo sabe, ou deveria saber, quem perdeu e quem ganhou.

No Brasil de 2019 é assim: se os estudos apontam, não vai ter mais estudo, taokey?

Não era exatamente um lema de campanha, mas ninguém pode se dizer surpreso.

Antes da eleição, o então candidato do PSL já havia se aliado com monarquistas e fãs da ditadura. E, em ao menos uma entrevista, ele prometeu transformar o Brasil em um país “semelhante àquele que tínhamos 40, 50 anos atrás”.

Bons tempos!

Mas para quem?

Há exatos 50 anos, o Brasil vivia sob o AI-5, que autorizava o presidente a decretar o recesso do Congresso, intervir nos estados e municípios como bem quisesse, cassar mandatos parlamentares, suspender direitos políticos de qualquer cidadão, confiscar bens considerados ilícitos e suspender sua garantia do habeas-corpus caso você fosse preso por engano — ou por discordar de ideias ou piadas ruins.

Ao fim daquele regime, nos anos 1980, quatro em cada dez brasileiros não sabiam ler nem escrever. Ensino superior era privilégio. A inflação passava dos 100% ao ano. E a taxa de mortalidade infantil era 53% maior do que a atual.

Então por que as referências daquele tempo são a inspiração?

Freud, se não for banido das universidades, talvez ajude a explicar.

O problema de Bolsonaro, como qualquer observador da psicanálise pode ver, não é com a esquerda, com o coitadismo, com o feminismo ou com o globalismo. É com o século 21.

No ritmo atual, chegaremos a 2022 sem vacinas, sem direito ao voto feminino, sem penicilina e sem pílula anticoncepcional.

Se tudo der certo, Copérnico será limado dos livros que restarem por insistir até sua morte, em 1543, que a Terra era redonda.

Se a moda pegar, o terraplanismo governamental será nossa viagem sem volta ao tempo das cavernas, tomadas de homens barbados, brutos, sem livros e sem acesso ao Google — porém, viris.

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Põe até bandeira na sacada: o curioso caso do patriota que detesta o Brasil http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/06/03/poe-ate-bandeira-na-sacada-o-curioso-caso-do-patriota-que-detesta-o-brasil/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/06/03/poe-ate-bandeira-na-sacada-o-curioso-caso-do-patriota-que-detesta-o-brasil/#respond Mon, 03 Jun 2019 07:00:05 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=1445

De uns anos pra cá, o Brasil viu surgir um sujeito curioso: o patriota que não gosta do Brasil.

Você deve conhecer alguns.

Se não conhece, já esbarrou com algum tipo de manifestação, seja no grupo de WhatsApp, seja na sacada da área gourmet, onde, de vez em quando, geralmente aos domingos, ele estende a bandeira nacional e passa a tarde cantando que é brasileiro, com muito orgulho, com muito amor.

Aquela bandeira é quase uma risca de giz; de lá para trás, você sabe exatamente como ele pensa, como vota, o que detesta.

É como se todo mundo que estivesse do lado de cá do círculo não gostasse do próprio país. Pior: é como se não fizesse parte do mesmo país. Pior do que pior: é como se aquela bandeira separasse o joio do trigo, os bons dos maus brasileiros, quem tem e quem não tem caráter, quem ajudaria uma senhora a atravessar a rua e quem aproveitaria a situação para surrupiar-lhe a carteira.

Bem, quem me conhece de alguma forma, mesmo que por aqui, imagina que eu não tenha tenha estendido a bandeira nem saído às ruas com a camisa da CBF no dia 26 de maio, quando milhares de pessoas decidiram se manifestar a favor de tudo isso que está aí.

Por que você não gosta do Brasil?, me pergunta o seu Jair, vizinho das antigas, entusiasta da tal da marcha em apoio ao xará presidente, e que esfrega, de quando em quando, uma grande bandeira do Brasil na minha cara.

Pelo contrário, costumo dizer ao seu Jair.

Na brincadeira, como bons vizinhos costumam fazer, digo que gosto do Brasil, do Chile, da Argentina, do País de Gales. Digo também que quem não gosta do Brasil é ele. Quer ver?

O seu Jair, para começo de conversa, não gosta de Carnaval, nossa maior festa popular. Para ele serpentina e golden shower é tudo glitter do mesmo saco.

Para ele, qualquer batuque ritmado é “macumba”, e toda “macumba” precisa ser chutada.

O seu Jair, apesar da camisa da CBF, detesta a seleção nacional (“um bando de vagabundo mercenário”). A masculina, porque da feminina ele quer nem ouvir falar.

O seu Jair também não gosta de MPB. Detesta o Chico Buarque, nosso último Prêmio Camões, a quem chama de comunista e analfabeto (sim, o Chico Buarque E o Camões).

