Matheus Pichonelli http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal. Fri, 29 May 2020 12:39:37 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Ação da PF dá o mapa para boicotarmos quem patrocina o ódio http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/05/28/acao-da-pf-da-o-mapa-para-boicotarmos-quem-patrocina-o-odio/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/05/28/acao-da-pf-da-o-mapa-para-boicotarmos-quem-patrocina-o-odio/#respond Thu, 28 May 2020 07:00:51 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=2810

Foto: iStock

A Operação da Polícia Federal que cumpriu, nesta quarta-feira (27), mandados de busca e apreensão contra empresários, políticos, youtubers e ativistas bolsonaristas escancarou as roldanas de gabinetes e discursos de ódio e notícias falsas que infestam as redes, o debate público e a segurança sanitária.

Todo mundo sabia ou desconfiava que tanto ódio não brotava do nada. Era sistematicamente plantado, cultivado, disseminado e financiado com o suposto apoio de empresários e ajuda de dinheiro público.

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Quem acredita que essa rede é inofensiva ou está só no campo das ideias deveria assistir ao vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril. Principalmente no momento em que Jair Bolsonaro manifesta o desejo de armar a população para revidar à bala as orientações de prefeitos e governadores que contrariem sua vontade imperial.

Ao todo, a PF cumpriu mandados em 29 endereços. O mapa, ampliado pelos conhecidos de sempre que ainda apoiam e sustentam essa loucura, servirá como roteiro do que cada cidadão minimamente são deve fazer a partir de agora se quiser ver a fonte de tanto ódio contida no nascedouro. 

Quem replica esse ódio serve como correia de transmissão. E ela precisa ser cortada. Para isso é preciso deixar de seguir, denunciar, alertar anunciantes sobre os horrores às quais sua marca está sendo associada, como tem feito o perfil anônimo Sleeping Giants.

A lógica atualizada do autoritarismo à brasileira, que tem base no escravismo e passa pelas ditaduras do século 20, está incubada em atos, palavras e omissões de todo mundo que quer, a essa altura do campeonato, dizimar as divergências em torno de um projeto autocrático no qual sobreviver requer obediência. Nem que seja na bala.

Mais do que qualquer outro momento, a pandemia serviu para mostrar quem está do lado de quem. Pois a minha companhia ninguém que normaliza o que está acontecendo terá. Espero que a dos amigos que sobrevivem a estes tempos com algum grau de dignidade também.

O que o fascismo pede é enfrentamento. Nem que seja pelo boicote onde mais dói: o bolso.

Meu filho de 6 anos é pequeno demais para entender certas nuances, mas já sabe que não, não vamos mais parar na estrada para comprar alguma coisa na loja cafona de colunas gregas só porque ele quer ver a réplica da estátua igualmente cafona.

Não temos muito, mas o que temos não vai alimentar quem tem saudade do regime militar, apoia atos pelo fechamento do Congresso, do STF, obriga empregado a votar no amigo dele, que grava live mentindo que a situação da pandemia por aqui era bem diferente da Itália e depois ameaça botar todo mundo na rua.

O mesmo vale para a hamburgueria cujo dono acha que o Brasil não pode parar por causa de 5 ou 7 mil mortes – será que 25 mil serão capazes de fazê-lo pelo menos franzir a testa?

Vale também para a loja de materiais esportivos e a rede de academias suspeitas de financiar o caos.

Mas não só. Posso não viver muito, mas até o fim da vida vou trocar de canal toda vez que vir o rosto de quem, em meio ao morticínio, pergunta por que tanto mimimi diante da morte se ela é parte da vida e por que tanta ojeriza à tortura se ela sempre existiu.

Como público, como espectador, e como alguém que ainda pode ser ouvido, ao menos pelo meu filho, não serei plateia ou audiência nem para atrizes saudosas da ditadura nem para dublê de apresentadores e empresários que, com a arrogância de quem nunca ouviu um “não” na vida, jurou que na favela ninguém morreria, “só” velhinho e gente já doente.

Olho para os velhinhos de saúde limitada que chamo de vô e vó e aviso: esse cara não entra em casa, nem como atração de TV nem como garoto-propaganda (se ele fizer anúncio de água, eu passo a tomar detergente).

Sobre o dono da emissora que defende apedrejamento para quem noticiar as mortes na pandemia, adoraria viver na mesma área de concessão para espalhar posts e cartazes todos os dias até o fim da vida dizendo: desligue essa TV, não compre nada que tenha a digital deste homem que vive da sua audiência.

Feito isso, é hora também de rever amizades.

Os sinais de indigência estavam dados antes, durante e depois de 2018, mas a pandemia eliminou qualquer disfarce de ignorância ou ingenuidade dos que, no desespero das opções em jogo, caíram na conversa.

Pois uma coisa é cair na conversa.

Outra é dar sustentação a ela.

Se pensadas coletivamente, algumas pequenas decisões podem fazer a diferença. Nas redes, tenho deletado sem dó ou saudade todos os conhecidos que fracassaram em tudo na vida, inclusive em serem boas pessoas, e decidiram atribuir à ciência, aos professores, à universidade gratuita, aos livros, aos artistas, ao pensamento crítico, à imprensa e a tudo o que forjou nosso caráter todos os males a serem empastelados em troca de uma nova ordem. Uma ordem limítrofe na qual nascemos e morremos sem pensar a que viemos.

O afastamento é o mínimo a se fazer diante de quem passou a quarentena minimizando as mortes da pandemia e riu ou aplaudiu cada vez que o líder da seita disse “e daí”.

Achava que era só conversa de ressentidos até descobrir que eles eram também um risco sanitário.

Na vida e nas redes, hoje passo bem sem ler absurdos diários, apesar da fartura etnográfica do que postavam para entender a cabeça do fascista disfarçado de patriota.

Levei muito tempo para entender esse funcionamento. Mas entendi. Agora, já que transformar é impossível, é necessário fechar as torrentes e deixar que as ideias sequem por inanição, sem palco, resposta ou outras ações eletrônicas que se convertam em engajamento. Simplesmente deixem de seguir.

Boicote um fascista. 

Não tenha medo de dar nome aos bois, como fez o médico Arnaldo Lichtenstein, diretor técnico do Hospital das Clínicas, em São Paulo, ao dizer, em um debate na TV Gazeta, que havia uma diferença semântica e moral entre negar a ciência e usar a pandemia para botar em prática uma lógica eugenista. (A definição está no Google, pode procurar.)

“O que vai acontecer quando as pessoas não defendem o isolamento? Não se fecha comércio, a economia não para, o governo não precisa colocar dinheiro na economia, as pessoas que vão morrer, muitas, são os idosos, aí tem a fala de ‘aí ia morrer mesmo’ ou as pessoas que já tem doença. E vão ficar os jovens e atletas. Então se a gente pegar pedaços da fala tem uma lógica intensa. Isso chama eugenia. Lembre-se de que sistema político mundial usava isso, disse. 

É exatamente disso que se trata.

Sabendo ou não, aquele seu amigo tem os olhos embotados de cinismo e eugenia quando pede para seguir o jogo, já que “só” os indesejáveis vão morrer. Você pode até alertá-lo. O que vem depois é o que vai definir se seu amigo falaria o mesmo sobre raça pura, capacitismo, arte degenerada e os benefícios dos campos de trabalho forçado que mataram 6 milhões de pessoas no século 20. Um desses campos tinha à entrada um deboche em forma de inscrição: “o trabalho liberta”.

Aos que buzinam em frente de hospitais, fazem carreatas para exigir a manutenção dos criados na trincheira, peitam enfermeiras, jogam pedras em jornalistas, levam armas a acampamentos em Brasília ou postam mensagens com fuzil e ameaças a quem não se curvar à vontade do grande líder, desejo apenas a lei.

