Matheus Pichonelli http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal. Thu, 23 Jan 2020 10:53:33 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Terraplanismo ecológico de Paulo Guedes não resiste a uma volta pela cidade http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/01/23/terraplanismo-ecologico-de-paulo-guedes-nao-resiste-a-uma-volta-pela-cidade/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/01/23/terraplanismo-ecologico-de-paulo-guedes-nao-resiste-a-uma-volta-pela-cidade/#respond Thu, 23 Jan 2020 07:00:16 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=2267

Atire a primeira tora de madeira quem nunca passou por necessidades econômicas e, ao ouvir o ronco de uma barriga faminta, não saiu por aí derrubando árvores até se saciar.

Você não?

Pela lógica de Paulo Guedes, superministro da Economia, esse seria o programa cultural (como diria Jair Bolsonaro) nos grupos, digamos, menos favorecidos do país.

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Em sua participação em um painel do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, Guedes foi contundente em afirmar que o pior “inimigo do meio ambiente é a pobreza”.

Em novembro passado, o mesmo ministro já havia demonstrado tudo o que sabe sobre a dinâmica dos lugares onde possivelmente jamais colocou os sapatos ao dizer, numa entrevista, que “os ricos capitalizam seus recursos, os pobres consomem tudo”. 

Neste país que Guedes parece desconhecer, 63 milhões de pessoas estão inadimplentes. Funciona assim: quem tem sobrenome renegocia ou ganha isenção; quem tem só o nome, e nem sempre tem emprego, prioriza despesas básicas, como alimentação e bebidas, geralmente os itens mais pressionados pela inflação na cesta básica.

Mas “essas pessoas”, segundo Guedes, não só não poupam o que não sobra como “destroem o meio ambiente porque precisam comer”. “Eles têm todas as preocupações que não são as preocupações das pessoas que já destruíram suas florestas, que já combateram suas minorias étnicas e todas essas coisas.”

É provável que o ministro se referisse aos países ricos que já tratoraram suas florestas e seus povos nativos em nome do desenvolvimento – como se no Brasil devastação e genocídio não estivessem suficientemente misturados no cimento e na argamassa do progresso.

Enquanto tentam justificar a atividade predatória (e de alto impacto ambiental, como mineração) na Amazônia, uma volta às cidades que ainda sufocam as áreas remanescentes de cerrado e mata atlântica bastaria para mostrar quem são os patrocinadores da devastação neste mesmo país. Spoiler: eles têm dinheiro para comprar trator e motosserra.

Muitos têm dinheiro também para comprar licenciamento e erguer em áreas antes preservadas condomínios, edifícios de alto padrão, hotéis de luxo e shoppings centers onde os mais pobres só entram para servir.

O resultado do casamento entre poder público e as grandes construtoras que avançam e transformam as cidades em uma selva de concreto e asfalto pode ser visto todos os anos nas estações chuvosas, quando o descaso se converte em enxurrada nas áreas periféricas. Mas são as vítimas desse ciclo, claro, as culpadas pela devastação.

Longe dos nossos olhos, poucos se questionam também como se expandem as fronteiras agrícolas, ou que fim levaram investigações como a realizada pela Delegacia do Meio Ambiente e o Ministério Público de Mato Grosso sobre um esquema de fraudes na principal ferramenta de licenciamento de propriedades rurais no Estado – fraudes que abriram caminho para desmates ilegais, o equivalente a 22 parques do Ibirapuera em apenas um dos casos.

Cinco supostos beneficiários tiveram, na época, R$ 407 milhões em bens bloqueados.

Nenhum deles passava fome.

E como estamos combatendo esses e outros esquemas?

Sucateando, constrangendo ou patrulhando órgãos de defesa do meio ambiente acusados de promover a “indústria da multa” e prendendo, com base em investigações chinfrins, grupos voluntários de proteção das florestas, como aconteceu em Alter do Chão, no Pará.

A declaração do ministro Paulo Guedes não é só uma demonstração gratuita de terraplanismo econômico e ecológico, prontamente refutada por lideranças como o vice-presidente dos EUA Al Gore. É também um acinte quando se lembra que no mesmo dia o Ministério Público Federal denunciou 16 executivos da maior mineradora do país pelo crime de homicídio doloso após o rompimento, em janeiro de 2019, da barragem em Brumadinho (MG), a maior tragédia ambiental do país. 

O mar de lama, ministro, como tantas outras tragédias que ceifam vidas por onde passam, não foi provocado pela fome dos necessitados, mas pela ganância de quem não mede consequência para mudar o curso de rios, matas e o que mais estiver à frente para ampliar suas margens do lucro.

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Só um maluco? Por que não podemos reduzir Roberto Alvim à ala psiquiátrica http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/01/20/so-um-maluco-por-que-nao-podemos-reduzir-roberto-alvim-a-ala-psiquiatrica/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/01/20/so-um-maluco-por-que-nao-podemos-reduzir-roberto-alvim-a-ala-psiquiatrica/#respond Mon, 20 Jan 2020 07:00:40 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=2256

À direita, o agora ex-secretário Roberto Alvim em live com Jair Bolsonaro e Abraham Weintraub (Educação)

A demissão de Roberto Alvim da Secretaria Especial da Cultura, na última sexta-feira (17), pode levar alguns apoiadores do governo Bolsonaro a pensar que o anúncio de um edital tomado de referências ao ministro da propaganda nazista Joseph Goebbels foi só um tropeço que precisou de uma correção de rota.

Não foi e, a essa altura, já não dá para ignorar que o caldo onde o agora ex-secretário escorregou já alimenta mais de 300 células neonazistas pelo país.

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Desde o começo, a gestão bolsonarista se tornou uma biruta de aeroporto que ora aponta para um filme de “Os Trapalhões”, ora para um capítulo ainda inédito de “Handmaid’s Tale”.

O pronunciamento derradeiro de Roberto Alvim foi um pouco dos dois. Você assiste aquela peça e chega a rir de nervoso diante da presepada de quem imaginou que ninguém, em pleno 2020, perceberia o copia e cola. “Era só um paspalho inofensivo”, alguém poderia dizer.

Em seguida, você começa a tremer (também de nervoso) lembrando que, mais preocupante do que assistir a um sujeito anunciar que a arte brasileira da próxima década será heroica e nacional, que estará profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povo –“ou então não será nada”–, é saber que um presidente tão centralizador não deixaria um anúncio desta envergadura ir ao ar sem o crivo de alguém de cima.

“Mas era só um maluco perdido num governo de homens sérios”, eles insistem. Sei. 

Está certo que, se eu estiver passando na rua à noite e cruzar com aquele sujeito de olhar em transe hipnótico falando que a cultura vem aí para salvar a juventude, sou capaz de atravessar a rua e o Tietê a nado.