Ele também não gosta de — na verdade, não suporta — filme nacional. Acha tudo uma pouca-vergonha. As cenas, os sotaques, os artistas. Para ele, são todos mamadores oficiais das tetas do país: não produzem, não geram renda, não trazem qualquer benefícios se não a vergonha. Não, o seu Jair não ficará até o fim da sessão de “Bacurau”, filme de Kleber Mendonça Filho, que venceu o Prêmio do Júri em Cannes, para saber que a produção, rodada no sertão de Seridó, entre o Rio Grande do Norte e a Paraíba, gerou 800 empregos. Cinema, para ele, só vale se tiver xerife armado e carro capotando.

Não é só questão de gostar ou não desse ou daquele filme ou som; para ele, tudo o que ele não gosta precisa acabar.

Ah, sim, o seu Jair não gosta das universidades brasileiras. Detesta o patrono da educação nacional e não gosta de saber que seu dinheiro sustenta balbúrdias como pesquisas que podem curar a malária, que podem prever ou minimizar impactos de barragens mal planejadas, como a de Brumadinho, e que podem de alguma forma orientar o conhecimento para entender a relação entre trabalho alienante e saúde mental.

A birra com as universidades, dizem os vizinhos, tem uma explicação:  o seu Jair tem uma dificuldade imensa em compreender a diferença entre projetos coletivos e anseios individuais. Se não serve pra ele, tudo bem jogar fora –inclusive as pesquisas e as vagas nas universidades que os filhos não acessaram.

O seu Jair, que ama o Brasil, à boca pequena manifesta desejos separatistas. Está convencido de que seu estado, se “não carregasse nas costas as outras unidades da federação”, seria uma potência econômica, militar e cultural como a Suíça, para onde alguns de seus ídolos costumam enviar uns malotes de tempos em tempos.

O seu Jair tem um estoque de piadas contra todo tipo de migrante e imigrante que ajudou a construir o seu país.

É uma espécie de anti-Policarpo Quaresma, o patriota-raiz de Lima Barreto que “estudou a Pátria nas suas riquezas naturais, na sua história, na sua geografia, na sua literatura e na sua política; que sabia as espécies de minerais, vegetais e animais que o Brasil continha; sabia o valor do ouro, dos diamantes exportados por Minas, as guerras holandesas, as batalhas do Paraguai, as nascentes e o curso de todos os rios; que defendia com azedume e paixão a proeminência do Amazonas sobre todos os demais rios do mundo”. E “ai de quem citasse o Nilo na sua frente!”.

Para o seu Jair, o Lima Barreto também é comunista. Ele acredita que a Amazônia está fazendo hora, que os índios precisam largar mão de vagabundagem e começar a cortar cana; que é melhor transformar a floresta em um grande estacionamento e trazer a Disney pra cá, porque os americanos, sim, sabem administrar suas áreas de lazer, sabem produzir filmes sem doutrinação, sabem fazer música sem mensagem cifrada, sabem fazer qualquer coisa em nome da pátria e da bandeira, inclusive a guerra.

O seu Jair é tudo, menos um caso raro.

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Um post no Twitter mexeu com muita gente que teve antepassados escravizados http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/05/28/um-post-no-twitter-mexeu-com-muita-gente-que-teve-antepassados-escravizados/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/05/28/um-post-no-twitter-mexeu-com-muita-gente-que-teve-antepassados-escravizados/#respond Tue, 28 May 2019 19:53:39 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=1435

A escravidão no Brasil, sob o ponto de vista do francês Jean-Baptiste Debret (data desconhecida)

Eu sei de onde vieram meus antepassados. Conheço as histórias que eles contavam para meu pai. Sei como era a vida na Itália. Sei em que ano chegaram ao Brasil.

Sei como chegaram à cidade onde nasci antes de eu nascer; como dividiram as terras, como se organizavam aos domingos, o que comiam, como comiam. Sei até que meu bisavô não tomava banho quando o Palmeiras perdia e que meu tataravô atribuía a calvície ao capacete usado na guerra.

O que não sabia, ao menos não tinha me dado conta até pouco tempo, é que o acesso a essas histórias é também um privilégio.

Quem alertou sobre essa questão foi a jornalista Cecília Oliveira, que no último dia 27 escreveu no Twitter: “Você está a quantas gerações da escravidão? Eu estou a quatro. Procurei e não achei dados do meu bisavô em cartórios. Ele não tinha registro de nascimento. Seu Geninho era Rei do Congado em Divinópolis (MG). Ele e meu pai morreram cedo, antes de eu saber fazer as perguntas…”

O exercício de pensar na distância em relação à escravidão chocou alguns leitores, que passaram a compartilhar histórias semelhantes no post.

Uma seguidora, por exemplo, comentou que o único documento da sua bisavó era um recibo de compra e venda, onde era bem recomendada para mucama.

“Muita gente não pensa em escravidão – ponto”, resume Cecília ao blog. “Uns não querem, outros não têm informação sobre seus parentes próximos, como eu e outros, e há também quem decida não pensar sobre, porque é muito doloroso.”

