Matheus Pichonelli http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal. Mon, 14 Oct 2019 07:00:04 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Bolsonaro, o presidente que não tem amigos http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/10/14/bolsonaro-o-presidente-que-nao-tem-amigos/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/10/14/bolsonaro-o-presidente-que-nao-tem-amigos/#respond Mon, 14 Oct 2019 07:00:04 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=1879

Jair Bolsonaro e o presidente do PSL, Luciano Bivar
Imagem: Divulgação/PSL

Jair Bolsonaro é um presidente sem amigos.

Não tem semana que não ficamos sabendo de algum aliado enxotado pela porta dos fundos da lista de considerados do capitão.

O último foi Luciano Bivar, presidente de seu partido, o PSL. Não sei vocês, mas me corta o coração ver dois amigos de longa data (18 meses), com um memorial de fotos sorridentes e apertos de mãos sinceros e desinteressados, brigarem por picuinhas como o comando de diretórios de uma legenda que engordou a bancada, está envolvida em suspeitas de candidaturas-laranja e tem estimados R$ 500 milhões a receber nos próximos anos do fundo eleitoral.

Não sei vocês, mas já vi colegas de trabalho se estapearem e voltarem às pazes por menos. (No campo profissional, qualquer amizade é eterna enquanto dure um plantão ou o churrasco de fim de ano).

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Pois outro dia mesmo foi o antigo presidente da mesma legenda, Gustavo Bebianno –que coordenou toda a campanha vitoriosa do capitão–, quem se afastou do presidente que ajudou a eleger. Ao ser demitido, disse que o ex-amigo “se mostrou muito arrogante”. “Na campanha e na pré-campanha, ele sempre foi bastante humilde. Eleito, ele revela um ar autoritário e agressivo desnecessariamente.”

Quem, tendo acompanhado os 30 anos de vida pública de um fã do torturador Brilhante Ustra, poderia imaginar coisa parecida?

Outro que assinou um divórcio litigioso com Bolsonaro foi o general da reserva Carlos Alberto dos Santos Cruz, demitido com menos de seis meses de governo após entrar em atrito com os príncipes, digo, os filhos do presidente. Na saída, ele classificou a administração como “um show de besteiras”. “Todo dia tem uma bobagem ou outra para distrair a população”, lamentou.

Uma amizade que também durou menos que uma tatuagem de henna foi a com Alexandre Frota, deputado expulso do PSL que migrou para o PSDB e agora faz as vezes de conselheiro amoroso dos filhos do capitão. A um deles o ex-ator, uma espécie de Forrest Gump versão dublada, sugeriu assistir a um filme seu para relaxar se masturbando.  

Por discordarem do capitão, Bivar, Bebianno, Santa Cruz, Frota e companhia foram mandados para o mesmo gulag afetivo onde já moravam o papa Francisco, a Madonna, o Chico Buarque, o presidente da OAB, Roger Waters, a ex-presidente do Chile, a ONU, a Alemanha, a Noruega (e a Dinamarca, por tabela), a Globo, a Folha de S.Paulo, a revista The Economist, o New York Times, toda a esquerda, os nem tão esquerda assim, mas que são automaticamente pintados de vermelho-inimigo por se negarem a rezar a cartilha de Olavo de Carvalho, o que inclui tucanos, peemedebistas, democratas e até o Lobão.

Se ganhasse um real para cada ex-amigo decepcionado, Bolsonaro não precisaria brigar por fundo partidário algum, e o déficit zero prometido por Paulo Guedes não pareceria tão distante assim.

Na ausência de uma diretoria que contorne conflitos após a turma do fundão tomar o poder, não há outra solução para a verve bolsonarista, se quiser chegar a 2022 sem novos desfalques, do que apelar a uma terapia radical: se trancar no quarto do castigo e escrever na lousa, quantas vezes forem necessárias, uma antiga música do Oswaldo Montenegro que dizia:

“Faça uma lista de grandes amigos

Quem você mais via há dez anos atrás

Quantos você ainda vê todo dia

Quantos você já não encontra mais?”

Não vale citar parentes nem amigos imaginários, desses que prometem levar seu nome para a OCDE e depois desconversam. Nem auxiliares que ouvem em silêncio todo tipo de constrangimento, como serem chamados de chucros ou de ingênuos ou terem o trabalho a todo instante interrompido com a ordem “quem manda sou eu”.

O nome disso não é amigo. É súdito.

Bolsonaro, em menos de dez meses de governo, já mostrou que não quer amizade. Quer vassalagem.

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“Silenciar” motorista do Uber mostra incapacidade de aturar o mundo real http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/10/10/silenciar-motorista-do-uber-mostra-incapacidade-de-aturar-o-mundo-real/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/10/10/silenciar-motorista-do-uber-mostra-incapacidade-de-aturar-o-mundo-real/#respond Thu, 10 Oct 2019 07:00:47 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=1866

iStock

O Uber acaba de anunciar que, a partir de novembro, todos vamos poder silenciar nossos motoristas por aplicativo. Para isso, é só apertar a opção de viajar no “modo silencioso” e pagar uma taxa a mais pelo serviço. A alternativa é parte de um novo plano oferecido pela empresa, chamado “Comfort”.

O nome é sugestivo, além de adequado. Não tem nada mais desconfortável do que engatar uma conversa sob risco de se perder –não dos caminhos, estes certificados pelo GPS, mas pelas ideias, que podem entrar em choque e colocar em risco certezas inabaláveis sobre política, segurança ou deslocamentos.

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O anúncio da nova opção, que nos livra do constrangimento de quebrar nosso silêncio ensimesmado e pedir silêncio pessoalmente, me lembrou de que, na era pré-Uber, era comum ouvir amigos jornalistas se queixarem dos taxistas quando se deslocavam para alguma pauta.

O desconforto era resultado de uma experiência de falsa subtração: acostumada a viver nos minaretes de redações onde era decidido o que era importante para os cidadãos mais acostumados a andarem nas ruas, muita gente lidava mal com o contato efêmero com o Brasil real, representado por alguém com outras inserções e exposições nos espaços urbanos sobre os quais costumávamos escrever olhando de cima. 