Aos conhecidos, familiares e vizinhos que aplaudem tudo isso, quero só distância. Me contento em não desejar para gente assim o que gente assim deseja para qualquer um que não seja como eles.

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Brasil passa 22 mil mortos na pandemia. A culpa é sua, que ‘torceu’ contra? http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/05/25/brasil-passa-20-mil-mortos-na-pandemia-culpa-sua-que-torceu-contra/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/05/25/brasil-passa-20-mil-mortos-na-pandemia-culpa-sua-que-torceu-contra/#respond Mon, 25 May 2020 07:00:31 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=2785

Jair Bolsonaro festeja aglomeração de manifestantes no dia 15 em Brasília. Foto: José Cruz/Agência Brasil

Devidamente paramentados, como num filme de ficção científica, saímos de casa, até o bosque da esquina, depois de dias de confinamento.

Antes, olhamos para um lado, depois para o outro, e atravessamos a rua sem risco de sermos atropelados pelos perdigotos de algum vizinho igualmente entediado e querendo botar os papos em dia.

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Na área comum, meu filho poderia pedalar alguns minutos, queimar um pouco da energia represada que poderia mover uma turbina de Itaipu, e voltar para casa menos irritado. 

De longe, vi um garoto, pouco mais velho que ele, se aproximar.

Na cartilha da quarentena, ninguém explicou exatamente qual o modo mais educado de dizer “sai daqui, você não tá vendo a TV?”. Ainda mais quando se trata de uma criança.

Na dúvida, segui a trajetória da bicicleta com as mãos abertas em forma de uma redoma imaginária. Até que o pais do garoto se aproximam.

“Posso ver a bicicleta dele?”

Em um minuto, meu filho e sua bicicleta estavam rodeados até pela avó do menino vizinho, que faria aniversário e queria uma bicicleta igual. Igual, não. Melhor. 

“Qual o tamanho da roda?”, perguntavam, enquanto colocavam a bike de ponta cabeça e deslizavam os dedos em cada peça da engrenagem.

A senhorinha por pouco não passou as mãos de graxa na bochecha do meu filho como agradecimento.

A curva de contaminação pelo novo coronavírus já era um fato naquele dia, mas bastava abrir a janela de casa para perceber que cada um vivia em seu mundo paralelo na pandemia. Mesmo morando no mesmo bairro, uma pequena cidade do interior onde os casos de infecção começam a pipocar.

Neste mundo paralelo, o vizinho da casa de trás continuava promovendo churrascos homéricos nos finais de semana, com videokê e mergulhos estridentes na piscina, como se houvesse amanhã. Confesso que julguei.

Na rua de baixo, num dos raros passeios com a cachorra, outros passeadores se reúnem diariamente para reclamar que as medidas de isolamento eram piores, e matariam muito mais por inanição econômica, do que qualquer gripezinha. 

Ao fim da tarde, a rua de casa vira zona de guerra, e o inimigo pode estar incubado em qualquer um dos garotos aglomerados para bater bola, ouvir música e fumar narguilé. O síndico diz que está ficando doido, mas não tem o que fazer: todo dia tem alguém implorando, chorando mesmo, para reabrir a quadra porque não sabe como entreter com os filhos em casa. “Eles pensam que estão de férias”, diz ele para quem pergunta onde estão seus colhões. 

A pandemia me transformou naquilo que eu mais temia: o vizinho que olha os filhos adolescentes dos vizinhos e pede a Deus que proteja, não sem antes lamentar que a juventude e os churrasqueiros pecadores estão perdidos.

Em minha defesa, estou longe de encarnar o motorista do bairro que de dia veste a fantasia de super-herói e percorre as ruas para xingar todo mundo que saiu de casa sem a máscara.

Se no começo eu via a morte, com a foice e a capa escura, por toda parte, com o passar dos dias os rostos de pessoas próximas me jogavam num esquete do Bruno Sartori, o mago das deepfakes: os cabelos e trejeitos mudavam, mas todos à minha volta têm agora a voz e as feições de Jair Bolsonaro.

Muitos repetem os argumentos do presidente ipsis litteris. Outros, com uma ou outra variação, só para disfarçar o alinhamento automático com o que se viu na reunião ministerial do dia 22 — um roteiro pronto para entender até onde chegamos.

Quando manifesto algum receio (a palavra é pânico, mas eu disfarço), eles dizem que devo enfrentar a pandemia como homem, não como moleque.

Que todos vamos morrer um dia.

Que vírus é que nem chuva, 70% vamos pegar, paciência.

Juram também que desconhecem qualquer hospital que esteja lotado. (A prova é uma foto feita em Paris no fim do século 19, mas a corrente de WhatsApp garante que foi feita ontem em Campinas.)

Outros dizem que não querem esmola do governo, que assim a vida fica fácil, e perguntam o que eu tenho contra o comerciante que quer apenas trabalhar.

Outros batem no peito para dizer que ninguém ia tolher a sua liberdade e o direito de ir e vir.

E tem sempre os parentes e amigos que veem o fim de semana se aproximar e sondam aquela possibilidade de, sei lá, fazer uma visita de leve, viver como antes, quem sabe só um jantar.

Com o constrangimento de lembrar alguma notícia sobre famílias inteiras contaminadas em torno de um bolo e um guaraná vem sempre aquela culpa incutida na resposta. “Então você não quer?”. “Então você acha que somos fracos o suficiente para sucumbir a uma gripezinha?” “Deus não vai permitir, homem de pouca fé.”

Quando muito a contrariedade vem em forma de um inocente “vamos seguir torcendo”. Torcendo?

Custa dizer que as palavras “é, “desejo” e “torcida” não deveriam sequer surgir à mesa no momento em que mais de 22 mil vidas já foram ceifadas na pandemia. 

Custa dizer que ninguém pede para fechar estabelecimentos ou evitar sair de casa porque quer, porque não se importa ou porque não confia na providência divina.

Proibindo ou não, muitos vão preferir ficar em casa a correr riscos. Me desculpe quem tem histórico de atleta, mas nem que seja obrigatório, e não apenas atividade essencial, eu volto tão cedo para a academia. Nem que no combo promocional eu ganhe uma esteira e um corte de cabelo.

Não é questão de querer, e isso deveria ser o óbvio do óbvio.

Entre tantos solavancos, nenhum é maior do que a nova condição que querem impor a quem ousa levantar o dedo para mitos e papos furados dizendo que olha, me desculpa, mas vai dar merda. Está dando. Deu muita.

Como resposta, a patrulha da boa fé tenta o tempo todo limitar você à condição de torcedor. Um torcedor que não entra em campo e se restringe apenas a enviar aos protagonistas do jogo pensamentos positivos sob a trinca da força, do foco e da fé. Desculpa, mas nem em estádio é assim que funciona. Não até o zagueiro perder a primeira bola.

Faz mais de dois meses que estamos vendo um caminhão desgovernado, com um motorista de olhar alucinado ao volante ameaçando atirar em todo mundo que cruzar a sua frente e confundindo direito de ir e vir com licença para atropelar. Inclusive seus ministros da Saúde.

Mas, por esta versão oficial, errado está você que, em vez de torcer para dar certo, prefere alertar os pedestres que tem um caminhão sem freio na contra-mão.

Na reunião do dia 22, ficou evidente que ninguém, entre as principais autoridades do país, tinha a menor dimensão da tragédia que se anunciava. O foco era apenas apertar os cintos, atacar inimigos reais e imaginários e seguir juntos em direção ao iceberg — com armas, despreparo e intimidação. Está na cara que, se existia ali algum plano, ele não tinha a menor chance de dar certo.

Feito o estrago, agora querem te convencer que a culpa é sua, que “torceu” contra.