O post ajudou a mostrar como o direito à memória de nossos ancestrais não é um direito”dado”, como é para mim e meus familiares. Não em um país que só aboliu a escravidão no fim do século 19.

“Muitos descendentes de europeus que vieram para o Brasil – com subsidio do governo e com suas famílias, a convite – conseguem saber de onde seus parentes vieram. Muitas vezes até o nome das vilas. Não ter parentes sequestrados, vendidos, forçados a mudar de nome e usar sobrenomes de seus donos – já é um privilégio em si. Receber convite para mudar para o Brasil, ter a passagem paga, vir com a família e não como mercadoria, é outro”.

O post de Cecília teve mais de cem compartilhamentos e era uma mensagem replicada de um tuíte Jelani Cobb, que escreve sobre raça, justiça e cultura nos EUA – e que estava a cinco gerações da escravidão.

Quem deu início à corrente, porém, foi uma escritora americana identificada como @blurbette, que no último dia 25 contou que morava com os avós e a bisavó nascida em 1906 e cujos pais nasceram escravos. Três dias depois, quase 13 mil pessoas haviam compartilhado o tuíte dela com um exercício similar de resgate de memória.

A jornalista conta que já tinha pensado na proximidade de sua geração com a escravidão quando buscou os registros sobre seu bisavô – e não encontrou. “Só sei que ele se chamava Eugênio Rosa e que era Rei de Congado em Divinópolis.”

Segundo ela, muita gente se identificou com o post porque mais da metade da população brasileira hoje se declara negra. “A camada da população que antes não acessava a educação em todos os seus graus foram lendo mais e aprendendo mais. A criação das cotas e da lei 11.645/08 (sobre ensino da história da África) trouxe mais informação. Isso, somado à internet, fez as coisas avançarem”.

Apesar da seriedade do tema, houve quem respondesse com sarcasmo à reflexão. Um leitor chegou a perguntar se trabalhar todos os dias das 6 da manhã às 22 horas, sem carteira assinada, sem férias, sem fundo de garantia, podendo ir para casa nas folgas para ver os filhos uma vez a cada 15 dias, configurava escravidão? “Se for, estou a uma geração apenas”, disse.

Para Cecília, sempre vai ter alguém que diga que trabalha muito e que é escravizado. “Temos trabalhos insalubres, exploratórios (palavra estranha) análogos à escravidão e de fato, escravidão. São muitas variáveis, mas a escravidão mesmo – com castigos físicos, sem remuneração, privados de liberdade – são mais raros, mas ainda existem, infelizmente.”

Ela lembra da importância do Ministério Público do Trabalho no resgate de trabalhadores e a lista do trabalho escravo no país. “São iniciativas VITAIS em um país com o histórico como o nosso.”

E você? Sabe qual é a história de seus antepassados?

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Não foi chamado de “comunista” em 2019? É bom se preocupar http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/05/24/nao-foi-chamado-de-comunista-em-2019-e-bom-se-preocupar/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/05/24/nao-foi-chamado-de-comunista-em-2019-e-bom-se-preocupar/#respond Fri, 24 May 2019 07:00:12 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=1419

A deputada estadual, Janaina Paschoal, acusada de “comunismo” por não endossar as manifestações em defesa de Bolsonaro, marcadas para o dia 26 de maio (Foto: Alesp)

“Esses traidores estão contra o Brasil e contra o 26/05”, alerta a imagem que circula pelas redes. Entre os “traidores” estavam Janaína Paschoal, Kim Kataguiri, João Amoêdo e Joice Hasselmann. O que os unia era um espectro: o espectro da foice e do martelo.

O símbolo ali fazia tanto sentido quanto cair de costas e quebrar o nariz. Como no Brasil tudo é possível, o juízo pede para lembrar que entre os atacados da lista estava uma das autoras do pedido de impeachment contra Dilma Rousseff. Estava também o líder de um grupo supostamente liberal que já defendeu dar “um tiro na cabeça do PT”.

Todos em algum momento da vida já demonstraram alergia a cores vermelhas ou atribuíram todos os males do país ao esquerdismo, ao feminismo, ao vitimismo ou a qualquer outro ismo em defesa das relações igualitárias.

O mesmo meme listava quem eram os verdadeiros patriotas do Brasil –dos seis destaques, meu raso conhecimento cultural só conseguiu reconhecer o Alexandre Frota e o Oscar Maroni. O primeiro dispensa apresentações. O segundo, para quem não teve a honra, vale procurar no Google as palavras “Bahamas + exploração + sexual”.

Até o fechamento deste post, havia rumores de que a lista dos traidores havia sido engrossada também por Danilo Gentili e Lobão –o primeiro parece que está no muro sobre as manifestações de domingo em defesa de Jair Bolsonaro. Do segundo não puder checar as razões. Ele me bloqueou no Twitter.