As queixas atravessavam orientações políticas e resvalavam, muitas vezes, nos gostos musicais impudicos de quem sintonizava na rádio errada para nos lembrar de que, fora das bolhas, ninguém se importava com nossas bandas indies favoritas –o que era o mesmo que dizer que o que fazíamos não tinha tanta importância assim.

A incapacidade de “aturar” um trabalhador no deslocamento entre a redação e a pauta era, em si, um nó na capacidade dos comunicadores se comunicarem. 

Afinal, quem se importa com histórias de desconhecidos? (Em minha última viagem via aplicativo, conheci provavelmente o maior especialista na discografia solo do John Lennon com quem já tive contato –mas só porque não ti00ha dinheiro para silenciar qualquer conhecimento além do meu).

“Você me ouve?”

A opção “silenciar” dos apps tornou real o desejo daquele personagem do filme “Pequena Miss Sunshine” que fez voto de silêncio para evitar conflitos ou admitir, em palavras, que os sonhos de todo mundo naquela kombi estavam em ruínas (o pai não seria best-seller motivacional, a irmã não seria miss América, o tio especialista em “Em Busca do Tempo Perdido” não sabia lidar com a perda, a mãe não dava conta de gerenciar todas as neuroses em uma mesma casa, etc).

Os atores Debora Duboc e Leonardo Medeiros em cena do filme “Onde quer que você esteja” (Foto: Gilda Nomacce)

Dias atrás, escrevi por aqui sobre como nossa dependência de aparelhos eletrônicos dizia menos sobre nossa solidão do que sobre nosso tédio com o mundo real. Assumia que preferia ver memes a engatar qualquer conversa offline com parentes e conhecidos. Em tom de brincadeira, era meu atestado também de incompetência para conviver no mundo onde não temos (em tese) a opção “bloqueio” ou “silenciar”.

Essa dificuldade de adaptação revela, sobretudo, uma dificuldade de comunicação. 

Deve ser por isso que saí tão tocado da sessão de “Onde Quer que Você Esteja”, filme de Bel Bechara e Sandro Serpa que estreou no último dia 3. 

O longa acompanha a rotina de pessoas que tentam encontrar amigos e familiares desaparecidos com a ajuda de um programa de rádio chamado “Cidade Aberta” –uma homenagem, aparentemente, ao policialesco “Cidade Alerta”.

Esperava encontrar uma história sobre sequestros de crianças desaparecidas, mas não. Com exceção de um dos casos, todos ali procuram pessoas que optaram por sair de casa. 

Entre o desejo de reencontrar e a vontade de desaparecer, os personagens mostram os ruídos e a dessintonia de frequências daquela cidade. 

Em uma das cenas, uma jovem que foge de casa joga no lixo, com toda a força, um aparelho celular e recorre ao orelhão para seguir viagem antes de sumir de vez. Era como se dissesse: o desencontro é digital, mas o encontro (ainda) é analógico. É ali que não sabemos caminhar.

Nas casas e nas salas de espera, como em um consultório onde todos aguardam sua vez para enviar a mensagem por uma rádio que ninguém (ninguém mesmo?) parece escutar, os signos de como nossas ferramentas de comunicação enferrujaram chegam a gritar.

As mensagens são escritas em pedaços de papel. A velha máquina de escrever ainda está em cena. O rádio com entrada para toca-fitas também.

É com essas ferramentas que os personagens insistem em um contato improvável, enquanto novos encontros acontecem, novos embates, novos conflitos e novos riscos de perda se oferecem, como se ecoassem uma música do Caetano Veloso observando “essas novas pessoas que nós engendramos em nós, e de nós”. (Os nós, aqui, têm duplo sentido).

A diferença é que, entre ondas de alta ou baixa frequência, todos de alguma forma compartilham o desejo de também sumir. 

“Será que você está escutando a gente?”, pergunta o apresentador a cada grito de socorro.

Não, não estamos. 

A opção “silenciar” é sempre a mais confortável.

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Quantos criminosos vivem no seu condomínio? http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/10/07/quantos-criminosos-vivem-no-seu-condominio/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/10/07/quantos-criminosos-vivem-no-seu-condominio/#respond Mon, 07 Oct 2019 07:00:08 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=1855  

 

A mulher de um ex-PM acusado de matar Marielle Franco, em março 2018, foi presa na semana passada enquanto dormia no quarto com um de seus filhos, em um condomínio de luxo da Barra da Tijuca, no Rio. 

Ela é suspeita de ajudar os comparsas do marido a esconder o armamento usado no crime que vitimou a vereadora do PSOL e seu motorista, Anderson Gomes.

O suposto executor vivia no mesmo condomínio do presidente Jair Bolsonaro, no Rio. Ele foi detido no ano passado após ser acusado de traficar armas com um amigo que mantinha em sua casa um arsenal com 117 fuzis.

Em setembro deste ano, a polícia do Rio prendeu o suposto chefe de uma milícia que controlava três comunidades no Recreio dos Bandeirantes. Suspeito de roubo qualificado, extorsão com emprego de arma de fogo, formação de quadrilha, porte de arma e tortura, ele não morava perto do “trabalho”, mas em um outro condomínio da Barra. 

No mesmo mês, um traficante internacional procurado pela Interpol foi localizado em um condomínio (de luxo, claro) em Angra dos Reis (RJ). 

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Enquanto escrevo este texto, supostamente protegido em uma casa vigiada do interior paulista, lembro que o morador de um condomínio na frente do meu ponto de ônibus entrou armado em uma catedral de Campinas, no fim do ano passado, e matou cinco pessoas. Será que algum cidadão de bem desconfiava que o perigo morava ao lado? Ou estávamos ocupados demais em nos proteger dos vizinhos sem-terra que acampavam e eram atropelados perto dali?  

(Tempos atrás, uma ação policial desbaratou uma quadrilha que alugou uma das casas de um condomínio onde morei para produzir CDs e DVDs piratas).