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O que explica a Tubaína de Bolsonaro no pior momento da pandemia? http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/05/21/tubaina-bolsonaro-piada-pandemia/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/05/21/tubaina-bolsonaro-piada-pandemia/#respond Thu, 21 May 2020 07:00:37 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=2768

Bolsonaro faz piada sobre cloroquina durante entrevista por videoconferência

No dia em que o Brasil superou, pela primeira vez, a marca de 1.000 mortos em 24 horas pelo coronavírus, Jair Bolsonaro apareceu sorridente, em uma videoconferência, fazendo piada com a cloroquina, o seu emplastro Brás Cubas.

Sem querer politizar o uso do medicamento, mas já politizando, o presidente até admitiu que tudo pode não passar de efeito placebo, mas que ficará com a consciência tranquila por ter tentado e apostado nos efeitos milagrosos da sua solução. Na dúvida, sentenciou o presidente, quem é de direita toma cloroquina; e quem é de esquerda toma (suspense! Vem palavrão aí?)…Tubaína…

Os risos ecoaram no recinto. Estão ecoando até agora.

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Não sei vocês, mas acho que nessas horas as ferramentas de análises psicopatológicas deveriam ser itens de primeira necessidade à mesa do brasileiro. Mais do que qualquer exame, todos deveriam saber o que se passa na cabeça do presidente. Sem elas, ninguém sabe até onde ele é capaz de ir.

Arrisco dizer que a risada ao fim da piada do pavê era um crime confesso de indiferença com os mortos na pandemia. Dessa vez, sem nem trazer no bojo o seu já consagrado “e daí?”. Mas não só. Quem assiste ao vídeo com atenção percebe que não havia ali apenas indiferença. Nem só uma tentativa de suspender o peso da realidade com uma concessão ao alívio cômico. 

Tinha algo de regozijo. Uma certa alegria indisfarçada. Como se as mortes fossem solução, não o problema em si.

A desconfiança ganha corpo se alguém lembrar que o símbolo da trajetória de Bolsonaro até a rampa do Palácio do Planalto era uma arma, desenhada num gesto entre o polegar e o indicador que podia ser ensinado para crianças em campanha.

Flauta de Hamelin

Hoje, diante dos esforços para achatar a curva de contaminação pelas vias do isolamento, Bolsonaro quer que as pessoas saiam de casa. É um desejo quase obsessivo.

O polegar e o indicador ao alto são a sua flauta de Hamelin, a cidade medieval da Alemanha infestada pelos ratos no conto dos irmãos Grimm. Na versão à brasileira da história, as notas musicais anti-epidemia são compostas com cloroquina e a peste é combatida pela perversão dos que transformam as vítimas da solução final em roedores. 

O condutor da flauta tem um sorriso incontido dizendo “saiam, sejam homens, não covardes”. Despreza, inclusive, os riscos cardíacos de um medicamento sem eficácia comprovada.

Os ratos somos nós.

E alguns de nós já fomos metamorfoseados antes em pestes responsáveis por enlamear cidades, corroer orçamentos e infestar os tetos das caixas previdenciárias gerenciadas pelos cidadãos de bem com histórico de atleta.

A doença redentora só mataria velhos e pessoas doentes, lembra? Os pesos de um sistema deficitário, lembra? E ninguém merece carregar o peso de um cemitério nas costas, como ensinou a agora ex-secretária da Cultura Regina Duarte. Lembra?

Inevitável tentação

Em uma reportagem recente, meu amigo Felipe Bächtold e a repórter Daniela Arcanjo ouviram psicanalistas para tentar entender a personalidade do presidente. Lógica paranoica, messiânica e delirante, demonstrações de fragilidade e onipotência foram alguns dos elementos observados pelos especialistas a partir dos discursos do capitão. Mas os próprios especialistas ressalvam: feitas à distância, as observações servem como pistas, não como um diagnóstico.

Seguimos, então, sem saber o que aconteceu na infância do pequeno capitão que martela hoje como um trauma coletivo.

A palavra psicopatia, grifo meu, surge inevitável, mas também como tentação. Na reportagem citada, o professor da Escola de Administração da FGV (Fundação Getulio Vargas) Marcelo Galletti Ferretti já alertava que classificar o presidente como alguém psicopatologicamente acometido pode desresponsabilizá-lo por suas atitudes, como a de estimular a população a sair de casa em meio a uma pandemia. “O impulso de colocar na conta da loucura as idiossincrasias dele tira a discussão do campo político para o campo psicopatológico.”

Pois no campo político tudo é óbvio demais até para ser desenhado.

No dia em que 1.179 famílias choraram seus mortos na pandemia, Bolsonaro conseguiu botar a Tubaína no centro da conversa. Entre risos, o flautista macabro convoca os habitantes da toca a sair para a rua e esquecer por instantes que no pico da pandemia o país não tem sequer ministro da Saúde há quase uma semana.

No conto dos irmãos Grimm, só quem se salva do abismo é quem não ouve a canção mágica. Isso é uma dica, não um spoiler. 

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Goste-se ou não, entrevista de Felipe Neto ao Roda Viva já é histórica http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/05/18/goste-se-ou-nao-entrevista-de-felipe-neto-ao-roda-viva-ja-e-historica/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/05/18/goste-se-ou-nao-entrevista-de-felipe-neto-ao-roda-viva-ja-e-historica/#respond Mon, 18 May 2020 07:00:47 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=2751

O youtuber Felipe Neto (Foto: Reprodução)

O youtuber Felipe Neto será o entrevistado do programa “Roda Viva”, da TV Cultura, nesta segunda-feira (18).

Se lesse essa frase há pouco mais de um ano, pensaria que o mundo está ao contrário e, como na música, ninguém reparou. Pior: eu me chocaria comigo mesmo se dissesse que estou ansioso para saber o que ele tem a dizer.

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Pois é, você que me lê no passado, o mundo mudou. Só você não reparou.

Da entrevista pode não sair nenhuma sentença que algum escritor russo do século 19 assinaria, mas ela, em si, já é histórica.

Felipe Neto é desses fenômenos juvenis que você, boomer ou millennial das antigas que adora uma caixa, não sabe exatamente quem é, o que diz nem a qual categoria pertence. O fato é que, quando você ouviu falar dele pela primeira vez, ele já tinha um canal com 38 milhões de inscritos na principal plataforma de compartilhamento de vídeos do planeta. 

Seu último vídeo foi assistido por 3,4 milhões de pessoas e sua última postagem fixada no Twitter tinha 78 mil retuítes e 9,2 milhões de visualizações. Num dia bom, o principal telejornal do país celebrou, recentemente, uma audiência de cerca de 7,5 milhões de espectadores.

Quem trabalha com comunicação convive há anos com a palavra “impasse”.

Impasse não é crise.

Impasse é quando um veículo tradicional não tem mais a relevância de antes, mas as novidades de agora não têm força ou prestígio suficiente para destronar o modelo antigo. É como se duas forças opostas se anulassem e quisessem o que só um dos lados tem.

Nas redes sociais, dinossauros e jovens influencers se encontram numa pororoca que resulta, até aqui, num estranhamento mútuo.

Quem forjou opiniões pela curadoria dos quadradinhos das páginas nobres de veículos impressos uma hora dessas se pergunta o que terá a dizer, num prestigiado programa de entrevistas e debates, o rapaz que viralizou após espalhar milhares de copos de plástico (cheios) na casa do irmão famoso por imitar uma foca numa banheira de Nutella. Era uma retaliação à trollagem do irmão que encheu seu quarto de areia e promoveu um pagodão no box de seu banheiro.

Eu ri.

Meu filho, de 6 anos, riu.

Daí vai uma distância até ver o youtuber bem sucedido na cadeira que, uma semana antes, foi ocupada pelo presidente do Supremo Tribunal Federal – e que já colocou na roda artistas, escritores, chefes de Estado e outras personalidades com o selo de especialistas.

Por quê?

Felipe Neto é exemplo de um adolescente, ou jovem saído da adolescência, cujo processo de amadurecimento ocorreu quase junto com as ferramentas eletrônicas de hoje. Há dez anos, ele postava seu primeiro vídeo no YouTube. O botão de curtir do Facebook tinha apenas um ano de idade.