O racha mostra que, no reino bolsonarista, os anticomunistas são todos iguais, mas uns são mais iguais que outros.

Até pouco tempo (mais precisamente o segundo turno de 2018), todos eles marcharam juntos e deram apoio a um candidato a presidente que prometia limpar o esquerdismo do léxico nacional. Quem acreditou que esse era um problema do país acreditou também que o problema não era com ele.

Quase cinco meses depois da posse, o espectro do comunismo parece ter se alastrado até entre os ex-aliados. Resquícios de 519 anos de doutrinação.

A reação indiscriminada fez com que um país inteiro se transformasse em uma espécie de Itaguaí ideológica, aquela cidade fictícia do conto “O Alienista”, de Machado de Assis, onde um médico obcecado pela “normalidade” resolve encarcerar todo mundo no manicômio. Do lado de fora fica apenas o presidente, digo, o doutor.

Fora da ficção, o anticomunismo do bolsonarismo-raiz fez com que a deputada Janaína Paschoal viesse a público se defender das acusações e ameaças que vem sofrendo. 

Seu pecado? Sair do grupo de WhatsApp de seu partido, o PSL, e denunciar a “cegueira” de seus colegas com o Grande Líder.

O selo de comunista, segundo ela, não é só injustiça. É ignorância. “Se os bolsonaristas lessem, se estudassem, se se preocupassem em entender como os outros (inclusive os oposicionistas) pensam, eu não precisaria estar escrevendo o óbvio”, escreveu a deputada no Twitter.

Quem também entrou na lista de “traidores” por se opor à marcha bolsonarista é o agora deputado federal Kim Kataguiri, para quem a iniciativa tem um “tom autoritário, de fechamento de Congresso e Supremo” e cujo mote principal é “nós apoiamos Bolsonaro e tudo o que ele fizer, incondicionalmente”.

Por causa da malcriação, foi chamado de “Kim Katapiroca” por Olavo de Carvalho, guru de Bolsonaro e seus filhos.

Na grande quinta série que virou o Brasil, não é preciso defender o fim das classes sociais e a tomada dos meios de produção para ganhar o selo de comunista.

Não é necessário sequer desejar em voz alta um mundo um pouco mais justo, ou dizer perversidades do tipo “os brasileiros têm direito a uma aposentadoria digna”, “a escola é direito de todos”, “eu defendo a universidade pública”, “todos devem ter oportunidades iguais”, “é preciso combater todas as formas de opressão e preconceito”.

Basta se negar a fazer o que seu mestre mandar.

Se você não foi chamado de comunista na última semana, é bom procurar o seu médico. Ou tenha paciência: a sua hora vai chegar.

Caso você já tenha passado por isso, mesmo sem jamais ter chegado perto de O Capital, você não está só, mas em companhia dos antigos ícones do jovem movimento conservador nacional.

A boa notícia é que no mesmo balaio de “inimigos da pátria” está também comunistas da velha guarda como Chico Buarque, que acaba de levar o Prêmio Camões, o mais importante da língua portuguesa.

Quem disse que Bolsonaro não ia unir o país?

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“Piada” com pênis de oriental prova que temos um tiozão do pavê no poder http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/05/16/piada-com-penis-de-oriental-prova-que-temos-um-tiozao-do-pave-no-poder/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/05/16/piada-com-penis-de-oriental-prova-que-temos-um-tiozao-do-pave-no-poder/#respond Thu, 16 May 2019 18:07:07 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=1398

Na última quarta-feira, 15/05, durante a escala da comitiva presidencial no aeroporto internacional de Manaus, e a caminho de uma premiação nos EUA, Jair Bolsonaro foi abordado por um passageiro de olhos puxados que pediu para tirar uma foto com o presidente do Brasil.

Em um português não muito claro, o fã pronunciou as palavras “Brasil” e “gostoso” e fez o presidente se desviar da cortesia como quem escapa de uma cantada. Ô loco, aí não.

Em seguida, o capitão ofereceu um abraço, aproximou o polegar do indicador e perguntou, para risos dele mesmo: “Tudo pequenininho aí?”

O moço, coitado, não esboçou reação se não rir da brincadeira — que provavelmente não entendeu. Levou a seu país, seja ele qual for, a cortesia oferecida pelo presidente brasileiro como um embrulho. Nele cabe basicamente tudo o que ele pensa sobre os povos asiáticos.

Eis o problema de ter um tiozão do pavê na Presidência e não só nos nossos encontros em família: ele perde a compostura das relações diplomáticas, mas não perde a piada.

Os nossos tiozões dos domingos chegam a se emocionar de tanto orgulho. Suas piadas são agora transmitidas para o mundo. Não há definição melhor de empoderamento.

Assim como o presidente, o tiozão do pavê não aparece em nossas casas por geração espontânea. Ele e suas piadas constrangedoras são resultado de anos e anos de conversa furada sobre a superioridade masculina, na qual o pênis, ou falo, tem um valor simbólico de poder e prestígio.