Lembro ainda das inúmeras operações policiais cinematográficas contra crimes do colarinho branco em casas construídas entre muros, cercas eletrificadas, sistemas de monitoramento e vigilância e concluo que a ilusão de segurança é o maior ativo da indústria do medo.

Essa ilusão transformou condomínios em bunkers e periferias em praça de guerra.

Nesta guerra, só uns estão protegidos em sua ideia particular de segurança privatizada, em espaços onde o poder público, com exceção de ações pontuais, com mandados, não pode circular. Vale para o policial, vale para as equipes de vigilância sanitária que precisam negociar com os chefes da segurança blindados a entrada no local para combater focos de transmissão de doenças como a dengue.

Pois uma coisa é proteção individual de quem pode pagar por isso. Outra é a proteção de um conjunto de umbigos chamado sociedade.

Em “Mal-estar, sofrimento e sintoma” (Boitempo), um dos livros fundamentais para compreender o nó civilizatório em que cá estamos, o psicanalista, professor titular da USP e colunista do UOL Christian Dunker mostra como a “condominalização” da vida parte de um falso pressuposto: o de que o mal está sempre do lado de lá do nosso muro. Essa lógica transformou o país em um conjunto de ilhas cercadas com grades (e eletrificações) por todos os lados. 

Para o autor, a proliferação dos condomínios, onde moramos, trabalhamos ou fazemos compras, nos impede de criar uma cultura que torne a diferença um valor. Pelo contrário: a diferença é vista como perigo, ameaça e risco -inclusive da nossa identidade. 

A consequência é a criação de uma mentalidade paranoica dentro e fora dali (a certa altura do livro, ele descreve as pequenas concorrências entre vizinhos que competem para saber quem tem o carro melhor ou a grama mais verde).

A mentalidade paranoica não é conversa de quem dorme com o inimigo e não sabe. Se nesses espaços as autoridades pedem licença para entrar, nos espaços públicos quem deveria oferecer proteção está livre para atirar e revirar hospitais onde a bala se alojou em corpos inocentes– quase todos negros.

Nesse país até a sabedoria pichada em muros sabe que “não escorre sangue nobre porque a bala perdida só encontra o pobre”. Dependendo de onde se vive, o alvo é sempre certo.

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Ensaio de fotos com celulares removidos flagra nossa solidão ou só o tédio? http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/10/03/ensaio-de-fotos-com-celulares-removidos-flagra-nossa-solidao-ou-so-o-tedio/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/10/03/ensaio-de-fotos-com-celulares-removidos-flagra-nossa-solidao-ou-so-o-tedio/#respond Thu, 03 Oct 2019 07:00:34 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=1847 Pinga há semanas na minha , na sua, na nossa timeline e na de meio mundo o ensaio “Removed”, do fotógrafo americano Eric Pickersgill. Ele criou uma série de imagens com pessoas em situações cotidianas como se estivessem segurando seus celulares, mas com as mãos vazias, numa desconexão flagrante entre indivíduos do mundo atual.

Está lá o casal que não se fala porque, tecnicamente, os “conjes” estão ocupados demais olhando a palma da mão. O turista que olha para os dedos e não para a paisagem. As amigas em roda e em silêncio ensimesmado. O motorista que não presta atenção pra onde vai.

 

Sabe o que as fotos demonstram? Que estamos cada vez mais sozinhos e com o raio de observação limitado a uma tela de no máximo seis polegadas, certo? Pode ser. Prefiro acreditar que as fotos mostram como o mundo real, off-line e acinzentado, não consegue competir com os memes. (Mostram também que é preciso tomar cuidado com distrações para evitar acidentes, mas essa é outra história).

É quase unânime, em qualquer roda de boteco, o papo de que os smartphones e outras tecnologias inexistentes há pouco mais de uma década são os responsáveis pela solidão do mundo contemporâneo. Quando ouço isso na roda, corro para o celular na esperança de que lá no trópico da timeline a vida esteja a mil.

O celular, como qualquer tecnologia, não é culpado pelos nossos excessos, transtornos ou ansiedades, como me explicou recentemente a psicóloga e professora da UFRJ Anna Lucia Spear King.

A fuga para o celular pode esconder outro sintoma: o de que alguma coisa na relação entre indivíduos reais não vai bem.

Há até pouco tempo, ninguém poderia atravessar paredes, sumir na neblina ou ser pinçado com uma corda em um helicóptero quando a tia perguntava “E OS/AS NAMORADINHOS/AS?”, o vizinho sondava quanto você pagava de aluguel, os antigos colegas de escola atualizavam a lista de separações entre conhecidos ou indagavam quanto estávamos faturando por mês e/ou resolviam contar as epopeias de suas vidas amorosas, sociais, financeiras, etc. 

Nada disso deixou de ser assunto nos encontros fortuitos ou organizados por WhatsApp. A diferença é que agora, quando alguém começa a observar a proporção entre cabelos brancos, ralos e resilientes em nossas cabeças numa roda de conversa, podemos pedir licença, um minuto, para conferir uma coisinha (no celular) e não voltar mais. É a tecnologia nos possibilitando atravessar paredes ou sumir na neblina.

O que para alguns é sintoma de solidão, para outros pode ser um refúgio. Tempos atrás, perguntei por aqui qual de nossos personagens era realmente real: o que cala na vida privada ou o que late na rede social? Provavelmente os dois são personagens condicionados a um determinado papel. Mas é difícil escapar da conclusão de que a vida online é mais interessante, e não só por causa dos filtros do Instagram.

Pelo contrário: pelo celular, podemos nos conectar a qualquer hora com outros desajustados e/ou desadaptados das etiquetas sociais em grupos de afinidades animados com figurinhas ou no Twitter, onde podemos confessar em voz alta e rir um pouco das nossas frustrações, nossos limites, dos nossos tédios e das nossas trombadas no poste enquanto caminhamos.

Assim, quando a reunião na firma se estende, e tudo o que seres humanos conseguem falar é sobre metas, índices e planilhas, já não é para a praia que sonhamos em correr para aliviar os dias sob o ar-condicionado. Com uma espiadela debaixo da mesa, transportamos corações e mentes para a orgia dos memes, provavelmente a última grande invenção da humanidade –até porque, pelo tempo que passamos produzindo ou consumindo memes, pouco sobrará para alguém construir os esperados carros do voadores ou escrever nosso próximo “Guerra e Paz”.