Ele reconhece que fez (e registrou) muita bobagem de lá para cá. Se você já foi jovem um dia, sabe que hoje tem só dois tipos de adultos em nosso convívio: os que se arrependem do que fizeram na juventude e os que seguem fazendo bobagens.

Felipe Neto, aparentemente, evoluiu. Foi um dos primeiros influencers a perceber que seria cúmplice de uma catástrofe se ficasse quieto, com tanta audiência, diante dos devaneios do governo Bolsonaro. A oposição ao governo do capitão estava clara há um bom tempo, mas tudo ganhou outra dimensão quando declarou que quem se cala perante o fascismo era fascista.

Para muita gente, o momento de rompimento da tolerância foi quando o hoje presidente ainda era um deputado de baixo clero que usava arroba para falar do peso de pessoas negras. Ou quando prometia fuzilar adversários.

Para ele, foi quando Bolsonaro participou de atos com pedido de fechamento do Congresso e do STF.

Antes tarde do que nunca.

No centro do “Roda Viva” não estará um especialista em ciência política, mas alguém que se mostra disposto a aprender e levar alguma mensagem para quase 40 milhões de pessoas todos os dias.

Se você acha pouco é porque ainda pensa com a cabeça do dualismo que coloca em campos opostos militância e engajamento virtual, mundo físico e mundo eletrônico, vida real e vida em rede. (Dica: se você perguntar a alguém de 18 anos hoje se esse alguém “namora pela internet”, automaticamente entrará na categoria do tiozão da Sukita desculpe a referência que perde a bola na pelada do fim de semana e diz que “telegrafou” o passe. Isso simplesmente não faz mais sentido, nem como ferramenta nem como linguagem).

No campo entre pessimistas e entusiastas pelo mundo das redes, confesso que não sei exatamente onde estou.

Como lembrou um amigo, a história da mídia nos últimos anos é a história de uma fragmentação sem precedentes. O que deveria ser ampliação é, neste momento, um paradoxo, já que se tornou a maior ameaça à democracia desde 1945 vide o alcance de fake news e postagens picaretas que estraçalham os fatos e os entregam ao meio.

Nomes com capilaridade e influência como Felipe Neto e Anitta começaram agora a aprender sobre política e falar sobre democracia. Não qualquer democracia, mas uma democracia em risco de morte. Chamar para o centro da roda é aceitar que as saídas pedem agora um novo alcance.

Pode ser um erro estratégico dar a eles o peso do que John Lennon, que também botou a carreira em risco para protestar contra a guerra, chamou em uma música de “working class hero”. Nem eles querem isso.

Em vez de ensinar, talvez nós (jornalistas, formadores de opinião etc) tenhamos algo também a aprender com quem tem hoje o domínio do engajamento digital. E com quem sabe que esse engajamento, se bem usado, pode servir de anteparo para uma tragédia anunciada.

Tem alguma dúvida? 

Então tire de Jair Bolsonaro e seus seguidores fanáticos o engajamento digital que acumularam nos últimos anos e veja o que sobra. No mundo que acabou, não sobra nada. No que surgiu, é quase tudo.

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Vídeo da reunião prova que no comando do país segue um tiozão do churrasco http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/05/14/video-da-reuniao-prova-que-no-comando-do-pais-segue-um-tiozao-do-churrasco/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/05/14/video-da-reuniao-prova-que-no-comando-do-pais-segue-um-tiozao-do-churrasco/#respond Thu, 14 May 2020 07:00:04 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=2740

O presidente Jair Bolsonaro fala à imprensa da rampa do Palácio do Planalto. Foto; Agência Brasil

Jair Bolsonaro queria fazer um churrasco no fim de semana em que o Brasil enterrou a sua décima milésima vítima do coronavírus, o resfriadinho que ele apostou que uma hora dessas não faria mais estragos do que uma gripe comum. 

Alguém avisou que pegaria mal e ele teve de lidar com a frustração andando por aí de jet ski. Por sorte, apoiadores de um barco vizinho no lago de Brasília ofereceram um naco de carne mal-passada para desanuviar. Na ponta do garfo generoso estava a recomendação de Regina Duarte para tempos tenebrosos: fica leve, capitão.

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Em seu embate contra a histeria e o politicamente correto, o presidente já não pode assar a própria picanha sem ser tachado de insensível.

No descanso dos justos, sua única alegria foi ver o filho Eduardo, deputado e ex-futuro embaixador, dizimar a dúvida sobre o sexo do herdeiro em um chá revelação com um balaço de espingarda. Herdeira, no caso. Nas festividades das melhores famílias, menina veste rosa e meninos brincam de arminha.

Do congelamento do salário de servidores, inclusive dos médicos que neste momento estão na zona de combate da pandemia, às agressões a jornalistas no quintal do Planalto, existem muitas razões para se indignar com a postura do presidente diante da crise.

O churrasco, definitivamente, não é uma delas. Antes ele estivesse ocupado com a panceta e deixado o gerenciamento da crise para os adultos da sala. A repressão causou o efeito oposto.

Não tem rapaz latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes que não tenha aprendido, por experiência própria, que o churrasco de domingo é a Batalha de Termópilas, aquela que inspirou “Os 300 de Esparta, do homem comum.

No cantinho do guerreiro, qualquer um é Rei Leônidas. 

Um kit churrasqueiro é a catarse de quem desossa a peça e constrói a própria epopeia. Em roda, os amigos param para ouvir as histórias do novilho até o prato. Os segredos do tempero. A temperatura exata da cerveja. A playlist de quem tem as mãos ocupadas em esganar o frango e estraçalhar a linguiça enquanto o coração fecha os olhos e sinceramente chora ao som de “Evidências”. 

Sóbrios ou abstêmios, os homens comuns em torno da churrasqueira purgam a miopia existencial com gritos de guerra e análises definitivas sobre a conjuntura. “São 11 filhos da puta”, sentenciam uns, sobre times de futebol ou juízes, do campo e de tribunais.

 “Se tentarem foder meus filhos eu vou mudar”, diz o pai-tiozão, com um espeto misto para o alto, a alvejar simbolicamente os inspetores, professores e direção escolar que não reconhecem o talento do filho de olhar bovino e índole duvidosa. Só porque transformou o parquinho em campo minado de bombinha cordão.

Num churrasco de domingo, o homem comum fala de assuntos diversos como se encarnasse Rui Barbosa. Nem todas as enciclopédias comportam tanta opinião formada e enrijecida sobre tudo.

O brasileiro, diz entre gargalhadas, tem que ser estudado. Você vê o cara pulando em esgoto, sai, mergulha e não acontece nada. kkkk.

Sobre coronavírus, ele acredita que muita gente já foi infectada no Brasil e já tem anticorpos que ajudam a não proliferar isso daí. 

Quando alterado, ele enche o peito para dizer que bom era no seu tempo, e que o erro da ditadura foi torturar e não matar. Que pau-de-arara funciona e o povo é favorável à tortura. 

Ele também acha que o patrão está certo por pagar menos para a mulher porque ela engravida, que defecar a cada dois dias ajuda o meio ambiente e que se o filho começar assim, “meio gayzinho”, é só levar um couro e ele muda de comportamento. Se fosse filho dele? Bom, prefere que morra num acidente do que aparecer com um bigodudo por aí.

O Brasil, para ele, é uma virgem que todo tarado de fora quer.

Só não pode ser um país do mundo gay, de turismo gay. Temos famílias. Agora, quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade.

Se alguém corrige, afirma: nada contra. Nem existe homofobia no Brasil. Quem morre o faz em local de consumo de drogas, de prostituição ou por execução do próprio parceiro.

Em tempos de vestibular, ele reafirma: quem usa cota está assinando embaixo que é incompetente.