Só que a demissão do “maluco” não alivia o fato de que ele chegou onde chegou depois de chamar a atriz Fernanda Montenegro de “sórdida”. Foi como abrir as cortinas para recolher os aplausos palacianos para si.

No vídeo, Alvim não plagiou apenas o ideólogo do nazismo, mas anunciou uma espécie de sarau de colégio que vai premiar, com dinheiro público, redações e outras manifestações artísticas que estejam em total acordo com um presidente que tem chilique ao primeiro sinal de contrariedade, que manda jornalista calar a bola, que prefere ter um filho morto a um filho gay, que louva torturador, que protege secretário de comunicação responsável pela verba publicitária dos fornecedores de sua empresa, que faz troça sobre pênis de orientais, cabeça de nordestinos e pergunta o que é golden shower no Twitter.

Com ou sem Alvim, são essas as diretrizes que seguirão tentando definir a nova sensibilidade estética brasileira, como já fizeram outros líderes megalomaníacos apoiados numa ideia de “maioria” que não corresponde sequer à vontade das urnas. 

Quase cem anos depois da Semana de 1922, vamos engolir esse tipo de manifesto que tem a estética da perversidade como fundamento?

Porque, sinceramente, se for para patrocinar textos que discorram sobre a gênese da família brasileira, era melhor comprar logo um lote com os livros de Nelson Rodrigues. Está tudo lá, e isso permite dizer que, se o Brasil tivesse em outras áreas o nível de excelência de seus artistas, ninguém estaria catando os cacos da economia para medir nossos voos de galinha.

“Mas calma, era só um maluco”. Era mesmo?

Na divisão das sesmarias do governo, os responsáveis pelas áreas de cultura, meio ambiente, relações exteriores e direitos humanos são recorrentemente mencionados como integrantes da “ala psiquiátrica” do bolsonarismo.

O próprio ministro da Educação, Abraham Weintraub, já mostrou a que veio ao dizer que “a aspirina foi feita pelos nazistas e eu uso aspirina” –o ácido acetilsalicílico foi sintetizado pela primeira vez em 1897, mas a referência ficou no ar.

Você pode até desconfiar da inteligência de quem escreve “imprecionante” no Twitter, mas ninguém ali rasga nota de cem.

Apesar do olhar comum de quem cheirou a própria meia antes de ir à TV para decretar não uma nova ideia, mas um novo tempo, chamar a turma de “ala psiquiátrica” não só é reducionista, como ofende e estigmatiza quem realmente precisa de ajuda psiquiátrica para organizar os pensamentos e viver em sociedade.

Não sei se era o caso do ex-secretário, nem do guru do governo, que é sempre pintado como maluco numa webcam instalada nos EUA, mas uma coisa é certa: não há um passo dessa turma que não tenha sido calculado, com método, racionalidade e precisão.

Alimentada pela paranoia e posicionada para a guerra cultural, essa ala ideológica pode ter perdido um soldado, mas segue querendo domesticar o ressentimento de um país com 12 milhões de desempregados e outros tantos em ocupações precárias e sucateadas. Quer também transformar frustração em instrumento de poder, com inimigos declarados e a crença de que esse país só não colheu ainda a glória porque nossa grande vocação nacional foi destruída por artistas, jornalistas, ambientalistas e movimentos sociais que, emporcalhados por um espírito crítico maligno, querem dividir a nação em vez de contribuir para a grandeza do estado patriótico.

Essa conversa furada só usa tarja-preta para censurar inimigos e já deu errado em outros momentos da história que agora querem reinventar. É nosso dever histórico lembrar disso todos os dias.

O trabalho começa dando o nome certo para as coisas.

O que movimenta essa ala não é “loucura” nem “insanidade”. É o combo de ressentimento e esperteza de quem nunca foi exemplo de conduta, jamais teve destaque em sua área (não como gostaria) e, uma vez instalada no topo, não sairá de lá enquanto não destruir tudo aquilo que a contrarie e não pense como ela.

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Fuga de Meghan e Harry é a “História de um Casamento” com final feliz http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/01/16/fuga-de-meghan-e-harry-e-a-historia-de-um-casamento-com-final-feliz/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/01/16/fuga-de-meghan-e-harry-e-a-historia-de-um-casamento-com-final-feliz/#respond Thu, 16 Jan 2020 07:00:58 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=2235

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Ok, final feliz talvez seja muito: há mais coisas entre o abandono da realeza e a vida ordinária (risos) que Meghan Markle e o futuro ex-príncipe Harry pretendem levar do que supõem os tabloides britânicos.

Por enquanto, podemos ficar tranquilos que dinheiro para o aluguel ou a escola dos filhos não vai faltar.

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O que não tira deles o peso de uma decisão que promete criar jurisprudência mundo afora –e que me impede de fazer coro aos amigos contrariados com o buzz em torno do ex-casal real enquanto temos, por aqui, tantas urgências ainda mais reais a serem resolvidas.

Tempos atrás, escrevi por aqui, no Dia dos Namorados, que o romantismo pintado para vender perfumes e chocolates em 12 de junho escondia o fato de que, no mundo real, longe das propagandas, a vida a dois é quase sempre boicotada.

Sei que o mundo mudou, que nos círculos de discussões mais sofisticadas as pessoas estão mais conscientes de si, de suas responsabilidades afetivas, estão mais desconstruídas e menos vulneráveis às armadilhas de uma sociedade de bases patriarcais. Mas, nascido, criado e agora radicado no interior, sinto que a distopia defendida pela ministra Damares Alves (“menina veste rosa e deve ser tratada como princesa“) nunca foi distopia, mas a política de Estado dos sonhos nas melhores famílias.

Isso significa que a figura do homem provedor e da mulher responsável pela casa, pelos filhos e pelo corpo (para não ouvir reclamações do conje sobre qualquer desvio do padrão) ainda é recorrente. Nesse modelo, todas as vontades masculinas são atendidas, e o lugar onde decidem morar é o lugar que quem trabalha escolher –nem que seja um anexo da casa dos pais.

Quando este modelo é quebrado, duas rachaduras promovem verdadeiras inundações no chope da vida a dois.

Uma delas são os amigos, que desde o namoro se esforçam para colocar em você a camisa do bonequinho derrotado no altar com a legenda de “Game Over”. Nunca falta quem te liste todas as oportunidades desperdiçadas, entre viagens e voos profissionais, em troca das palavras presença e compromisso.

Da mesma forma, parentes que não falavam com você desde a Copa de 2002 de repente surgem do nada para dizer que você é novo demais para amarrar seu burro e que o que mais tem por aí são novos e efêmeros amores para se viver.

A esses as ferramentas de bloqueio eletrônico são facultativas, mas e quando as cornetagens partem dos pais?