Vamos combinar que não é fácil, para a realidade dos números, jobs e contas a pagar, competir com o nonsense de quem, no auge do choque ao saber que um procurador-geral queria matar um ministro do Supremo, resolveu reproduzir uma foto de Rodrigo Janot de óculos escuros atrás de um engradado de cervejas confidenciando a um amigo: “EU VO MATA O GILMAR MENES (sic)” . Ou quando um gênio da arte contemporânea cria um Dollynho reflexivo. É o alívio cômico de uma realidade que antes revela do que compete com nosso nonsense.

(As páginas de reunião de memes, aliás, deveriam vir com a inscrição: “Memes melhores que você”. Ou “nós”).

Enquanto pessoas entediadas seguirem reproduzindo assuntos entediantes em rodas de conversas entediadas, o meme seguirá exercendo o monopólio da nossa economia de atenção. Por que isso seria ruim?

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Janot x Mendes: quando as armas viraram nossa maior instituição? http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/09/30/janot-x-mendes-quando-as-armas-viraram-nossa-maior-instituicao/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/09/30/janot-x-mendes-quando-as-armas-viraram-nossa-maior-instituicao/#respond Mon, 30 Sep 2019 07:00:41 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=1838

Cena do filme “Bacurau”

O ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot revelou na última semana que, tempos atrás, revoltado com algumas ilações feitas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes contra sua filha, decidiu entrar armado no STF para matar o ofensor. Ficou a dois metros dele com o dedo no gatilho, mas desistiu após receber um “sinal”.

Não tem nada mais sintomático em um país onde quase 60 mil pessoas morreram em 2017, ano em que o chefe do Ministério Público por pouco não colocou o plano de assassinato em ação.

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A revelação, como não poderia deixar de ser, repercutiu como uma bomba no noticiário político-policial. Afinal, se o procurador-geral da República não acredita na mediação da instituição da qual é uma das autoridades máximas, quem é que vai acreditar? O tiozinho perdido na vida e embriagado no bar do beco?

A comoção diante da história é compreensível, mas não deveria causar surpresa em um país onde um candidato a presidente é eleito fazendo arminha com a mão.

O revólver é, hoje, a maior instituição nacional.

É com ele que o futuro embaixador dos EUA desfila quando participa de programas no SBT ou visita o pai em um hospital.

Foi a ele, e não à lei, que o procurador-geral pensou em recorrer para acertar os ponteiros com um desafeto em busca de justiça.

É com ele que boa parte da população sonha em se proteger de uma violência cuja natureza ela mesma desconhece.

Em artigo recente publicado na revista Época, o ex-investigador da polícia e especialista em segurança pública Guaracy Mingardi mostrou, com base em dados de 2017, ano em que Janot por pouco não ampliou as estatísticas, que o chamado cidadão comum no Brasil tem 20 vezes mais chance de ser assassinado por alguém de suas relações do que por um ladrão durante um roubo.

Minoria nas esferas de poder, as mulheres são vítimas preferenciais desse patrimônio à queima-roupa. De acordo com o Dossiê Mulher, elaborado pelo Instituto de Segurança Pública do Rio, 75% das tentativas de feminicídio e 57% das mortes são cometidas por companheiros ou ex-companheiros das vítimas. Quase metade dos homicídios (47,2%) ocorreu com armas de fogo, e 9,7% com as chamadas armas brancas (facas, facões, etc).

Nas cabeças dos salvadores da nação, basta aumentar a dose do veneno com nome de remédio para curar o doente.

Neste nó entre barbárie e civilização reside o imaginário da construção da masculinidade.

Uma busca no Google pelas palavras “filmes” e “honra” basta para saber como a violência armada é alimentada diariamente com o signo da bravura e do destemor desde os tempos do faroeste, um gênero que romantizou o massacre ameríndio e alimenta até hoje o delírio dos jovens caubóis de asfalto. Nossos heróis desde a infância são personagens atormentados, violentos e acima da lei.

No Brasil atual, onde uma vereadora é metralhada em via pública sem que, um ano e meio depois, ninguém saiba por que nem a mando de quem, é bom desconfiar quando embola a voz para dizer que as instituições estão funcionando.

A morte por um fio, a dois metros de um procurador armado, de um juiz do Supremo é exemplo mais bem acabado de que entre a civilização e a barbárie está apenas um gatilho emperrado.

Isso dá a dimensão da fragilidade de um sistema jurídico que contrapõe toneladas de boas intenções com poucas gramas de exemplo.

No filme “Bacurau”, a seita supremacista que pousa no sertão para um safári humano fala das armas como se fossem pessoas e de pessoas como se fossem objetos. É o primeiro passo para o extermínio.

No mundo real, os marmanjos iludidos da própria virilidade, que passam a vida erotizando as armas e seus calibres, são os mesmos que precisam recorrer a fake news para atacar uma jovem ativista ambiental de 16 anos que ousou dizer em público que nosso modo de vida, predatório e expansivo, nos levará ao colapso.

São os mesmos que levam 72 horas para se pronunciar sobre a morte de mais uma criança em meio ao tiroteio estimulado pelos senhores da guerra que prometem combater o crime atirando na cabecinha.

Inteligência? Prevenção? Equilíbrio?

Que nada.

A regra entre marmanjos é uma só. Quanto maior o calibre, maior a covardia.

O alvo somos nós.

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Sórdida? Fernanda Montenegro e a caça às bruxas no Brasil http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/09/26/sordida-fernanda-montenegro-e-a-caca-as-bruxas-no-brasil/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/09/26/sordida-fernanda-montenegro-e-a-caca-as-bruxas-no-brasil/#respond Thu, 26 Sep 2019 07:00:48 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=1824

A atriz Fernanda Montenegro vestida de bruxa e cercada por uma fogueira de livros na capa da revista Quatro Cinco Um (Foto: Mariana Maltoni)

Anne Hathaway acaba de ser anunciada como a atriz principal do remake do clássico “Convenção das Bruxas”. Será, conforme a sinopse, “a maior bruxa do mundo”.