Racismo? Não. Coitadismo, talvez. Ele tem até amigos negros. Inclusive já visitou um quilombo no interior paulista e lá percebeu que o afrodescendente mais leve pesava sete arrobas. Não servia nem para procriar. kkk.

Antes do fim da tarde, o tiozão vê as crianças brincando de bola e até bufa. Quando um moleque de nove ou dez anos vai trabalhar, articula ele, vem um monte de gente dizer trabalho escravo, não sei o quê, trabalho infantil…. Agora, quando tá fumando um paralelepípedo de crack, ninguém fala nada. Então, o trabalho não atrapalha a vida de ninguém.

Enquanto mastiga, filosofa: falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira.

A sabedoria tiozística se espalha entre perdigotos, vinagretes, trocadilhos com pavê e comentários sobre a primeira-dama da França. Ninguém ouvia.

Em outros tempos, a empolgação do guerreiro de churrasqueira durava até a música de encerramento do Faustão, quando acorda assustado, com uma baba no canto da boca, jogado no sofá de casa.

Vinha a segunda-feira e os tigres voltavam a miar. A dor de cabeça não era revolta, e podia ser combatida com sonrisal.

Em algum momento, os tiozões do churrasco fizeram dos cantinhos do guerreiro embaixadas e se conectaram, por WhatsApp, a outras representações. Descobriram que não eram ilhas de frustração amaciada com limão e alho, mas uma força política de linguagem e estética comuns e pronta para transformar um dos seus em rei Leônidas.

Como aquele parente boquirroto, Jair Bolsonaro estaria uma hora dessas apenas temperando a panceta e proferindo vitupérios para si mesmo não fosse o grupo de WhatsApp.

Como presidente, transforma reunião ministerial em seu cantinho do guerreiro particular.

Foi lá que, em vez de emparedar a direção da escola, prometeu, segundo relatos, mudar só o comando da Polícia Federal (ou a equipe de seguranças?) para blindar os filhos arteiros suspeitos de envolvimento com rachadinhas e gabinetes do ódio.

Por ironia, a fala aberta, como se estivesse diante de um espeto misto, não da caneta presidencial, pode ser o último ato de quem poderia estar leve, e em paz, se tivesse ficado no sonrisal.

Só não entendo a razão para tanto choque. Alguém achava mesmo que quando a coisa ficasse séria, e o tiozão do pavê precisasse lidar num belo dia com, sei lá, uma crise econômica ou uma pandemia, o sujeito que confundia mergulho no esgoto com imunidade sanitária iria mesmo se converter em estadista? Nossos mitos já disfarçaram melhor.

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Regina Duarte não está louca. Está alinhada com o governo que abraçou http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/05/08/regina-duarte-nao-esta-louca-esta-alinhada-com-o-governo-que-abracou/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/05/08/regina-duarte-nao-esta-louca-esta-alinhada-com-o-governo-que-abracou/#respond Fri, 08 May 2020 13:29:28 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=2730

Reprodução CNN

É tentador, confortável até, ver Regina Duarte se despir de qualquer adereço civilizatório e atribuir a implosão do que restava de sua imagem em rede nacional a um suposto surto, um ato impensado de quem não se preparou nem se medicou para o confronto.

Nas redes, ninguém se decidia.

“Ela esqueceu os psicotrópicos.”

“Ela exagerou nos remédios.”

“É efeito de alguma droga.”

“Não, é senilidade.”

“Precisa ser interditada urgentemente.”

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Só assim fica minimamente suportável receber de uma atriz de trajetória consagrada a positividade saudosa da marcha cantada pelos ufanistas enquanto corpos eram torturados, suicidados, escondidos e desaparecidos na ditadura militar.

A contradição é a força-motriz do bolsonarismo, e Regina Duarte não é seu contraponto. Nem a razão fora da curva.

Essa força política inaugura um novo tempo erguendo para o alto os esqueletos do passado. Bom era o tempo dos generais, eles dizem. Bom era o patriotismo bajulador de quem não queria desaparecer no porão. Bom era poder editar atos institucionais, cassar mandatos, fechar o Congresso, amarrar juízes, distribuir botinadas em estudantes e professores, mandar a imprensa calar a boca, erguer estranhas catedrais e não poder ser confrontado. Tudo em nome da ordem. Tudo perfeitamente atualizado pelo método bolsonarista de emparedar adversários.

O bolsonarismo sente-se confortável no mobiliário do passado, mas não quer falar das suas contradições. Quer lembrar das coisas boas, confeccionadas artificialmente sob o selo da união nacional que não comporta divergências. Os corpos e ideias discordantes tiveram as unhas e digitais arrancadas para evitar a confrontação.

E daí?, diria o mestre de obras desse passado grandioso que temos pela frente.

Essa contradição é um tripé. 

Quando incomoda, o passado é um retrovisor. Se olhar pra trás, bum, ninguém vê o desafio à frente. O esquecimento é seletivo.

Mas quando não incomoda, o passado é conveniente. Pode-se forçar o torcicolo para buscar nas experiências de dois, quatro, dez, 15, 20 ou 60 anos atrás para pinçar esqueletos e imagens fantasmagóricas para obstruir a visão do presente imediato, hoje marcado por uma pilha de mortos em uma pandemia que os gestores do futuro querem limpar com para-brisa. 

O revanchismo também é seletivo: a culpa dos terrores presentes é sempre dos opositores do passado. É quando o esquecimento perde a função para ser esfregado na cara de quem reclama.

O passado, ao mesmo tempo, é referência. Lá estão os instrumentos, as botas e os mapas amarelados dos caminhos já traçados por brilhantes ustras, curiós, stroessners e pinochets. 

Como Joseph Goebbels, o antigo secretário da Cultura também anunciava que a arte em seu país seria heroica, ferreamente romântica, objetiva e livre de sentimentalismo, grande e nacionalista. Ou então não seria nada.

Roberto Alvim deu bandeira demais e foi para a berlinda.

Mas Regina Duarte não assumiu o seu lugar com a missão de abrir portas e janelas e iluminar o ambiente infectado. Não foi atraída pela missão civilizatória nem por loucura, a loucura de quem se descolou da realidade e já não se percebe indefesa diante das bestas-fera.

Chegou para fazer coro ao que o bolsonarismo tem de mais racional e contraditório: o manejo da memória seletiva.

Ela se cacifou para o cargo com um testemunho pessoal: quando conheceu Bolsonaro, encontrou “um cara doce, um homem dos anos 1950, como meu pai, e que faz brincadeiras homofóbicas, mas é da boca pra fora, um jeito masculino que vem desde Monteiro Lobato, que chamava o brasileiro de preguiçoso e que dizia que lugar de negro é na cozinha”.

Com essa carta de recomendação, transita hoje entre secretários que veem benefícios na escravidão e ligações entre rock e satanismo. Sua presença entre eles não era desvio; era rota. 

Como uma típica representante do governo onde embarcou, e não da classe que prometia representar, Regina Duarte vê o passado de atrocidades como um lugar sagrado, idílico, da memória afetiva. Lá, estava protegida; não tinha razões para temer.

Os mortos do período?

Ora, falar em vida é falar da morte. Um dia vamos todos morrer, não foi isso o que disse o patrão ao minimizar os enterrados do presente?

Por que desenterrar, então, os mortos do passado?

Melhor fazer um churrasco, reunir os amigos e lavar as mãos.

Na histórica entrevista à CNN Brasil, a figura do retrovisor é manejada pela atriz bolsonarista para selecionar o que pode ou não ser esquecido e apagado e pedir atenção na estrada do presente. Mas o presente tinha mais de 600 mortos confirmados em um único dia da pandemia. Entre eles, artistas. Por que falar deles, se ela mal os conhecia? A Secretaria de Cultura não é obituário.

Como um ato dramático, a militante de verde e amarelo buscou na gaveta o figurino da sinhazinha para perguntar, irritada, a uma das jornalistas da bancada: quem é você? 