Sem nunca ter passado perto de Buckingham, conheço histórias de casais que tiveram a vida a dois devastada pelas etiquetas, exigências, bisbilhotagem e situações invasivas de todo tipo na vida dos filhinhos criados como príncipes, acostumados a receber aplausos até quando arrotam, e que alguma suposta megera quer levar para longe.

As investidas, que superficialmente abordam a independência das parceiras, a forma como se criam os filhos ou mesmo a organização da casa, têm sempre uma mensagem de fundo: “ela não é pra você!”

A forma como esses caras administram essas intromissões é uma espécie de teste definitivo da vida adulta.

Em “Cenas de um Casamento”, clássico de Ingmar Bergman, a história de Johan e Marianne começa a virar poeira quando eles fracassam ao telefonar para a casa dos sogros e avisar que não, naquele domingo não iriam almoçar juntos, como sempre faziam. A impossibilidade de deixarem os papéis de filhos ao assumirem os novos papéis do casamento os leva a uma espiral autodestrutiva, com outras decepções envolvidas.

No caso do “Megxit“, é natural que alguém com mais pretensões na vida do que saber se comportar na hora do jantar queira fugir daquela vida encastelada, cheia de armadilhas e, no caso da princesa, provocações de bases racistas.

A notícia é que o futuro-ex-príncipe Harry queira fugir com ela, para desespero dos parentes que estão ma-go-a-dís-si-mos com o anúncio.

Nada, nada, o que Harry está fazendo é exatamente o oposto do que faz o personagem de Adam Driver em “História de um Casamento”, recém-indicado ao Oscar de melhor filme. Com a vida ganha em Nova York, o personagem, considerado um gênio da dramaturgia, demora a perceber que a companheira e o filho têm outros sonhos e interesses além de girar ao seu redor –algo que ele só consegue ouvir quando o desacordo vira disputa judicial.

Cena do filme “Historia de um Casamento”, de Noah Baumbach

O filme chega a ser irritante porque sabemos desde o começo que aquela separação, e o nível de sofrimento provocado pelos conflitos entre quem queria outra vida e quem não estava disposto a mudar um milímetro (no caso, todos os milímetros de uma costa a outra dos Estados Unidos) por alguém poderiam ser evitados com alguns poucos ajustes entre a carreira e a rotina familiar.

Quando ele amadurece, é tarde demais (desculpem pelo spoiler).

No caso de Harry, há um verdadeiro oceano Atlântico a ser atravessado por ele ao lado de uma atriz com futuro nos EUA. Ao que consta, ela quer um parceiro, e não um príncipe. Sorte deles.

Posso estar enganado, mas romper com as expectativas da família para dizer “tamo junto” para a companheira me parece uma prova de amor e tanto em uma época em que boa parte dos marmanjos não consegue atravessar a rua dos pais para começar uma vida nova.

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Todos têm as férias perfeitas em janeiro. Menos você http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/01/13/todos-tem-as-ferias-perfeitas-em-janeiro-menos-voce/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/01/13/todos-tem-as-ferias-perfeitas-em-janeiro-menos-voce/#respond Mon, 13 Jan 2020 07:00:42 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=2222

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“O que você está fazendo que ainda não viu essa série?”

A pergunta vem no tom de uma intimação judicial antes mesmo do terceiro dia útil do ano.

Tento elaborar alguma resposta de olhos fechados, enquanto meu filho se acopla como gosma sobre a minha cabeça, me pedindo para sair do computador e jogar futebol com ele na garagem. Caso contrário, vai permanecer com meu celular no cativeiro e devolver apenas mediante fiança (a bola, no caso). São oito horas da manhã.

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A ameaça vem naquele tom de voz de criança de férias entediada que não entendeu exatamente o conceito de home office.

Acho que ninguém entendeu.

Da mesa de jantar, que serve também como escritório e depósito, observo em perspectiva os livros enviados para análise pelas editoras se transformarem em uma pequena pilha.

O box de cinema iraniano que tirei da gaveta para falar sobre a guerra iminente dos persas com os Estados Unidos está mais distante dos meus braços do que uma oliveira no Teerã.

O trabalho se acumula, e isso me faz acordar cada vez mais cedo para iniciar uma maratona e terminar tudo o que consigo antes que a criança acorde. Maratona, aqui, não tem nada a ver com séries. Nem com os treinos instagramáveis de amigos adeptos de legendas do tipo “Tá pago”.

Mãe e filho estão de férias e, com eles, eu levo um escritório na mochila para onde vamos. Férias, para quem trabalha “por conta”, é um quarto de hotel com ar-condicionado quebrado e uma conexão ruim. Ao menos consigo dar um mergulho no fim do dia antes de apagar de estafa.

O cansaço não é físico.

Na virada de um ano e outro, deixamos para janeiro tudo o que não pudemos cumprir na temporada anterior, da visita aos amigos que mudaram e estão de passagem pela cidade à consulta com o médico para marcar aquela cirurgia para tirar a bolinha que cresce no canto do olho esquerdo. Tem também que passar no banco, pedir o novo cartão, gerar a nova senha do app que está bloqueado. 

Sim, nossa lista de resoluções já foi mais ambiciosa. Foi-se o tempo em que a rampa em U da virada do ano dava fôlego para encarar um clássico escrito por algum autor russo no século 19.

Um conselho para o jovem leitor: leia tudo antes dos 30. Não pense que com a maturidade virá o tempo que você achava que faltava quando não sabia escolher entre uma viagem com amigos e os cânones. Nada se compara ao tempo que você precisará manejar entre as páginas sobre São Petersburgo e os vídeos dos irmãos Luccas e Felipe Neto.

Conciliar papéis são outros 500 depois dos filhos, o que contribui para elevar a ansiedade para níveis preocupantes logo nos primeiros dias do ano, quando todos, sem exceção, parecem felizes, mas felizes de querer explodir, embaixo do pôr-do-sol, dos banhos de cachoeira, dos passeios de barco, dos chapéu voando em carros conversíveis, dos sorrisos que fundem bocas e orelhas num mesmo arco. Tudo isso enquanto você passou a virada do ano com febre por medo de não dar conta de tudo numa cama onde escondeu os restos a pagar da temporada anterior, inclusive aquele texto que você imaginava que seria tranquilo apurar enquanto seu filho deita em forma de estrela e promete não sair do chão enquanto ninguém colocar na TV pela undécima vez os sete maiores gols da carreira do Neymar.

É desse vídeo maldito que você lembra enquanto a Phoebe Waller-Bridge discursa no Globo de Ouro como melhor atriz de uma série imperdível que você não sabe o que estava fazendo enquanto perdia, mas que agora está na lista de tarefas a terminar em 2020 junto aos indicados a melhor filme disponíveis nas plataforma de streaming que você paga todo mês para não ter desculpas para não conferir. 