É bom não pisar no Brasil, onde recentemente a ministra da Família, Damares Alves, “denunciou” a distribuição de um manual prático de bruxaria para crianças de seis anos –que, inclusive, ensina os aprendizes de Harry Potter a fazer suas próprias vassouras em sala de aula.

Por aqui, a caça às bruxas há tempos ganhou sentido literal. A ponto de a maior atriz do país, Fernanda Montenegro, ser desancada pelo diretor do Centro de Artes Cênicas da Funarte, o dramaturgo Roberto Alvim, após ser retratada como uma bruxa sendo queimada em uma fogueira de livros na capa da revista literária Quatro Cinco Um.

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Apoiador de primeira hora de Jair Bolsonaro, Alvim chamou a imagem de “sórdida” e disse que ela “mostra muito bem a canalhice abissal destas pessoas, assim como demonstra a separação entre eles e o povo brasileiro”.

É assim que se trata um dos maiores patrimônios culturais do país, que acaba de lançar um livro de memórias e tem papel fundamental no filme indicado pelo Brasil ao Oscar de melhor filme estrangeiro do ano que vem? Por aqui, é.

O episódio mostra como chega em boa hora às livrarias brasileiras o livro “Mulheres e Caça às Bruxas”, uma coletânea de artigos da historiadora ítalo-americana Silvia Federici.

A obra apresenta as raízes históricas da caça às bruxas e relaciona as versões contemporâneas do fenômeno ao crescente cerceamento do corpo feminino em questões como sexualidade e capacidade reprodutiva.

Em um dos capítulos, a autora questiona o que explica, ao longo de três séculos, o fato de milhares de mulheres terem se tornaram a personificação do mal absoluto, inclusive em representações artísticas.

Uma resposta inicial, segundo ela, está no processo de deslocamentos ao fim da Idade Média, com a desintegração das formas comunais de agricultura que predominavam na Europa feudal –e que levaram ao empobrecimento das populações rurais e urbanas que se tornaram vítimas da ascensão da economia monetária e da expropriação de terras do novo modelo de produção.

Nessa época, escreve Federici, as mulheres tiveram maior probabilidade de ser vitimizadas porque foram as mais “destituídas de poder” por essas mudanças, em especial as mais velhas, que se rebelavam contra a pauperização e a exclusão.

Quem assina o prefácio é a escritora e ativista Bianca Santana, que conta como a história da emergência da modernidade na Europa enalteceu a superação do feudalismo e omitiu como a vida e a organização social das mulheres da época eram marcadas pela importância da comunidade, da partilha de recursos, das tarefas no plantio e dividindo o poder com os homens. Eram chamadas de bruxas, segundo ela, as mulheres que resistiam “de diversas formas ao confinamento e à subordinação exigidos pela nova ordem”.

Segundo Federici, as mulheres foram acusadas de bruxaria porque a reestruturação da Europa rural no início do capitalismo destruiu seus meios de sobrevivência.

Outra explicação, segundo a autora, é que o modo de produção que postula a “indústria” como principal fonte de acumulação levou a uma batalha contra qualquer coisa que impusesse limite à plena exploração da mão de obra braçal, a começar pela rede de relações que ligava os indivíduos ao mundo natural, a outras pessoas e ao próprio corpo.

“O elemento-chave desse processo foi a destruição da concepção mágica de corpo vigente na Idade Média. Essa concepção atribuía ao corpo poderes que a classe capitalista não conseguia explicar, que eram incompatíveis com a transformação dos trabalhadores e das trabalhadoras em máquinas de trabalho e que podiam até intensificar a resistência das pessoas a esse processo. Eram poderes xamânicos que as sociedades agrícolas pré-capitalistas atribuíam a todos, ou a indivíduos específicos, e que, na Europa, sobreviveram apesar de séculos de cristianização –muitas vezes, inclusive, sendo assimilados aos rituais e às crenças do cristianismo. É nesse contexto que o ataque às mulheres como ‘bruxas’ deve ser situado”, escreve.

Ao se deixar ser retratada como “bruxa”, Fernanda Montenegro se tornou o alvo perfeito para a nova inquisição abrigada no governo Bolsonaro. Uma inquisição que vê em qualquer forma de resistência a um papel de submissão a encarnação de todo mal – logo, prestes a ir à fogueira, ao menos aqui simbólica, como ela mesmo previu e acertou.

A obra chegou às livrarias em setembro. Um seminário com o tema “Democracia em Colapso?” e a participação da autora está previsto para acontecer no dia 15 de outubro, no Sesc Pinheiros.

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O que Felipe Neto e o premiê do Canadá têm em comum? Eles melhoraram http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/09/23/o-que-felipe-neto-e-o-premie-do-canada-tem-em-comum-eles-melhoraram/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/09/23/o-que-felipe-neto-e-o-premie-do-canada-tem-em-comum-eles-melhoraram/#respond Mon, 23 Sep 2019 07:00:21 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=1812  

Justin Trudeau, o desconstruído primeiro-ministro do Canadá, não era nenhum moleque quando escureceu a pele com maquiagem em uma festa na escola onde dava aulas em Vancouver, em 2001. Tinha 29 anos.

A imagem do “blackface”, um dos três episódios similares envolvendo o premiê canadense, foi chamada de “lamentável” e “insultante” por líderes de imigrantes muçulmanos do país. Um deles chegou a colocar em dúvida se Trudeau era, no ambiente privado, a mesma pessoa que se apresenta em público.

A dúvida é pertinente. O “blackface” remete aos tempos em que atores se pintavam com o carvão de cortiça para representar pessoas negras de forma exagerada, estereotipada e, claro, preconceituosa.

Não combina com a postura de quem foi eleito, em 2015, com bandeiras progressistas e um discurso sofisticado sobre justiça social, diversidade e inclusão.

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Quando assumiu, Trudeau nomeou um gabinete igualitário, com paridade entre homens e mulheres, uma das prioridades de sua gestão.