O tiozão do pavê é a boca aberta do falocentrismo. Como é inseguro, e morre de medo de colocar sua masculinidade frágil à prova, ele precisa o tempo todo emitir sinais de vigor com a ajuda de equipamentos, automóveis e armas. Em alguns casos, a arminha empinada vira até símbolo de campanha.

Uma vez no poder, as preocupações do Estado passam a ser resgatar o prazer de dirigir, punir os fiscais do Ibama que estragam a pesca irregular da família brasileira, e combater o risco da amputação do pênis por falta de higiene –um drama que nem o Ministério da Saúde sabe dizer quantos homens atinge anualmente.

A obsessão dispensa a estatística.

Freud explica

Um dos problemas de eleger um tiozão do pavê como presidente é ver o presidente se comportar em público como o tiozão do pavê.

O tio do pavê, para quem não está familiarizado com o doce, é aquele parente que todo domingo aparece na sua casa e pergunta o que tem na geladeira.

Se tiver pavê, esquece: a piada virá.

Como o próprio apelido já diz, é ele quem se dispõe a perguntar se a iguaria é pavê ou pacumê.

Ele sabe que todo mundo conhece a piada.

Sabe que ninguém aguenta mais.

Sabe que ninguém vai rir.

Ele se coça e chega a tremer de abstinência no instante em que as papilas gustativas ainda separam pensamento e ação.

O tio do pavê é mais que um estilo: é uma identidade visual. Seria uma filosofia de vida, se ele tivesse qualquer afinidade com a filosofia.

Enquanto tem pavê tem verbo, e ele não costuma economizar oportunidades de desfilar seu abecedário de piadas-prontas para disfarçar seu desinteresse com qualquer assunto que exija um raciocínio mais profundo que um pires.

Se acabar o pavê, ele pensa, todos à mesa vão perceber o seu deserto de ideias.

Então ele aponta o dedo para todo mundo como quem se desvia dos olhares: aponta para a sobrinha que não arrumou namorado, para a sexualidade do sobrinho, para as limitações físicas do cunhado, para o peso da irmã, para as rugas e estrias da atriz convidada do Faustão.

Historicamente, esse tio ou não era levado a sério ou se recolhia chateado no fundo do chinelo Rider, atribuindo ao mimimi e ao politicamente correto toda a sua incompreensão.

De um tempo para cá, esses tiozões descobriram que eram uma legião e se conectaram por aplicativos de mensagem instantânea, por onde enviam piadas sem graça, pornografia barata e maldizem os grupos sociais que passaram a ocupar os espaços de prestígio que eles imaginavam serem deles por direito. Tipo a universidade, aquele cabedal de balbúrdia para o qual não foram chamados.

Os tiozões do pavê deixaram de vagar como alma penada do universo da insignificância e encontraram, no vácuo político, mais que um sentido: encontraram um mito.

Alguém que, como os futuros tiozões do pavê que aproveitaram o desconhecimento da língua portuguesa de uma russa durante a Copa para gravarem e exporem sua piada sobre a cor de seu órgão genital, não perderia a chance de trollar um estrangeiro oriental que pedisse para fazer foto com ele no aeroporto.

Com o tiozão do pavê no poder, a vergonha não é uma questão. É oportunidade.

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Professoras relatam medo e cuidado com ‘patrulha ideológica’ nas escolas http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/05/13/professoras-relatam-medo-e-cuidado-com-patrulha-ideologica-nas-escolas/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/05/13/professoras-relatam-medo-e-cuidado-com-patrulha-ideologica-nas-escolas/#respond Mon, 13 May 2019 07:00:52 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=1354

No fim de abril, Jair Bolsonaro compartilhou, em suas redes sociais, o vídeo de uma discussão entre uma estudante e uma professora em sala de aula. A jovem acusava a educadora de usar 25 minutos da lição para falar de política e tecer críticas a Olavo de Carvalho, espécie de oráculo do governo.

A estudante era filiada ao PSL, partido do presidente.

A exposição levantou uma série de debates sobre a tensão vivenciada por professores diante da possibilidade de serem gravados ou terem as falas distorcidas e divulgadas pelas redes.

Sabemos que a sala de aula é um ambiente de confronto de ideias. De um tempo pra cá, porém, virou um terreno minado, sobretudo em aulas de história, literatura, filosofia e sociologia, que visam a estimular o pensamento crítico – muitas vezes confundido com “doutrinação”.

Na última semana, conversei com quatro amigas professoras*, de diferentes localidades, para sentir o clima no ambiente escolar após a execração pública de colegas intimidados por câmeras, discursos e, agora, pelo endosso do presidente.

A amostragem, claro, não tem valor científico, mas chama a atenção pela unanimidade: todas dizem ter passado por algum tipo de hostilidade, de pais ou alunos, nos últimos meses.