Ou temos?

Essa é a pergunta do milhão: se tudo está tão perto como um controle remoto, por que estamos sempre defasados correndo atrás de novidades e segundas temporadas e livros premiados e listas do que precisamos fazer e lugares para conhecer antes de morrer?

Talvez a receita para não se angustiar nessas horas é saber que o tempo é um recurso escasso desde que o mundo é mundo, que lidar com crianças de férias, apesar do que atestam os Sebastiões Salgados do Instagram, não é garantia de felicidade plena (inclusive para elas) e que viver será sempre uma grande queda-de-braço entre estar por dentro de tudo e estar minimamente são, sem sono interrompido nem cobranças de perfeição para além das inevitáveis.

Em outras palavras, janeiro uma hora acaba. O mundo, não.

É bom deixar algum gás para os outros 12 meses antes de o primeiro gritar “acaba, 2020”.

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Terceira Guerra Mundial? Na tensão, Brasil vira polo exportador de memes http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/01/09/terceira-guerra-mundial-na-tensao-brasil-vira-polo-exportador-de-memes/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/01/09/terceira-guerra-mundial-na-tensao-brasil-vira-polo-exportador-de-memes/#respond Thu, 09 Jan 2020 07:00:58 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=2208

Faustão sorrindo/Faustão preocupado: um dos muitos memes que captaram a tensão e o deboche dos brasileiros

“Vai ter a Terceira Guerra Mundial?”, perguntou meu filho, de seis anos, ao ver os pais falando sobre os ataques com mísseis iranianos a uma base americana em Bagdá, no Iraque. 

Era o tipo de assunto de que não deveríamos falar perto de uma criança, ainda mais quando é hora de deitar. Vendo seu pânico, aceitamos dormir os quatro –os três mais a cachorra– na cama na noite de terça-feira (7), num desses muitos exercícios de transmissão de segurança para crianças entre adultos que mal sabem o que fazer diante da tensão.

Sem conseguir pegar no sono, e como sempre acontece nessas horas, entramos, pai e mãe, no Twitter para conferir as primeiras notícias vindas da capital iraquiana. Logo o silêncio foi quebrado, e o pânico do menino se transformou em confusão. “Por que vocês estão rindo?”

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Como explicar?

No feed, entre as muitas notícias vindas do Oriente Médio, saltava na tela o gif de um sujeito tremendo todo enquanto levava inutilmente uma garrafa de água até a boca. A legenda era autoexplicativa.

“O Irã promete responder a Washington”, postava outro, com uma foto do xará e cumpadi do “É o tchan” com o olhar do desespero.

Em imagens sobrepostas, Susana Vieira e Faustão riam e depois ficavam sérios e pensativos diante da catástrofe iminente.

Outro lembrava de ter dito que 2020 seria um ano de muita luz. A luz, na imagem, era o cogumelo de uma bomba nuclear.

Outro desafiava os seguidores a escolher quem os defenderia na Terceira Guerra Mundial; a dele era a cantora Jojo Todynho treinando boxe.

Lá pelas tantas, o bicho-preguiça Sid, de “A Era do Gelo”, alternava a famosa frase “vamos viver/vamos morrer” diante do olhar de reprovação de dois mamutes prontos para a guerra.

A coisa chegou a tal ponto que teve gente escrevendo em persa, com a ajuda do Google Tradutor, com apelos para o Irã não atacar o Brasil após Jair Bolsonaro sair em defesa de Donald Trump, seu ídolo.

Nossos escudos antimísseis levavam o rosto da cantora Gretchen e da apresentadora Andressa Urach e viraram notícia em uma rede de TV iraniana. 

“Meu Deus”, respondeu Gretchen, após ver seu rosto onipresente no Twitter ganhar também o mundo. Em seguida, ela mesma repostou a mensagem do apresentador local, que pedia para os brasileiros não se preocuparem e prometia nos visitar no Carnaval.

O surrealismo da coisa toda não é capaz de diluir a gravidade da situação após o assassinato de um general da ativa do Irã, que é tratado como terrorista pelos inimigos, como mártir e herói pelos compatriotas, e que levou milhares de pessoas ao seu funeral, marcado pela morte de dezenas de pessoas pisoteadas durante as homenagens e as promessas (muitas) de revide.

Ninguém em sã consciência diria que estamos mais seguros desde o primeiro ataque, mas, em meio à tragédia, com direito a terremoto, acidente aéreo e riscos ao comércio com um parceiro estratégico, o Brasil, que no auge da brincadeira acaba se levando a sério a ponto de se imaginar alvo potencial, virou um polo exportador de memes. Até playlist para ouvir no fim do mundo foi criada no Spotify (destaque para os sucessos “Tiro de Bumbum” e “Olha a Explosão”).

O fenômeno não é novo: nos momentos de alta tensão, o deboche é quase um abrigo natural dos brasileiros, e não só depois de tratoradas como o 7 a 1. 

No documentário “Tá Rindo de quê?”, Claudio Manuel e Alê Braga mostram como o humor brasileiro floresceu no auge da ditadura, com Chico Anysio, Jô Soares, Os Trapalhões e os cartunistas de “O Pasquim”. Todos compunham uma espécie de resistência pelo riso: se o poder não admite erros, a exposição ao ridículo servia como um sistema de contrapesos pelo constrangimento.

“Eles [os militares] só não conseguiram nos tirar uma coisa: nossa capacidade de levar na esportiva”, lembraria Millôr Fernandes, anos depois, na introdução de um livro com suas melhores crônicas. O resto era pura derrota.

Esse talento foi herdado pelas gerações seguintes, que encontraram no Twitter o território do alívio cômico –ou um boteco virtual, como definiu o antropólogo Michel Alcoforado, colunista do UOL, quando o entrevistei para falar sobre a tal geração Z, nascida após 1997 e que colonizou a rede social. Lá, as informações, resumidas em trending topics, chegam filtradas pelas lentes do deboche, a grande marca de uma multidão que descobre o que está acontecendo pelo mundo através do meme.

O sucesso da empreitada cria sentimentos confusos. Quem garante que essa tendência à avacalhação não seria sintoma de um país que se nega a crescer ou lidar com as suas tragédias e as tragédias do mundo com a seriedade que os assuntos –tipo, sei lá, a destruição do planeta– merecem?

Pode até ser. Mas enquanto as figuras ditas sérias forem uma caricatura em si, daquelas que atribuem aos peixes uma inteligência própria de fugir do óleo derramado pelos humanos ou que mandam os conterrâneos defecarem dia sim, dia não, para ajudar na preservação do meio ambiente, o meme brasileiro será a única instituição nacional consagrada e digna de nota mundo afora.