“Por que isso é importante?”, questionou uma jornalista durante a posse. “Porque estamos em 2015”, justificou.

A cena ganhou o mundo e Trudeau logo ficou conhecido como uma espécie de anti-Trump, que seria eleito um ano depois com um discurso abertamente anti-imigração e anti-minorias. O jeito desbocado e ofensivo do presidente americano apontava que não estávamos tão no século 21 assim.

Às vésperas das novas eleições no Canadá, e não tendo conseguido cumprir boa parte das promessas, como reduzir sensivelmente as emissões de gases de efeito estufa do país, o episódio do “blackface”, ocorrido há quase 20 anos, tem potencial devastador para a reeleição de Trudeau.

Aos 47, ele precisou ir a público dizer que deveria ter conhecimento, já naquela época, de que se tratava de uma prática racista, mas que não sabia e, por isso, pediu desculpas.

Em uma coletiva, disse ter crescido como filho branco e privilegiado e que não teve a sensibilidade para perceber que seu comportamento era inaceitável.

O caso Felipe Neto

Embora não tenha o peso de um político eleito, e sim um status considerável de figura pública e formador de opinião, o youtuber Felipe Neto esbarrou recentemente em um embaraço parecido. Como o premiê canadense, seu passado o condenava –no caso, inúmeros vídeos em que, como ele mesmo admite, repetia clichês homofóbicos, machistas, transfóbicos e elitistas.

Os vídeos em que desfilava preconceito foram resgatados para contestar o título de militante das causas nobres recentemente assumido pelo youtuber, que tem se posicionado contra o governo Bolsonaro e se rebelou contra a decisão do prefeito do Rio, Marcelo Crivella, de recolher da Bienal do Rio uma HQ com dois homens se beijando. Como resposta, ele distribuiu milhares de exemplares de livros com temática LGBT no local.

Em entrevista ao UOL, ele disse que começou a ter muitas visualizações muito jovem e que seu “processo de amadurecimento foi inteiramente exposto, o que faz com que pessoas sem caráter peguem vídeos de 10 anos atrás e tentem exibir como se mostrassem minha opinião de hoje”.

Tanto num caso como no outro, ninguém é obrigado a dar biscoito a quem tomou a decisão correta. Era o mínimo: vir a público e pedir desculpa pelo erro.

Há quem veja oportunismo na nova versão de quem se arrepende de um passado constrangedor, sem levar em conta que, sim, as pessoas mudam (para melhor ou para pior) e que, ao menos no Brasil de 2019, ficar do lado das minorias não é exatamente uma escolha popular. O youtuber, inclusive, passou a ser ameaçado e teve de orientar a mãe a sair do país.

Um clichê antigo diz que a primeira impressão é sempre a que fica (a minha dos irmãos Felipe e Luccas Neto era péssima, inclusive). Se fosse, a nossa imagem seria sempre associada a crianças se esgoelando na saída da maternidade.

Antes do direito ao esquecimento, que permite ao cidadão do século 21 apagar das redes os rastros de atitudes das quais não se orgulham, as pessoas têm o direito ao arrependimento. As versões atualizadas de Trudeau e Felipe Neto são as que chegaram a uma nação inteira, num caso, e a 33 milhões de seguidores, em outro. Antes isso do que o festival de ofensas recentes, conscientes e repetidas de autoridades brasileiras contra a primeira-dama francesa, Brigitte Macron.

Mas as atitudes têm consequências, causam ofensas e assombram. No caso de Trudeau, daqui a cinco semanas saberemos, pelas urnas, se as desculpas foram aceitas ou não.

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O que esperar do mundo quando até abraço começa a ser vendido? http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/09/19/o-que-esperar-do-mundo-quando-ate-abraco-comeca-a-ser-vendido/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/09/19/o-que-esperar-do-mundo-quando-ate-abraco-comeca-a-ser-vendido/#respond Thu, 19 Sep 2019 07:00:14 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=1801  

iStock

Dizem que, se conselho fosse bom, ninguém dava; vendia.

Alguém, não se sabe exatamente quando ou onde, levou a sério o ditado e resolveu ganhar dinheiro com isso. Nasceu assim o primeiro “coach”.

No mundo onde se tem que pagar pra nascer, pra viver e pra morrer, como já diria o Silvio Brito, poucas coisas gratuitas sobraram nas prateleiras imaginárias da existência. O ar? Só quem pode pagar um fim de semana na serra sabe o quanto vale. A água? Tenta a sorte. A terra? Bom, deixa pra lá.

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Um dos poucos instrumentos básicos do desenvolvimento humano e da saúde mental que ninguém ainda etiquetou é o abraço. Ou era. Dias atrás, lendo o jornal, descobri que na Califórnia alguém decidiu criar um tal “Santuário do carinho”.

O espaço fica em uma praia de Los Angeles, e lá é possível desenvolver uma conexão humana mais profunda em forma de abraço de todo tipo. Tem o abraço “coala”. Tem o “colo do luxo”. Tem o simples e eficaz aperto de mãos. E tem o clássico cafuné.

A repórter Fernanda Ezabella esteve lá e ouviu do diretor de uma ONG que a ideia é oferecer “carinho platônico num mundo privado de contato” (o “privado”, aqui, me parece ter um duplo e simbólico sentido). Ele define o empreendimento como um “workshop de comunicação avançada disfarçado de festa do pijama”.

Diga-se o que quiser, mas o sujeito tem visão de mercado, que pode ser definido, basicamente, como um jogo de oferta e procura. E, se existe um ativo no mundo com pouca oferta e muita procura, é o afeto.

Não é de hoje. Quando criança, me chamava a atenção a ausência de toques entre adultos do meu ciclo de relacionamento. Principalmente os “conjes”. Quanto mais tempo juntos, menor a exposição radioativa da epiderme alheia. (Ok, os garotos, entre eles, até se abraçavam, mas em momentos apropriados. Como no jogo de futebol. Os abraços, é verdade, eram imediatamente corrigidos por muquetas, safanões e pontapés, que no linguajar adolescente são chamados de prova de carinho).