Alinhada com o espírito de seu tempo, um espírito que evoca 64 como farol de 2020, Regina Duarte age como o superior que emite ordens, quer combinar as perguntas e manda prender quando é confrontado.

É quando a memória dos mortos vira peso.

Vamos celebrar a vida, pede ela. Tem tanta coisa boa para falar. Não era bom poder esquecer os mortos cantando para frente, Brasil?

Não.

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As lições de Jacinda, da Nova Zelândia, que estão sendo ignoradas por aqui http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/05/07/as-licoes-de-jacinda-da-nova-zelandia-que-estao-sendo-ignoradas-por-aqui/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/05/07/as-licoes-de-jacinda-da-nova-zelandia-que-estao-sendo-ignoradas-por-aqui/#respond Thu, 07 May 2020 07:00:17 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=2717

Jacinda Ardern, a primeira-ministra da Nova Zelândia, tem uma ou outra coisa a ensinar ao presidente Bolsonaro. Foto: Hannah Peters/Getty Images

Nem parecia o mesmo país.

Quinze dias antes de a primeira-ministra Jacinda Ardern anunciar um confinamento geral na Nova Zelândia por quatro semanas, eu caminhava tranquilamente pelas ruas de Auckland, a maior cidade “kiwi”, e Wellington, a capital, em uma série de visitas às universidades locais a convite da Education New Zealand.

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Sem nunca ter cruzado antes o Pacífico, meu impacto inicial naquela ilha de 4,8 milhões de habitantes foi perceber como a vida corria a céu aberto em bares, restaurantes, cafés e instituições de ensino. Havia poucos muros e poucas grades entre o espaço público e a sala de aula. Tudo estava “fora”; nada corria para dentro. 

Quando soube do confinamento, já no Brasil, fiquei imaginando como o governo local conseguiria mudar os hábitos em um país de tantos sotaques onde a livre circulação estava no próprio DNA. O desafio parecia ser ainda maior em uma cidade como Auckland, onde 4 em cada 10 moradores nasceram em outros países. (Em toda a Nova Zelândia, os imigrantes somam 27,4% da população.)

Foi nesse contexto multifacetado que as autoridades locais anunciaram o fechamento de fronteiras, a implantação de uma rigorosa quarentena e um programa de testagem em massa para a Covid-19.

Cerca de 40 dias depois, a Nova Zelândia conseguiu achatar a curva de contaminação do coronavírus e já pode afrouxar as normas de isolamento social. Vinte pessoas morreram desde o começo da crise – quando eu estava lá, apenas uma pessoa estava infectada.

Como foi possível?

Dawn Freshwater, vice-reitora da Universidade de Auckland, conta ao blog que informações claras e análises sistemática de dados foram fundamentais para municiar as ações do governo. Ela destaca o trabalho da microbiologista Siouxsie Wiles e a modelagem do professor Shaun Hendy, diretor do Te Pūnaha Matatini, um centro de excelência em pesquisa em sistemas complexos. “Os países com os melhores resultados no combate à pandemia, como a Nova Zelândia e a Austrália, demonstraram uma resposta rápida e agressiva à Covid-19, informada pela melhor ciência possível que os governos podem acessar, incluindo modelagem matemática e estatística de alto nível”, conta ela.

Freshwater conta que, quando a quarentena se tornou iminente, os 40 mil estudantes e 6 mil funcionários da universidade tiveram 48 horas para se adaptar a uma rotina fora dos campi. “O que poderia ter sido um pesadelo logístico foi notavelmente tranquilo. Após três dias úteis da mudança para o bloqueio de nível 4 (isolamento total), a maioria dos estudantes de seis faculdades seguiu seus cursos remotamente, graças ao esforço da equipe de TI e dos próprios estudantes e professores, que se adaptaram rapidamente a essa nova maneira de ensinar e aprender.”

A universidade, onde 30% dos graduados são da área da saúde, também lançou um serviço online que permite aos alunos acessarem aplicativos de qualquer dispositivo, e não só em laboratórios de informática. 

Peças-chave em uma das nações mais abertas do planeta, os estudantes estrangeiros que, diante da pandemia, não puderam voltar ao país no início do ano letivo receberam planos de estudo individuais. Na Universidade de Auckland, um Fundo de Dificuldade de U$ 2 milhões foi criado para ajudar os mais afetados economicamente.

Como suporte, o governo da Nova Zelândia lançou um site dedicado ao acolhimento dos estudantes internacionais. Administrado pela Education New Zealand, o site “NauMai NZ” (expressão maori que significa “boas-vindas”) possui dicas de estudo, orientações para entrevistas de emprego, informações sobre escolas e universidades e uma seção dedicada à saúde mental dos alunos.

Com emojis e inteligência artificial, os alunos podem indicar se estão tristes, com saudades de casa, solitários, depressivos ou mesmo com pensamentos suicidas. O site, então, oferece conteúdos de apoio e informa telefones de suporte psicológico 24h, além de contatos de médicos e serviços de terapia nas universidades.

A plataforma, segundo Sahinde Pala, diretora de experiência estudantil e cidadania global da Education New Zealand, tem ajudado os estudantes internacionais a se conectarem uns aos outros por meio de uma série de vídeos chamados “Stay Well, Stay Connected”. 

“Também temos estudantes hospedando sessões ao vivo [as lives] no Instagram da Education New Zealand, onde respondem a perguntas de outros alunos e fornecem suporte e informações aos alunos por meio de um grupo que criamos no Facebook, o International Student Support.”

Sem achismos, e com o apoio da comunidade científica, a postura diante da epidemia fez com que a primeira-ministra neozelandeza fosse citada como “possivelmente a líder mais eficaz do planeta” pela revista americana “The Atlantic”.

Ela já foi chamada também de “Santa Jacinda” pelo Financial Times. Firme e otimista foram algumas das características usadas para descrever o desempenho de quem, no auge da crise, cortou 20% do próprio salário e de outras autoridades durante seis meses.

Um dos momentos mais tensos foi quando o ministro da Saúde do país, David Clark, descumpriu a recomendação do governo e foi à praia com a família. Ele mesmo reconheceu: Fui um idiota.

Diante do caso, Jacinda Ardern disse que, em circunstância normais, o auxiliar teria sido demitido. Apesar da bronca, ela preferiu evitar um grande transtorno no sistema de saúde”.

Por aqui, o ministro que fazia seu trabalho foi demitido no primeiro espirro de vaidade, enquanto seu chefe batia o pé e não só furava a quarentena como virava o maior vetor de aglomerações.

A Nova Zelândia, é verdade, tem só um terço da população de São Paulo, e qualquer comparação de contextos e desafios históricos seria, no mínimo, simplista. Mas na escala de lideranças globais, Jacinda é hoje uma espécie de antiBolsonaro, presidente que passou semanas desdenhando a pandemia, desafiando as pessoas a saírem de casa e anunciando remédios milagrosos para a cura sem comprovação científica. Hoje está mais engajado em emparedar ministros e calar jornalistas do que em assumir a responsabilidade na crise. 

O resultado é desastroso. No dia em que chegou ao ponto auge da briga com o ex-aliado Sergio Moro, o país contabilizava 600 mortes (oficiais) por coronavírus em apenas 24 horas.

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“Ensaio sobre a Cegueira” previu a pandemia de 2020? http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/05/04/ensaio-sobre-a-cegueira-previu-a-pandemia-de-2020/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/05/04/ensaio-sobre-a-cegueira-previu-a-pandemia-de-2020/#respond Mon, 04 May 2020 07:00:52 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=2705

Em primeiro plano, Julianne Moore no filme “Ensaio sobre a Cegueira”. Foto: Divulgação

Quando José Saramago publicou “Ensaio sobre a Cegueira”, em 1995, a internet comercial ainda engatinhava em países como o Brasil.