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O que fazer quando o amigo de infância vira um militante reaça? http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/01/06/o-que-fazer-quando-o-amigo-de-infancia-vira-um-militante-reaca/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/01/06/o-que-fazer-quando-o-amigo-de-infancia-vira-um-militante-reaca/#respond Mon, 06 Jan 2020 07:00:11 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=2199

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Visitar a cidade onde nascemos é um teste de resistência à memória afetiva. Como tudo na vida, ela é permeada por armadilhas, boa parte delas metamorfoseada de encontros fortuitos –um tipo de ataque frontal para o qual nunca teremos retaguarda.

O que dizer, por exemplo, quando naquela semana entre o Natal e o Ano-Novo, você vai ao supermercado e encontra por acaso, perdido na gôndola entre a maionese e a maisena, aquele antigo amigo do prédio de quem não tinha notícias desde que você alugou uma chácara para alguma festa na esquina da juventude transviada com o vestibular.

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Você bate o olho no sujeito e quase não o reconhece de pochete na cintura e um coque samurai resistente em meio a um deserto capilar. Mas algo parece familiar nos trejeitos e no tom de voz, e você, saudoso, tem vontade de se aproximar e dizer que ainda se lembra daquela última festa e ainda pode ouvir o camarada cantando uma versão aguda e etílica de “Tempo Perdido” em cima da mesa, quase sem roupa, todo enrolado no fio do microfone do videokê.

Se você buscar fundo na memória vai recordar que foi ele mesmo quem te apresentou aos discos do rock nacional naquele fim dos anos 1990. O nosso vizinho descabelado também amava os Beatles, os Rolling Stones, o Rogerio Skylab e sonhava em montar na praça da cidade uma versão local do Woodstock.

Saudoso, você quer se aproximar e dizer, com o alívio cômico de quem se safou, que ainda se lembra daquela vez que ele ameaçou sequestrar seu irmão mais novo enquanto você não devolvesse o CD de “As Quatro Estações” –o da Legião Urbana, não da Sandy & Junior.

Você tem vontade de lembrar dessas e outras passagens da infância para a adolescência quando, mal se desprende do abraço, é soterrado pelas inquisições da vida adulta, todas elas interessadas em saber por onde você anda, com quem anda, o que faz da vida, se tá rico ou não.

“Tá trabalhando com o quê, rapaz?”

Foi-se o tempo em que você sentia uma pitada de orgulho ao dizer “ando escrevendo, trabalhando num livro novo” e coisas do tipo.

A velha pergunta do “você trabalha ou só escreve?” é a versão millennial da piada do pavê. 

“Tá naquelas parada de jornalismo ainda?”.

“Er…”

“Ih, é comunista”.

Você olha para o lado e procura na indumentária qualquer signo que possa te delatar. Ajuda nessas horas não usar camisa vermelha nem ostentar no antebraço qualquer referência a foices e martelos. Ainda assim, ninguém escapa.

“Essa barba te entrega. Tá a cara do Gregório”.

Você pensa, então, em perguntar por onde anda o Gregório, nosso vizinho do segundo andar que queria ser goleiro, e só percebe que o Gregório de quem ele falava era o Duvivier quando ele se benze e cospe no chão.

“Tô brincando!”, diz o amigo, tilintando os dentes do fundo como se tirasse de alguma caixa de comentários um “kkk” em realidade ampliada –um sinal de que você precisava encerrar aquela conversa e torcer para que o próximo esbarrão de supermercado leve outros 20 anos para acontecer. 

Era tarde.

Como sempre, o problema desses encontros fortuitos não são os choques de opinião nem o tempo esfregando nossa degradação na nossa cara. O problema é a pregação.

O sujeito não pode ver um espírito frágil, solto no mundo, sem apego a qualquer teoria, fantasia ou algo mais que já se arma para a guerra.

“Você tem filho?”

Penso em mentir.

“Fica esperto. A TV, a escola, a mídia: todo mundo vai tentar arrastar ele para o marxismo cultural e a ideologia de gênero”. 

Você agradece, promete ficar esperto, mas adianta? O velho amigo quer pregar. E quer arrastar todo mundo com ele.

“Em casa vamos adotar o homeschooling. Não dá. Precisei ameaçar explodir a escola com o professor e os alunos dentro para pararem de ensinar bagulho de direitos humanos para crianças de 16 anos. Mas em casa precisa ficar atento também. Já cortamos o cabo da TV, jogamos os livros fora, cancelamos todo tipo de jornal, revista, tudo. Só consumimos agora o que vem do YouTube e dos grupos de WhatsApp patrióticos”.

Você bate palma, dá um tapinha nas costas, diz “muito que bem”, bota a alma à prova, vira as costas e a metralhadora prossegue.

“Hoje em dia não dá, cara. Muita depravação. Muita sem-vergonhice”.

Falava o sujeito que não faz tanto tempo assim fazia cosplay sem roupa do Renato Russo na segunda cerveja, jogava xaveco furado em meio mundo pelo falecido ICQ, pedia piedade aos adultos caretas e covardes do prédio e precisava ser carregado pelos amigos antes que botasse um canudo no tanque de gasolina para seguir a bebedeira.

Seria a mesma pessoa?

“Já comprou sua arma?”

“Quem sabe na volta”, você diz.

“Cara, faz isso pela sua família. Não dá mais para confiar em ninguém nesse país”.

“Realmente não dá, não dá”, você responde, com a impressão de que àquela altura concordaria que a terra era plana como uma tábua de passar.

“Eu já estava de saída daqui. Estava impossível empreender nesse país. Agora as coisas começaram a melhorar. Vou te mostrar uma coisa!”

Quando ele coloca a mão no bolso, você se lembra de quando era uma criança e de tudo o que viveu até ali. Pensa também em correr para baixo da esteira do caixa e finge se recompor ao ver que a arma sacada era, na verdade, um celular.

O que leva alguém a querer mostrar a alguém que não vê há duas décadas todo o conteúdo recebido no grupo de WhastApp nas duas últimas semanas?

Você tenta desviar o olhar, mas não consegue: quando nota, está exposto a um depositário de vídeos curtos de justiçamento de todo tipo de “vagabundo”. 

Mas o que ele quer mostrar mesmo era como, longe dos tempos da corrupção, o Brasil finalmente assistia ao nascimento de estradas duradoras, sem desvios, em todas as unidades da federação. 

Pelo branco e preto das imagens, você pensa em alertar que talvez, só talvez, aquela corrente de zap seja na verdade um copia e cola da construção de Brasília, mas não dá tempo: logo ele muda de assunto e começa a dizer como as crianças de hoje em dia precisam aprender na marra a respeitar os mais velhos, mostrando como exemplo o que acontece nos EUA, e àquela altura você não tem forças nem para avisar que aquilo ali foi gravado em algum campo de trabalho forçado do Camboja no século 20.  