Quando adultos, as possibilidades de encontro (e, consequentemente, de abraços), se reduzem. E não por falta de orientação. Na minha formatura de colegial, por exemplo, um colega brigou com o irmão cinco anos mais novo, a quem adorava tirar do sério, por uma razão que não lembro qual. A mãe do formando interveio. “Pede desculpa pro seu irmãozinho”. Ele pediu. “Agora abraça o irmãozinho”. Ele abraçou. E assim seguiu para a vida adulta, sem que soubéssemos se, longe daquele olhar vigilante, voltou a ser abraçado desde então.

Volto à reportagem. Segundo o relato, um em cada cinco americanos diz se sentir solitário, o que preocupa as autoridades, que comparam os efeitos deletérios do isolamento social aos do cigarro (15 por dia, mais precisamente).

Sabendo disso, os criadores desses espaços passaram a oferecer “sessões de carinho terapêutico” que podem custar o equivalente a R$ 320 por hora. Quem quiser seguir a carreira de “abraçador” pode, inclusive, fazer um curso de treinamento online.

Isso diz mais sobre a nossa capacidade de buscar o lucro do que sobre a de fazer amigos, e é por isso que esse ramo tem tudo para ser promissor – principalmente se a gente seguir passando mais tempo trocando emoji e bloqueando detratores nas redes do que andando de cabeça erguida e sem medo de encontrar conhecidos na rua. (Conselho gratuito: se a você for recorrente a sensação de ser visto e ignorado, é melhor juntar dinheiro).

De minha parte, posso me lembrar de um belo dia, na semana passada, em que 15 amigos de uma antiga editoria de jornal se reuniram para fazer uma foto durante o lançamento do livro de um amigo. Era o encontro de uma turma da velha guarda que trabalhou por anos em um veículo analógico, de onde guardamos boas lembranças, o contato e o desejo de novos encontros.

Tem razão quem escreveu que as melhores coisas na vida não são coisas e são gratuitas. Uma delas é rever antigos parceiros de jornada e saber que, de alguma forma, fomos marcados por eles e por eles somos lembrados.

Saí daquele reencontro com um estoque de abraços para a posteridade. Guardo comigo cada um deles para me gabar com meus netos num futuro próximo. Enquanto forem gratuitos, seguiremos abraçados.

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O Brasil de 2019 te deixa paranoico? A culpa não é sua http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/09/16/o-brasil-de-2019-te-deixa-em-paranoia-a-culpa-nao-e-sua/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/09/16/o-brasil-de-2019-te-deixa-em-paranoia-a-culpa-nao-e-sua/#respond Mon, 16 Sep 2019 07:00:10 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=1793

(iStock)

 

A democracia atrapalha o progresso do país. O climatismo ameaça a nossa soberania. Vivemos em um apocalipse zumbi na terra onde comer carne está proibido, e tudo o que fazemos é ouvir as músicas de uma banda de semi-analfabetos compostas por um filósofo alemão que celebrava satanás em um plano para… para que mesmo?

A pergunta me faz acordar de sonos intranquilos. Será que sonhei ou realmente ouvi tudo isso? Será que estou delirando?

Se estivesse, estaria, talvez, feliz e bem representado. Mas não: as frases acima foram produzidas, na mesma semana, pelo filho, pelo chanceler e pelo guru de nosso presidente, Jair Messias Bolsonaro.

Posso não estar delirando (ainda), mas paranoico estou. Um pouco. Mais que pouco. Muito.

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Não tem dia que não me pergunte se não estou, na verdade, em uma espécie de limbo da Caverna do Dragão ouvindo as pistas furadas do Mestre dos Magos.

Parece brincadeira, mas o papo é sério, como alerta a reportagem de capa da revista Época desta semana que pergunta: “Como se manter são apesar da política?”.

Desespero, desamparo, desalento

O texto investiga por que muitos de nós, em meio à proliferação de notícias falsas e discussões que levaram ao rompimento com amigos e familiares, temos sentido desespero, ansiedade, desamparo e desalento como nunca antes na história desse país, o que tem elevado a busca por consultas a terapeutas e ligações para centros de prevenção ao suicídio.

As notícias que ilustram o texto ajudam a explicar a gravidade da coisa: o ministro da Educação seria reprovado em qualquer prova de língua portuguesa; bolsas de estudo são suspensas (e depois reativadas); atirar na cabecinha agora é política pública; fritar hambúrguer virou credencial para futuros embaixadores; ministro da Economia diz que primeira-dama francesa “é feia mesmo”; e por aí vai.

É como dormir adulto e acordar na quinta série. Ou, pior, como definiu o psicanalista Contardo Calligaris em coluna recente na Folha: “A impressão é que estamos sendo governados pelos últimos da classe”.

No meu caso, isso equivale a estar a reboque de um colega que quase perdeu o olho chacoalhando a garrafa de refrigerante e fazendo a tampinha explodir; que conseguia amarrar o cadarço do tênis direito na canela esquerda e tropeçava sozinho quando o alarme da saída soava.

Lembro que ele agora está abafando com um discurso empoderado pelo mito que ajudou a eleger e deito em posição fetal chorando largado, querendo mudar não de classe, mas de planeta.

Se você não está preocupado, deveria

Nessas horas, paro e penso se não é melhor rir um pouco da situação. Substituir o “apocalipse zumbi” por “ó-as-ideia-do-cara”.

Afinal, é quase um consenso entre especialistas que o medo é o afeto político central mais eficiente para tempos sombrios. Serve para construir inimigos, ou “outro conveniente” a quem botamos a culpa pelos fracassos da nossa vida de merda e nos deixa vulneráveis a aceitar qualquer esmola em troca de proteção, mais ou menos como faziam os vassalos na Idade Média que, com medo dos bárbaros, prometiam devoção eterna às barbáries parceladas dos senhores feudais.

O medo é o curto-circuito das últimas luzes que fazem frente à escuridão, essa morada da ignorância que não nos permite distinguir sombras das figuras monstruosas.