Pelas ruas, ninguém andava curvado, olhando as pequenas janelas de cristal líquido na palma das mãos nem estava a um clique de saciar a dúvida sobre qualquer coisa googleável, da lista das maiores estátuas do mundo ao meme do caixão.

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A cada dois a três anos a quantidade de dados em determinada área do conhecimento, como a química, por exemplo, dobra. Foi o que lembrou o físico e curador do Museu do Amanhã, Luiz Alberto Oliveira, durante um “Café Filosófico” recente. Isso quer dizer que todo o conhecimento acumulado por alquimistas andaluzes do século IX até 2015 equivale ao que foi produzido entre 2015 e 2018. “Isso é uma curva extremamente acentuada”, explicou Oliveira. “Hoje nós temos uma variedade enorme de áreas do conhecimento operando nesse regime exponencial. Ao contrário de épocas em que o conhecimento se capilarizava lentamente, hoje o conhecimento explode incessantemente. Ninguém será capaz de ter conhecimento sobre tudo o que é publicado em física, não é nem um ano, em um dia. É impossível”, descreveu.

Essa explosão de informações parece cegar. Uma espécie de cegueira branca.

O branco é a junção de todas as cores. É a cor que reflete, não absorve, todos os raios luminosos.

Dias atrás, como num exercício de autoflagelo, tirei do plástico um DVD do filme homônimo de Fernando Meirelles inspirado da obra do autor português. Os paralelos com as notícias do dia ofuscam a vista como o sol.

“As duas epidemias, a do livro do Saramago e esta de agora, nos mostram o quão frágil é nossa civilização. Estamos apoiados em quase nada”, resumiu o cineasta em entrevista para o TAB.

No filme, um motorista provoca um congestionamento em uma grande cidade ao perceber que está cego. Um homem se prontifica a ajudar. Acaba roubando o automóvel.

Em pouco tempo, a cegueira contamina todo mundo que teve contato com a primeira vítima – inclusive o ladrão. Para evitar uma epidemia, os cegos são confinados em um hospital, entre eles o oftalmologista interpretado por Mark Ruffalo, que realizou o primeiro atendimento, e sua mulher (Julianne Moore), que finge ter sido infectada para poder acompanhar o marido. Ela é a única que enxerga naquele local.

A cegueira é democrática. Pega do atendente da farmácia ao casal de investidores financeiros.

Como em 2020, os governantes da distopia falam precipitadamente de cura. As soluções de combate são improvisadas. A cidade vira um cenário fantasma.

Apesar de investimentos em pesquisa, a ignorância se espalha na velocidade da luz. A violência vem a reboque. Covas rasas são abertas para dar conta dos corpos que ninguém pode ver ou tocar.

No isolamento, um dos poucos intervalos na tensão é quando o personagem de Danny Glover divide um rádio de pilha com os pacientes de sua ala. “Estamos precisando mesmo de música”, diz. Era a live possível da época.

A pandemia tira das pessoas o que elas têm de melhor e também o que têm de pior. “O pânico espalhou a cegueira ou a cegueira espalhou o pânico?”, pergunta o narrador.

Em uma das cenas, o personagem de Ruffalo ensaia uma aproximação com os moradores das outras alas para criar um comitê gestor entre os sobreviventes. A proposta é rechaçada por um homem armado (Gael García Bernal) que se autoproclama rei. As saídas democráticas são, assim, obstruídas onde o que vale é a lei do mais forte – conhece alguma história real de quem no meio da pandemia dobrou a aposta para forjar o seu delírio autocrático? Pois é.

O grupo armado bota todos os outros prisioneiros em uma espécie de cativeiro dentro do cativeiro. Saqueia os mantimentos e condiciona a distribuição de alimentos à subserviências dos demais. Pilhagem e violência sexual passam a fazer parte da rotina dos confinados. Os milicianos só não agridem enfermeiros ou jornalistas porque, no ambiente fictício, o abandono do Estado é total. Não há médico nem imprensa acompanhando a rotina dos infectados. Ninguém, ali, pode ver.

O personagem de Rufallo é um entreposto entre a barbárie e a civilização em confinamento. Embora se oponha aos opressores, ele se revolta com a mulher que o limpa e alimenta. Diz sentir falta da vida em casal e, como se não pudesse ser visto, se envolve com uma prostituta de sua ala.

Fora, mas não longe, da ficção, a perversidade humana em meio à pandemia é noticiada diariamente. Do presidente que mostra desdém às vítimas aos relatos de violência doméstica, o coronavírus tem acentuado os nossos traços de caráter que já não podem ser confinados. Transbordam nas ruas em forma de carreatas em frente aos hospitais com caixões, pedidos de intervenção, músicas e ordens para que os empregados voltem para as trincheiras.

No começo de abril, a Polícia Civil de São Paulo passou a investigar disparos contra um prédio em Perdizes durante um panelaço.

No estado, os atendimentos da Polícia Militar a mulheres vítimas de violência saltou de 6.775 para 9.817 (aumento de 44,9%) em março em relação ao ano passado, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A quantidade de feminicídios subiu de 13 para 19 casos. Isso sem contar os casos de abuso psicológico fartamente demonstrados.

Há relatos também de mães que criam os filhos sozinhas e não conseguem sacar auxílio emergencial do governo porque os pais, ausentes, sacaram a verba antes e se mandaram.

A perversidade não é produto exclusivo nacional. Nos EUA, Donald Trump se aproveita da pandemia e bota para fora sua xenofobia e seu tino para os negócios (ele é sócio de uma empresa produtora de cloroquina, da qual virou garoto-propaganda). Na Colômbia, moradores de um condomínio, com medo da contaminação, ameaçaram matar a mulher e os filhos de um médico vizinho caso ele não se mudasse de lá.

Ao mesmo tempo, correntes de solidariedade, redes de escuta, ativismo maker para abastecer hospitais com equipamentos, mutirão de arrecadação de alimentos e campanhas de conscientização, com aplausos aos médicos na linha de frente, mostram que há mais Juliannes do que Gaels pelo mundo.

Antes eclipsados na cegueira branca das redes, cientistas e artistas voltam a ser ouvidos para apontar caminhos e sentidos para além das feitiçarias dos gurus eletrônicos.

A cegueira branca é a metáfora de um impasse do nosso tempo: a ignorância e o conhecimento dividem as alas do mesmo hospital onde tratamos as retinas feridas pela hiperinformação.

A cegueira branca do século 21 é a cegueira dos que optam por não ver.

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E se o método Bolsonaro de assumir responsabilidade virar moda? E daí? http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/04/30/e-se-o-metodo-bolsonaro-de-assumir-responsabilidade-virar-moda-e-dai/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/04/30/e-se-o-metodo-bolsonaro-de-assumir-responsabilidade-virar-moda-e-dai/#respond Thu, 30 Apr 2020 07:00:59 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=2693

Foto: Isac Nóbrega

E daí?

Foi o que disse Jair Bolsonaro quando perguntado sobre o número de brasileiros mortos na pandemia que ele um dia chamou de “gripezinha”.

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Deve ser um novo slogan de governo, já que a mesma pergunta-resposta foi usada na véspera para justificar a escolha de um amigo do filho investigado para comandar a Polícia Federal. E daí?

O presidente dá o exemplo.

Se a moda pega, vai ser uma pandemia de incompetência justificada.

Se o médico esquecer o bisturi no paciente? E daí? Não pode agora? O operado já estava velho, tinha doença crônica e querem que o médico faça milagres?

E se o juiz julgar a causa dos parentes? Qual o problema? Antes os parentes do que gente estranha, não é mesmo?

Fico imaginando o que pensariam meus editores e (poucos, é verdade) leitores se hoje eu simplesmente avisasse que não vai ter crônica ou análise do que está acontecendo no Brasil. Era minha obrigação, sou pago para isso, mas e daí?

O que está acontecendo não é da minha responsabilidade. Está morrendo gente? Está.