“Me passa aí seu número para te mandar uma parada”, diz o velho amigo, enquanto um espigão ao microfone anuncia uma promoção imperdível de oito panetones ao preço de sete e te salva pelo gongo.

“Vou lá. Essa não posso perder”.

Nessas horas é bom esquecer o que foi fazer no supermercado e seguir o único impulso possível: correr.

Derrotado e de mãos vazias, você entra no carro e já nem acha coincidência que na rádio o Renato Russo comece a berrar contra o medo do escuro. “Somos tão jooooooooovens”.

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Prepare o modelito: a baixaria seguirá na moda em 2020 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/01/02/prepare-o-modelito-a-baixaria-seguira-na-moda-em-2020/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/01/02/prepare-o-modelito-a-baixaria-seguira-na-moda-em-2020/#respond Thu, 02 Jan 2020 07:00:53 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=2187

iStock

Uma das missões mais ingratas de 2019 foi a de quem conseguiu montar uma retrospectiva minimamente decente sobre os eventos que marcaram o ano na seara política. Em 2019, essa seara borrou de vez as fronteiras com o noticiário policial e atravessou o rubicão dos programas de fofocas –aqueles que alimentam a audiência com golpes baixos de todo tipo. 

Para quem perdeu as contas, o jornal O Globo publicou, no penúltimo dia do ano, uma seleção com as principais tretas da estreia de Jair Bolsonaro como presidente. Nem todas foram protagonizadas por ele, mas, como não se cansam de avisar nossos avós, o exemplo quase sempre veio de cima.

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Teve tuitaço sobre golden shower no Carnaval. Teve dicas para os brasileiros colaborarem com a preservação ambiental fazendo cocô dia sim, dia não. Teve lembranças à mãe do eleitor que perguntou ao presidente onde estava Fabrício Queiroz, o encrencado ex-assessor parlamentar suspeito de liderar um esquema de rachadinha no gabinete do então deputado Flávio Bolsonaro, no Rio. 

Teve ministro chamando a mãe de uma eleitora de “égua sarnenta e desdentada” e outro trazendo a mãe e a avó de um deputado para a conversa após ser chamado de “tchutchuca”. (Reparem que nesses momentos de maturidade aflorada, sempre sobra para a mãe ou para a vó de alguém).

Teve áudio de deputado chamando o presidente de vagabundo e ameaçando implodir o ex-aliado

Teve troca de emojis entre Joice Hasselmann e os filhos do presidente, que revidaram chamando a deputada de Peppa Pig. Teve a mesma deputada chamando uma colega de “burra” e levantando suspeitas sobre seu passado.

Teve “denúncia” sobre uma suposta suruba gay que impediu que um herdeiro da coroa fosse hoje vice-presidente. 

E teve Alexandre Frota mandando colega sentar no seu colo ou perguntando a um dos filhos do presidente se ele gostava de ver seus filmes pornô. 

Não faltou trabalho para a Comissão de Ética da Câmara, que, segundo o levantamento de O Globo, instaurou 20 processos ao longo do ano, o maior número de ocorrências em toda a década. 

Meu espaço para este texto já está acabando e mal deu tempo de falar ainda das tretas que se espalharam como praga pelos estados. Na Assembleia Legislativa de São Paulo, por exemplo, um deputado chamou os colegas de vagabundos e por pouco não apanhou de um deles após perguntar se ele estava “ofendidinho”.

Na versão 20.20 da era Bolsonaro, a tendência é de mais tiros, porrada e bomba com os fios desencapados das indefinições sobre o espólio do PSL (bolsonaristas x bivaristas), o avanço das investigações sobre laranjas e chocolates, as eleições municipais, a contaminação de humores com uma disputa presidencial acirrada nos EUA, as muito prováveis novas defecções de ex-aliados não totalmente fiéis ao capitão, o avanço das discussões sobre prisão em segunda instância no Congresso e os ataques, físicos e simbólicos, a militantes e ambientalistas. 

Esse clima de hostilidade tem sido a marca de uma geração que aprendeu a se comunicar aos berros e que só ganha claque quando identifica um inimigo e o joga para os leões em estratégias de escracho, humilhação e exposição indevida. Quem mantiver a compostura, refutando maniqueísmos e observando profundidade em uma realidade um pouco mais cinza, será cuspido, como previa o Apocalipse: “porque és morno, e nem és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca”.

Como mostrou a antropóloga Isabel Kalil na mesma reportagem, o comportamento formal de quem se apega à liturgia do cargo tende a ser devorado por grupos cada vez mais agressivos que têm como objetivo ganhar a disputa viralizando nas redes sociais (um terreno, vale lembrar, em que ninguém vence pedindo licença ou por favor). É a chamada “política emocionada” que se guia por trending topics.

“Se um político não segue essa cartilha hoje em dia, ele acaba sendo considerado chato, não ganha atenção”, diz.

Não há o que fazer se não preparar o modelito: em ano eleitoral, a baixaria seguirá em alta ao longo da temporada. A mediocridade também.

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Gratidão, cancelar, mindset: 20 expressões para esquecer em 2020 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/12/29/gratidao-cancelar-mindset-20-expressoes-para-esquecer-em-2020/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/12/29/gratidao-cancelar-mindset-20-expressoes-para-esquecer-em-2020/#respond Sun, 29 Dec 2019 07:00:52 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=2169  

(iStock)

Perguntei no Facebook quais expressões superexploradas (não exatamente criadas) em 2019 os brasileiros gostariam de apagar do dicionário em 2020. O Brasil (na verdade, minha lista de amigos) respondeu. A lista, dessa vez, foi grande, mas selecionamos alguns verbetes. A eles:

Gratidão

Palavra mais citada da enquete. Aparentemente a bronca não é com as mãozinhas do emoji em si. Um amigo tentou explicar: “custa falar ‘grato’ ou ‘muito obrigado’? Daqui a pouco, quando alguém quiser falar que se sente sozinho, vai dizer ‘solidão’; emocionado, ‘emoção’, e por aí vai”. É como se a morte do verbo agradecer fosse também a morte do sujeito agradecido — e gratidão não tem sido exatamente o gesto da moda. 

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Resiliência

Pela definição, é a “propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica”. Em 2019, a deformação foi tanta que quem não se acomodou e ficou por lá agora se questiona o que mais precisa aprender da derrota até parar de doer.

Cancelar

A pena de morte ainda não foi instituída no Brasil, mas muita gente parece ter substituído o velho e bom “se liga, você está dando mancada” por um jogo de bloquear/deletar/esfolar de realidade ampliada. Caetano dizia que de perto ninguém é normal; em 2019, todo mundo de perto se tornou em algum momento (do presente ou do passado revelado) cancelável, a ponto de nosso círculo social se resumir nós mesmos e nossa regra moral. É o famoso jogo do resta um.