O problema é quando a fantasia ganha contornos reais, como mostrou, na reportagem da Época, o psicanalista Christian Dunker, professor da USP e colunista do UOL. Para ele, a crise em torno do desmatamento da Amazônia foi uma espécie de materialização de algo errado acontecendo. “A formação de um dia que mudou sua atmosfera em função de queimadas produziu 1 grama a mais de realidade para nossos pesadelos, dando concretude à insegurança das pessoas.”

Pensando bem, não estamos paranoicos ou com mania de perseguição. Estamos, isso sim, preocupados.

Se você não está, deveria. É sinal de que alguma sanidade ainda grita. Pedindo para que o último a sair não apague a luz.

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Homofobia de governantes é um desserviço em tempos de prevenção ao suicídio http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/09/12/homofobia-de-governantes-e-um-desservico-em-tempos-de-prevencao-ao-suicidio/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/09/12/homofobia-de-governantes-e-um-desservico-em-tempos-de-prevencao-ao-suicidio/#respond Thu, 12 Sep 2019 07:00:22 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=1774

(iStock)O professor Fernando Silva Teixeira Filho, do Departamento de Psicologia Clínica da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp em Assis, no interior de São Paulo, tem 52 anos e milita na causa LGBT desde os 20.

Na última semana, ele acompanhou com preocupação os desdobramentos de episódios de homofobia como o protagonizado pelo prefeito do Rio de Janeiro e pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, Marcelo Crivella, que mandou recolher uma HQ da Bienal do Livro que mostrava um beijo entre dois rapazes. O objetivo, disse o prefeito, era “cumprir a lei e defender a família”.

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Mas terá sido mesmo este o objetivo que levou o prefeito a tomar a decisão que tomou? Se essa fosse mesmo a preocupação de Crivella e de outros governantes que embarcaram na “guerra cultural” contra pautas LGBT, eles olhariam com mais atenção para os efeitos devastadores desse tipo de julgamento, que alimenta ansiedades e pode levar à depressão e ao suicídio de jovens dissidentes dos padrões de sexualidade.

Na última terça-feira (10), quando o assunto ainda estava em pauta, Fernando Teixeira participou, como orientador, da comissão examinadora de uma dissertação de mestrado em psicologia com o tema “Vozes do Silêncio: lesbofobias e processualidade suicida”, da mestranda Yasmin Aparecida Cassetari da Silva.

O tema é caro para o professor. Em 2009, juntamente com a professora do Departamento de Psicologia Experimental e do Trabalho Carina Alexandra Rondini, atualmente na Unesp de São José do Rio Preto, ele realizou um estudo com 2.256 estudantes do ensino médio em três cidades do interior paulista (Presidente Prudente, Assis e Ourinhos).

A pesquisa constatou que 484 entrevistados (21,5%) já pensaram em se suicidar. Do total, 7,4% já haviam tentado se matar.

A prevalência de pensamentos suicidas entre os heterossexuais era de 20,7% ao passo que, entre os “não heterossexuais”, o índice chegava a 38,6% -quase o dobro.

E mais: quase metade dos alunos gays que assumiam pensar em suicídio já havia tentado se matar, e a maioria dizia que o pensamento ainda era recorrente na época da pesquisa.

Para o pesquisador, a tentativa de censura promovida por Crivella é um claro exemplo de homofobia social, institucional e estruturada -e projeta sobre um simples beijo entre dois homens um “juízo de valor imenso”.

‘Estão tentando nos enfiar no armário novamente’

Isso, no auge da campanha do Setembro Amarelo, de prevenção ao suicídio, é grave não apenas porque se trata de uma figura pública dizendo às pessoas o que é ou não obscenidade bem como o que os pais podem ou não mostrar aos filhos.

Para a população LGBT, o efeito é devastador, já que as expressões e desejos da sexualidade são tratados como desvios a serem contidos ou doença a ser tratada. “Estão tentando nos enfiar no armário novamente. No armário se produz a ilusão de que vivemos em uma sociedade monossexual quando, na verdade, ela é diversa. Imagina o quão problemático é para um ou uma jovem ter medo de contar aos pais sobre quem ama ou com quem teve a melhor noite de intimidade, se seus pais não aceitam a sua diferença?”

Teixeira Filho alerta que o processo de suicídio não acontece de um dia para outro. É, sim, resultado de uma elaboração, na qual a LGBTfobia produz a chamada estranheza de si. “O jovem já é inseguro. A pessoa que não se identifica nessa sociedade e não se vê representada nem na HQ acha que ninguém sente como ela. E, quando sente, precisa estar em um saco preto, que é onde se coloca um cadáver.”

(Em tempo: em São Paulo, quando João Doria determinou a retirada de apostila com suposto conteúdo “inadequado” sobre identidade de gênero, professoras relataram que os materiais foram guardados em um saco preto.)

O professor explica que, quando pensamos na morte, pensamos em luto. E luto, para um jovem LGBT, é um processo duplamente doloroso. Primeiro, quando se perdem os laços familiares ou sociais que não reconhecem sua orientação (um exemplo é quando o filho precisa dizer aos pais que não se reconhece na vida imaginada para ele, com filhos biológicos e outros padrões normativos. A frustração, define o professor, é enorme). Segundo, quando diante das fobias (sempre no plural) e das ridicularizações, é preciso se esconder e “matar” um desejo que não é socialmente aceito. “A sociedade te força a fazer o luto da sua homossexualidade, da qual você não é estimulado a  orgulhar-se nem reconhecê-la como sua.”

Para o especialista, se o poder público estivesse de fato preocupado com as famílias, deveria investir em programas de prevenção ao suicídio, entendendo e eliminando a LGBTfobia através da educação. Os sinais emitidos até aqui, porém, vão no sentido contrário.

“O que está acontecendo é gravíssimo. Em uma democracia, os jovens LGBT deveriam importar tanto qualquer outro cidadão e cidadã. Mas não importam. Os únicos corpos que importam são os heterossexuais, preferencialmente brancos, jovens e com dinheiro. Os demais são entendidos como doentes e empurrados para o suicídio.”

Por telefone, Teixeira Filho termina a entrevista com uma pergunta: “Como é possível pregar o amor incentivando a morte?”

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