Uma delas, professora de história, conta que já teve sintomas como crises de choro e momentos de não querer sair da cama. “Já fiquei verde de nervoso, com ânsia”, conta.

Ela já foi acusada de ensinar “ideologia de gênero” para a sexta série porque abordou a questão das mulheres na Grécia Antiga. Na apostila havia imagens dos gregos com os corpos nus.

“Nem entrei em detalhes, mas a escola recebeu o telefonema de uma mãe dizendo que eu estava falando de ideologia de gênero. Tenho dez anos nessa escola e foi a primeira vez que passei por algo assim. A escola me pressionou, mas ficou do meu lado. Até quando?”

A mesma professora relata que já recebeu mensagem no celular de uma mãe meia hora após o fim da aula. “Ela me questionava sobre o que eu falei de homofobia, machismo e racismo na época das eleições. Não eram temas da aula, mas todos me perguntavam, e não tenho como falar de atualidades sem falar em política”, diz.

Ela precisou explicar para a mãe que aquela abordagem era inadequada e que era melhor formalizar um pedido de reunião na escola, mas foi ignorada.

No Rio, uma professora de sociologia da rede pública conta que ela e os colegas têm tomado medidas de precaução desde 2016, quando o movimento Escola Sem Partido começou a ganhar força. Um dos cuidados foi evitar adicionar alunos nas redes sociais.

Ela e os colegas ficaram acuados depois que os pais começaram a aparecer na escola com camisetas do tipo “eu sou contra a ideologia de gênero”. Desde então, conta ela, os professores passaram a fazer reuniões sempre acompanhados, como forma de se resguardarem.

Além disso, eles construíram coletivamente um discurso diante da resistência de determinados conteúdos e abordagens –deixando claro, por exemplo, que para criticar determinados autores é preciso, antes de tudo, conhecê-los, e explicando que gênero e sexo não são a mesma coisa.

“Os alunos gostam de se sentir ouvidos. A contestação é um ato de rebeldia. Eu deixo claro que eles têm o direito de ter a opinião que quiserem, mas que vou cobrar na prova conteúdos objetivos.”

Ela cita como exemplo o dia em que um aluno –“muito, muito inteligente”, segundo ela– disse, em um debate sobre internação compulsória, que, por ele, mandava matar todo mundo. “A sala ficou indignada e eu falei que ele tinha o direito de falar. Aí fui contra-argumentando. No final ele falou ‘professora, eu queria pedir desculpas, eu me equivoquei’. É um menino de 14 anos, sabe? Eles ainda estão abertos.”

Segundo ela, muitos pais não conhecem os filhos, não param para ouvi-los e ficam “bolados” quando descobrem que na escola eles têm liberdade para ser quem eles realmente são. “Eu tenho 250 alunos eu vou ficar me preocupando quem o aluno tá beijando?”, questiona.

Outra amiga, professora de redação em uma escola particular no interior paulista, diz que seus alunos não podem tirar o celular da mochila onde ela trabalha. “Mas eu confesso que penso um pouco na forma de falar, de fazer a crítica, para não ser mal interpretada. Tenho medo de que minha fala seja distorcida”, diz.

Ela afirma que não chegou a desenvolver nenhum distúrbio psicológico grave, mas que pensa, às vezes, se vale a pena ser professora no Brasil. “É uma visão muito desumana que a sociedade e a escola têm do professor.”

Exemplo do desprestígio aconteceu quando o pai de um aluno prometeu a ele uma super festa de aniversário desde que observasse uma condição: não chamar nenhum professor. “O clima é mais ou menos esse”, define.

“A maioria dos alunos que eu tenho não se manifesta agressivamente, mas com brincadeira ou indireta em alusão a doutrinação, principalmente quando o assunto é direitos humanos. Isso é mais visível nos homens. É muito visível também a influência dos pais nesses discursos”, relata.

“Em geral os mais fanáticos são os de menos leitura. Acham que tudo o que remete a filosofia e sociologia é coisa de comunista. Muitos não gostam de nada, só odeiam. Odeiam índio, negro, pobre, gay e mulheres, se forem feministas.”

Também no interior paulista, uma amiga que dá aula de sociologia na rede pública conta que, do ano passado para cá, passou a ser hostilizada por um grupo específico de estudantes. “Eu entrava, começava a falar, e eles comentavam entre si, davam risada, tentavam me intimidar. Eu ficava mal. Pensava: ‘É meu aluno, poxa, não um inimigo de quem devo me proteger’.”

“Na aula, dou noção de cidadania, direitos civis. Numa discussão, um menino me falou um monte sobre Marx depois de assistir a um vídeo no YouTube. Eu perguntei: ‘Cara, como você pode me acusar de doutrinação por causa de um livro que você nem leu? Vamos discutir o autor!’”

Ela disse que, em uma das aulas, precisou lembrar um estudante que ele estudava numa escola pública e que essa escolha sequer existiria se o discurso dele fosse levado ao limite.