Tóxico

Expressão importante para alertar sobre condutas que indicam relações abusivas, mas que com o tempo se tornou uma muleta para todo tipo de conflito dos relacionamentos humanos ou profissionais: nem tudo o que não proporciona a felicidade máxima e a autoestima plena é sinal de que tem alguém querendo apenas a destruição do par ou funcionário. Muitas vezes uma DR resolve.

Top

Já devia ter saído de cartaz em 2010. Como permanece, não custa insistir.

Instagramável

Se os melhores momentos da sua vida só valem se couber numa foto de rede social, parabéns: sua vida não serviu para nada.

“Tá pago”

Dica: se você não registrar nas redes o esforço das horas da academia elas não vão se converter em tecido adiposo. 

Mindset

Que tal mudar o mindset e buscar nos manuais de motivação outra palavras menos batidas para expressar termos igualmente batidos tipo mudar a chave ou pensar fora da caixa?

“Simples assim”

Faça o teste: qualquer textão que precede o arremate “simples assim” tem um total de 0 criatividade e inteligência. Simples assim. 

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Drivar

Expressão que se tornou recorrentes nas bolhas corporativas. Um amigo explica: vem do inglês “to drive”, direcionar algo. “Aí os brazuca Faria Limers já usam em português: você tem que drivar (draivar) seu mindset a partir de tal coisa…” Não, né?

“Sobre ontem”

Legenda preguiçosa para qualquer flagrante. Do solstício na Islândia ao tufo de cabelo que entupiu a pia.

Amor define

Ou ódio. Ou ranço.

Ranço

Talvez a palavra mais compartilhada de 2019. Já dá para questionar o quanto o mau humor de fim de ano foi inflacionado pelo tanto de ranço espalhado nas redes sem tratamento digestivo adequado.

“Ninguém tem coragem de dizer mas eu tenho”

Ah vá.

Full pistola

Um absurdo usar esse neologismo com um pé no estrangeirismo quando a língua portuguesa tem uma expressão maravilhosa como “virado no Jiraya”.

Melhor/pior pessoa

Mentira. Você que é puxa-saco.

Furar a bolha

Quer furar a bolha? Compre um bilhete único.

“Vai ter textão sim”

Escreve aí, fera. Ninguém tá te segurando.

Hamburguer do futuro

Bom, essa eu deixo para a Paola Carosella

É pro meu TCC

Na primeira vez foi engraçado, depois cansou e agora não engana ninguém: todo mundo sabe que estamos só sem ideia para a coluna da semana.

Em tempo. Outras expressões citadas por amigos, mas que valem ser só repensadas para não serem banalizadas: gatilho (nem tudo é trauma, nem tudo pode evitar tristeza) e empatia. Não que a gente não precise de mais empatia, mas porque nem todo conflito pode ser evitado, e nem todo confronto significa desejo de eliminação. Às vezes, simplesmente, o santo não bate, e podemos viver respeitosamente sem forçar a barra longe um do outro.

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O que dizer quando os filhos se dão conta da finitude? http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/12/26/o-que-dizer-quando-os-filhos-se-dao-conta-da-finitude/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/12/26/o-que-dizer-quando-os-filhos-se-dao-conta-da-finitude/#respond Thu, 26 Dec 2019 07:00:38 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=1748 Cena de"Boyhood - Da infância à Juventude" / Reprodução

Cena de”Boyhood – Da infância à Juventude” / Reprodução

Minha mãe avisou, pelo WhatsApp, que iria viajar. Estava a caminho da cidade de minha avó, que naquele dia, em setembro, acordou com um dos braços paralisados. A lucidez e a ausência de dor não minimizavam a preocupação de quem se locomove com a ajuda de um andador. Sim, envelhecer é complexo. Ver alguém envelhecer, também.

A tensão em casa, a cerca de 300km da cidade onde ela vive com meu avô, dois filhos e dois netos, era acompanhada com os olhos e os ouvidos de meu filho, de seis anos.

-A bisa vai morrer?

Para uma criança não existe nada muito preocupante entre um ponto e outro do nascer e o deixar de existir; se estamos vivos estamos bem, não importa como.

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As notícias seguintes, pelo telefone e WhatsApp, ajudaram a amenizar o clima em casa. A vó estava bem, medicada e em observação em um hospital. As duas filhas chegariam dali a pouco, para colocar em prática a tarefa de organizar os afetos e tarefas corriqueiras, como localizar o pijama, que meu vô aparentemente não conseguia empreender.

O silêncio, na nossa casa, só foi quebrado quando meu filho percebeu que um dente permanente estava para nascer e deu um grito. Ele despontava sob a fileira de dente de leite, que ainda não cedera.

A briga do velho com o novo produzia nele uma série de questionamentos silenciosos que irromperam já no carro, a caminho da escola.

-Quando eu morrer e for para o céu, vai ser este dente que vai estar comigo?

Pelo retrovisor, troco olhares com a mãe. O que responder?

– Na verdade…er… não levamos muita coisa quando vamos para o céu. Nem sabemos direito se é para lá que vamos…

– O que vai pra lá, então?

No filme “21 gramas”, o mexicano Alejandro González Iñárritu entrelaça diversas histórias como referência à perda de peso dos corpos humanos no momento em que deixam a vida, segundo o estudo de um médico americano morto em 1920.

Aqueles 21 gramas seriam o peso da alma, mas não é exatamente uma tarefa simples explicar o conceito de alma para uma criança que ainda não sabe tomar sorvete sem encharcar a camiseta da escola.

Ensaio: “E é porque não temos respostas que passamos a vida angustiados ou escrevemos, assistimos filmes, ouvimos música…”

Naquele momento me imaginava em cima da carteira, cercado de jovens com olhares curiosos como os em torno do professor John Keating, personagem de Robin Williams em “Sociedade dos Poetas Mortos”: “pois não lemos e escrevemos poesia porque é bonitinho. Lemos e escrevemos poesia porque somos membros da raça humana e a raça humana está repleta de paixão. Poesia, beleza, romance, amor… é para isso que vivemos!”

-Então para onde vão os dentes?, ele pergunta, finalmente.

Na comunicação visual do retrovisor, ficamos de voltar ao assunto em breve, mais ou menos como quando discutimos que seria ok atender aos milhares, milhões de pedidos diários dele para trazer um porquinho-da-índia para casa.

Ele escolheu o bicho, ele deu o nome (Paul, de Paul McCartney), ele definiu como seria a casinha, onde ela ficaria, e é ele quem leva agora para o novo amigo a couve e um beijo de boa noite antes de dormir. Dias atrás, soltou um primeiro “eu te amo” para o roedor.

A dúvida, na hora de atender ao pedido, não era se o bicho daria muito trabalho, se haveria espaço suficiente, se ele deixaria cheiro pela casa, se haveria condições de levar a casinha nas inúmeras viagens até a cidade das avós.