“Mas meus embates são tranquilos perto do que ouço de outros colegas. Há casos de quem chegou a ser denunciada por usar ‘Capitães de Areia’ (livro de Jorge Amado) em sala de aula. É difícil não ficar tenso. Sociologia é uma disciplina que exige uma certa análise, um posicionamento. E eles estão sempre com o celular na mão. Isso pra virar um vídeo editado é um pulo.”

Apesar da tensão, ela diz encontrar também muita gente indignada com a patrulha e aberta a discussão. “Principalmente as meninas. Isso nos motiva”, diz.

*A pedido das entrevistadas, as identidades e nomes das escolas foram preservados

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Damares transforma até Frozen em “coisa do cão” para ganhar conservadores http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/05/12/damares-transforma-frozen-em-coisa-do-cao-para-ganhar-conservadores/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/05/12/damares-transforma-frozen-em-coisa-do-cao-para-ganhar-conservadores/#respond Sun, 12 May 2019 17:33:08 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=1384 “O cão está muito bem articulado e nós estamos alienados”. Assim Damares Alves, titular do Ministério das Mulheres, Família e Direitos Humanos, demonstra seu talento como crítica de cinema ao falar sobre o filme “Frozen – Uma Aventura Congelante”. Na cabeça da ministra, a protagonista da história “vai acordar a Bela Adormecida com um beijo gay”.

Alguém que vive em 2019, com a cabeça nas grandes questões deste século, poderia se perguntar: “e daí?”.

Veja também:

Acontece que, de um tempo para cá, um vórtice nas ideias de espaço e tempo se abriu para as cabeças pensantes de todas as eras –a do gelo e da idade média entre elas.

Pai de uma criança de cinco anos, lembro quando ouvi outros pais falarem sobre a produção da Disney para apresentar ao meu filho.

A Areti, amiga do trabalho e mãe de um garoto cinco anos mais velho, me explicava a sinopse: era a história de uma princesa de um reino congelado que só consegue quebrar a maldição do gelo quando encontra o seu grande amor.

Naquele momento, ela cortava a fala com um engasgo e uma lágrima que escapava dos olhos: “Aí ela descobre que o grande amor dela é a irmã”.

Ué, e o príncipe encantado? E a dependência da boa vontade do guerreiro que passaria por aquele reino levando a coragem e a salvação?

Nada disso.

Foi mais ou menos naquela época que comecei a me interessar pelos desenhos que faziam sucesso com as crianças do novo século. Até então, a última animação que havia assistido era, provavelmente, “A Bela e a Fera” ou “Bernardo e Bianca”, sucessos dos anos 90.

Já adulto, com algumas resenhas de filmes para adultos nas costas, e sem saber exatamente que mundo apresentaria ao meu filho pelos desenhos ou histórias em quadrinhos, transitava com assombro entre clássicos da literatura infantil, como “A Princesa e a Ervilha”, que algum parente nos presenteara.

Alguém conhece essa pérola? E a história de um príncipe mimado pela mamãe e orientado a descobrir quem é sua verdadeira princesa pelo grau de “sensibilidade” da pretendente. Um dia aparece uma candidata ao matrimônio em sua casa e dorme entre os melhores colchões e lençóis, sob os quais a rainha esconde uma ervilha.

No dia seguinte, a princesa acorda moída dizendo que havia dormido entre pedras, e só então a família real percebe que se tratava de uma princesa ideal ao filho, dada a sensibilidade em notar a presença de uma ervilha entre a roupa de cama.

Foi esse tipo de lição que mediou a moral dos enredos infantis durante séculos, e que só ajudava na manutenção de hierarquias historicamente consagradas. O prêmio dos finais felizes, nessas histórias, era quase sempre a tiraria do lar: “parabéns, seu príncipe te salvou; agora você está presa para sempre”.

Daí meu interesse nas histórias que de alguma forma ajudavam a desvirtuar essa ideia torta de final feliz.

A originalidade de “Frozen” se baseava no fato de que as personagens femininas constroem a própria história sem precisar de príncipe algum –pelo contrário, eles só ajudavam na trama quando não atrapalhavam.

A independência da protagonista, cujo grande amor ao fim da história (desculpa pelo spoiler) é a irmã, levantou na época uma série de suposições sobre a sua sexualidade.

“E daí?”, diria novamente os espectadores e espectadoras minimamente conectados com o mundo contemporâneo.

Para a ministra, para quem as cores azul e rosa definem não só uma identidade, mas um lugar no mundo, essa conversa não se refere apenas à representação de uma personagem dona de si, do próprio destino e do seu reino: é uma estratégia do demônio para conquistar corações e mentes.

A mesma paranoia da ministra já desenhou uma noção particular de prioridades ao denunciar a zoofilia que, segundo ela, seria marca registrada nos hotéis fazenda no país, e os hábitos pouco heterodoxos de holandeses que iniciam seus filhos a masturbação desde a primeira infância.