Nosso medo era outro. Era a longevidade.

Um porquinho-da-índia vive em média cinco anos. Isso se tiver a sorte de não desaparecer pela casa, não comer nada proibido nem ninguém sentar em cima dele no sofá ou arrastar os móveis de forma desastrada.

Nosso filho fatalmente se apaixonaria, como se apaixonou, pelo bicho. Certamente seria sua companhia nas melhores horas do dia. Como lidaria com a perda quando chegasse “a” hora?

Em uma hipótese otimista, ele terá 11 anos quando precisar se despedir. Muito cedo para suportar o baque, não?

Sim, é, mas no fim concordamos: antes da perda, ele vai aprender a cuidar. A gostar. A cativar e ser cativado, como (não) sabemos desde “O Pequeno Príncipe”.

Confiar é fechar os olhos, e foi assim que corri para dentro, para não ver a cena final, quando ele colocou o bicho no peito e atravessou a rua, sozinho, para mostrar o novo amigo aos vizinhos — por um milagre ninguém tropeçou ou caiu quando o Paul passou de mão em mão entre gritos e empolgação incontidos da molecada.

Entre uma tarefa e outra, alguém em casa aprendia na marra o que é confiar, enquanto outro entendia o que é a finitude. Qual a outra opção? Viver numa bolha de afetos superprotegidos? Fugir de tudo o que amamos com medo de perder um dia?

Volto à ordem do dia. As notícias do hospital preocupavam, mas estávamos atentos e confiantes na retomada da força que desaparecera temporariamente do braço de minha avó, vítima de uma isquemia leve mas suficiente para provocar mudanças de hábitos e alertas de cuidado redobrado.

No Natal, quase recuperada, ela atravessou boa parte do estado ao lado do meu vô, que aos 82 anos dirigia com o nariz enterrado no volante para enxergar melhor, dar um abraço no bisneto, ouvir suas mil e uma histórias sobre estátuas (o assunto que ele mais gosta na vida, depois do porquinho-da-índia) e voltar para casa no dia seguinte, entrando no carro devagar, os gestos limitados, o olhar de quem observa nas crianças um pedaço do que um dia foi também sua infância.

Nada disso está claro quando ainda mastigamos com nossos dentes de leite. Depois disso, o que se impõe é uma força perene, invasiva, quase brutal.

Minha vontade é dizer, com o fatalismo de quem se finge indiferente, “bem-vindo à vida, meu filho. Enquanto estivermos todos aqui, essa vai ser sempre a melhor parte da viagem”.

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Tensão política de fim de ano leva ONG a lançar campanha #DespolarizeONatal http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/12/23/tensao-politica-de-fim-de-ano-leva-ong-a-lancar-campanha-despolarizeonatal/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/12/23/tensao-politica-de-fim-de-ano-leva-ong-a-lancar-campanha-despolarizeonatal/#respond Mon, 23 Dec 2019 07:00:14 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=2159

Cena do filme “Álbum de Família”

Não é só a uva passa que promete polarizar os ânimos no Natal.

Nem as velhas perguntas sobre os namoradinhos/namoradinhas, sobre os perrengues profissionais e os relatos sobre as aventuras dos primos que não irão à ceia porque estarão ocupados demais vencendo na vida no primeiro mundo ou em plantões sem direito a descanso na startup.

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Com o noticiário político fervendo, a sobrinha universitária já não sabe como encarar o tio que compartilhou e aplaudiu Jair Bolsonaro quando ele disse que o estudante brasileiro faz tudo na faculdade, menos estudar. 

A avó também não sabe como descrever o neto que tirou no amigo-secreto sem lembrar que foi chamada de “gado” no grupo do WhatsApp.

O primo “isentão” que receberá todos em casa também não decidiu como agradar veganos e carnívoros depois que foi acusado de fazer vistas grossas e não espernear o suficiente contra as queimadas na Amazônia ou a corrupção dos governos anteriores.

Enfim: jantar de fim de ano é sinônimo de treta desde (pelo menos) a eleição de 1989. A diferença é que na época ninguém sacava o celular entre uma garfada e outra para provocar quem está quieto com memes e correntes de design duvidoso e procedência desconhecida.

A situação ficou tão séria que levou uma ONG a lançar a campanha #DespolarizeONatal. Parte do projeto Despolarize, a iniciativa conta com um “Guia Prático para Conversas Difíceis”. 

A ideia é, às vésperas das festas de fim de ano, subsidiar, com material para compartilhamento nas redes sociais e WhatsApp e arquivos para download, conversas bem-informadas baseadas em “conhecimentos sobre ciência comportamental, negociação e comunicação não violenta”.

O projeto é uma iniciativa da ONG Politize, que atua no campo da educação política e contou com mobilização e formação de “Embaixadores do Diálogo”.

Segundo Rafael Poço, idealizador do projeto, a ideia é ajudar os embaixadores a fugir da polarização com argumentos e disposição a ouvir posições divergentes. 

Um dos assuntos espinhosos que pode azedar os ânimos, por exemplo, é o debate sobre prisão em segunda instância. “Com o Natal chegando, é bem provável que esse assunto apareça nas reuniões em família”, alerta a organização, em sua página no Facebook. 

Com um emoji com sorriso e piscadinha, o grupo propõe uma conversa sobre o tema por meio de sete cards disponíveis em sua página, com informações sobre “o que são instâncias”, se “todos os condenados serão soltos”, argumentos contra e a favor da prisão após condenação em segunda instância e questionamentos sobre o que levou o parente a pensar assim, quais pontos da opinião são problemáticos e o que é mais difícil entender na posição de quem pensa diferente.

É uma forma elegante de evitar outro fim, que não o estômago, para o pavê servido diante de quem jura ter visto gente como o casal Nardoni e o médico Roger Abdelmassih andando livres, leves e soltos por aí enquanto o STF livrava a barra do ex-presidente Lula.

Entre as dicas do documento está exercícios como: “Antes de propor uma conversa reflita sobre suas próprias expectativas. Convide de forma sincera e estimulante, para não intimidar nem parecer provocativo. Se a pessoa recusar lembre-se: não é não”

Há também orientações sobre cuidados para não desqualificar o interlocutor e a atenção sobre o tempo de fala. “Que tal até 3 minutos para cada fala? É mais fácil ouvir com atenção quando sabemos que não vai durar para sempre. Só interrompa a outra pessoa se for para verificar o entendimento”.

O objetivo do guia, segundo a ONG, não é buscar a neutralidade, mas entendimento — o que não significa exatamente encontrar concordância. “Desenvolver novas habilidades é como ganhar músculos. É preciso treino e pode ser desconfortável no começo”, ensina a cartilha.

Bom Natal e boa sorte.

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