Damares, vale lembrar, representa metade da cota feminina de um ministério dominado por figuras masculinas: 22 homens e duas mulheres, para ser mais exato.

Apesar da sua posição, seu discurso é todo construído para o agrado do chefe que, em ato falho, já demonstrou todo seu apreço pelo seu ministério: nenhum.

Em sua defesa, Damares não é nem de longe a única autoridade deste governo a anunciar guerras particulares contra moinhos de vento, como fazia um certo Dom Quixote em sua luta contra uma realidade que já não reconhecia.

O próprio presidente Jair Bolsonaro, na semana passada, declarou guerra aos radares de rodovias federais para “devolver” ao brasileiro de bem o prazer de dirigir –decerto, a prioridade das prioridades de um país que em breve não terá dinheiro para pesquisa.

Em sua conta no Instagram, Damares diz que sua análise sobre o filme da Disney ocorreu há quatro anos, quando foi uma das convidadas a falar em uma “Palestra em Defesa da Família“.

Quatro anos depois, ela reitera que sua crítica se refere à “tentativa de interferência dos ideólogos de gênero na identidade de nossas crianças”.

No país onde oito em cada dez casos de feminicídio até o fim de abril deste ano ocorreram dentro de casa, e 26 dos 37 casos tinham autoria conhecida, a maior autoridade no assunto prefere atribuir todos os nossos males à suposta doutrinação. Para ela, a mensagem demoníaca está embutida em uma personagem de desenho animado com cabelos brancos cujo maior pecado é sair cantando “livre estou, livre estou”.

A pergunta que fica é: será que a ministra, responsável por uma pasta tão sensível, realmente acredita no que pregava há quatro anos?

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Tiros de homens rejeitados por mulher deveriam nos fazer repensar armamento http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/05/08/tiros-de-homens-rejeitados-por-mulher-deveriam-nos-fazer-repensar-armamento/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/05/08/tiros-de-homens-rejeitados-por-mulher-deveriam-nos-fazer-repensar-armamento/#respond Wed, 08 May 2019 07:00:50 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=1357

Foto: Getty Images

A festa por pouco não terminou em tragédia. No fim de semana, na badalada praia de Jericoacoara, em Jijoca (CE), três rapazes foram filmados disparando tiros para o alto após serem rejeitados por uma mulher.

Os vídeos foram, postados nas redes sociais, são a prova da combinação mortífera entre armas e a chamada masculinidade tóxica, dessas que não aceita não. A suspeita é que os atiradores sejam policiais.

Se eles, que recebem treinamento adequado para andarem por aí armados, podem aprontar uma dessas, o que dizer do tal “cidadão comum”?

Vendo as imagens, me pergunto qual país do mundo pensaria em facilitar o acesso a armas em um contexto já flagrantemente violento, em que ninguém parece disposto a resolver seus conflitos pessoais pela humildade e o diálogo.

Esse país é o Brasil.

Quase quatro meses após flexibilizar a posse de armas no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro assinou, nesta quarta-feira, um decreto que, entre outros pontos, dá permissão a colecionadores, atiradores desportivos e caçadores irem de casa ao local de tiro com a arma com munição, além de políticos eleitos, caminhoneiros, advogados, agentes de trânsito e jornalistas que atuam em cobertura policial.

Na prática, o decreto institui o porte de arma, que deveria ser restrito no país, a diversos grupos de profissionais. Atende, assim, a um pleito antigo das fabricantes.

Aos demais, resta torcer para que os portadores não parem em nenhum lugar entre a casa e o trabalho, que nesses locais não haja qualquer faísca de confusão e que as armas não sejam objeto de dissuasão para impor vontades e resolver questões pessoais.

O decreto assinado na quarta permitirá também que o proprietário rural possa utilizar a arma em todo o perímetro da propriedade e prevê quebra o monopólio da importação de armas no país.

Além disso, o direito à compra de até 50 cartuchos por ano passará para até mil cartuchos por ano.

A pergunta que me faço é: por quê?

O que uns chamam de direito, para outros é risco de vida. O desfecho da festa em Jericoacoara é prova disso na prática.

Vivemos, afinal, em um país onde, segundo pesquisa Datafolha divulgada em 2018, 42% das brasileiras com 16 anos ou mais declaram já ter sido vítima de assédio sexual. Os relatos mais comuns são sobre assédio nas ruas e no transporte público.

No grau de tensão atual, de escalada de casos de agressão, a segurança pública deixa de ser um assunto para autoridades e passa a depender dos humores de quem detém a munição.

Em caso de confronto, ganha quem sacar o revólver primeiro, como nos filmes de faroeste.

Se esta é a saída para a segurança, não vejo razões para alguém querer sair de casa no futuro próximo. Não é difícil prever que as cenas como a registrada na festa em Jericoacoara se tornarão, daqui em diante, cada vez mais comuns.

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