Mas todo mundo vai morrer um dia.

Tem gente chorando?

Tem. E daí?

Lamento, mas o que posso fazer?

Não sou presidente. Nem que fosse. Presidente é Messias, mas não faz milagre.

Um dia vou morrer também. Até lá, posso usar a confiança que me deram para escrever num espaço de alta visibilidade para tratar de negócios e interesses particulares.

Por que não?

A gente precisava dar um up na economia brasileira e por isso quero contar aqui que sou agora garoto-propaganda de óleo de cobra, o melhor remédio para qualquer resfriadinho, inclusive coronavírus. São duas colheradas por dia e pronto. Minha vó que fez.

Invejosos dirão que não tem comprovação científica, mas isso é só porque não pedi licença ao establishment. Órgão regulador está aí pra ser implodido, não pra regular os negócios da família empreendedora brasileira.

(Os interessados em óleo de cobra, meu emplastro Pichonelli, podem deixar o número do telefone na caixa de comentário e nós entraremos em contato. Agradecemos, desde já, a preferência).

Queria fazer outro merchandising aqui, e trazer entrevistados especiais para discorrer sobre os atributos morais, literários e estéticos do autor (Amigos, claro. Queriam que fosse quem? Inimigos?). Mas preciso desligar o computador.

Em casa, tenho agora que me dobrar nos negócios, entreter e cuidar do meu filho e ainda dividir as tarefas domésticas.

Um dia essa patifaria vai acabar.

Já avisei que amanhã vou furar a quarentena, desfilar em carro de som, mandar empregado voltar para a trincheira e dançar com caixão simbólico com meus memes ambulantes em frente do hospital.

Minha “conge” já avisou que assim não dá, mas vou fazer o quê?

Já falei pra ela: bom era no tempo do Lula, né? Bom era o tempo da vó dela. Quando o PT roubava ela não falava nada.

Estamos há mais de mês falando em morte, morte, morte, e isso não está ajudando as senhorinhas que entram neste site UOL procurando um refresco, uma palavra de conforto, uma mensagem de otimismo ou um meme de bom dia abençoada que só encontram no WhatsApp, tá ok?

Então, para animar, vou contar que, sim, vou dar cerveja para meu filho de 6 anos para ver se ele pelo menos dorme depois do almoço e me deixa em paz com o controle remoto.

O menino já tem idade para isso, não tem coitadismo aqui, não. Mais dia, menos dia, vai descobrir que o mundo é isso mesmo, um eterno cada um por si com pequenos intervalos para a trollagem. Por que, então, não ensinar agora?

Daqui uns anos, ele vai vender óleo de cobra com o pai e a vó. Já mandei avisar a escola que pra lá ele não volta.

Escola, infelizmente, só serve para drenar dinheiro das famílias e ensinar ideologia de gênero. Querem transformar minha casa em uma Venezuela e isso não vou permitir.

Na minha casa mando eu.

Os vizinhos reclamam que estou trazendo muito amigo para casa.

AHAHAHAH.

Queriam que eu trouxesse quem? Inimigos?

Trago gente da minha confiança, a casa é minha, comprei vendendo muito óleo de cobra e não posso agora dar festa com meus sócios?

É o que eu falo: o politicamente correto está matando o Brasil.

O condomínio quer me obrigar a usar máscara na área comum. Era só o que me faltava. Vou comer meu pão com leite condensado como? Pelo olho?

O síndico vem falar de quarentena. Está  mancomunado com o João Doria, que está mancomunado com o Witzel, que está mancomunado com os policiais da Mariela, que estava mancomunada com a China, que está mancomunada com o comunismo e agora quer limitar o direito de ir e vir dos perdigotos do cidadão de bem.

Estou falando tudo isso porque não estou a fim de comentar notícia alguma, não estou preocupado em dar satisfação para ninguém, nem para quem me confiou este espaço e amanhã pode dizer que jornalismo profissional não é lugar de moleque. Sabe o que eu vou responder? E daí?

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Aventura bolsonarista de Sergio Moro é exemplo do que não fazer na carreira http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/04/25/aventura-bolsonarista-de-sergio-moro-e-exemplo-do-que-nao-fazer-na-carreira/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/04/25/aventura-bolsonarista-de-sergio-moro-e-exemplo-do-que-nao-fazer-na-carreira/#respond Sat, 25 Apr 2020 07:00:55 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=2680

Jair Bolsonaro e o agora ex-ministro Justiça Sergio Moro. Foto: Agência Brasil

Era Eduardo Cunha, e não Jair Bolsonaro, o grande adversário do PT durante o impeachment de Dilma Rousseff.

Isso o então juiz Sergio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, podia dizer até pouco tempo: que não olhava para colorações políticas quando condenava à prisão tanto o ex-deputado do PMDB, que abriu o processo contra a petista, quanto o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Afinal, a lei é para todos e blablablá. Quem quisesse acreditar que acreditasse, mas esta é outra conversa.

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O fundamento das decisões e a proximidade com os “parças” do Ministério Público Federal revelada na Vaza Jato já foram suficientemente destrinchados por quem tem mais gabarito do que este reles escriba, mas o fato é que Moro, ao aceitar trabalhar para Jair Bolsonaro, amarrou seu destino em uma carroça que tinha tudo para desandar e desandou. 

Na união, ele emprestou ao governo recém-eleito seu prestígio de juiz “implacável contra tudo e contra todos” e ganhou absolutamente nada em troca – nem carta-branca para combater o crime, nem indicação ao Supremo Tribunal Federal nem vaga de vice na chapa presidencial de 2022, uma aposta caso a joint-venture entre o símbolo máximo da Lava Jato e o moralismo messiânico de Bolsonaro triunfasse.

Não triunfou.

Antes mesmo da posse, já eram conhecidos os cheques e as estranhas transações de Fabrício Queiroz, homem de confiança da família que sugou o hoje senador Flávio Bolsonaro para uma investigação sobre rachadinha e funcionários fantasmas no tempo em que era assessor parlamentar da Assembleia Legislativa do Rio.

Em público, Moro sempre evitou entrar em choque com o presidente. De profissional implacável, aos poucos foi ganhando a feição subalterna, entre omisso e obediente, e desaparecia enquanto o chefe passava vergonha furando as recomendações da Organização Mundial da Saúde e chamava a maior pandemia do século de “gripezinha”. Foi um bom advogado do patrão durante um ano, três meses e 24 dias, a ponto de Rosângela Moro, sua “conge”, dizer que olhava para os dois e via “uma coisa só”.

Moro só resgatou a capa de heroi quando Bolsonaro decidiu mexer no comando da PF. Aí já era demais. Moro precisava manter a fama de mau – ao menos contra os criminosos que habitam longe de Rio das Pedras e dos gabinetes vizinhos, como o do agora ex-colega que pediu perdão a Deus por usar caixa 2 e ficou de bem com a consciência.

Moro era juiz de primeira instância havia mais de duas décadas quando viu uma mula encilhada passar na frente de casa e oferecer carona até Brasília. Por alguma razão, trocou a estabilidade e o que restava da fama, justa ou não, por uma aventura. Ou uma promessa de trampolim, como acusa agora o presidente. Moro nega. Garante queria apenas combater criminosos ao lado de um defensor do pior dos crimes, a tortura.

Bolsonaro já tinha uma coletânea de ofensas a opositores e flertes com o autoritarismo mais cruel quando o ex-juiz tomou um caminho irrevogável de aceitar trabalhar para o beneficiado de uma ordem sua. (Falo da prisão de Lula, não dos grampos e vazamentos selecionados de conversas da Presidência).

Faça o que fizer, tudo isso será levado em conta por onde for.

Alvo da ira da esquerda, dos professores de direito e, agora, dos bolsonaristas radicais, Moro pode até virar presidente ou ministro do STF em breve, mas para isso terá de ser incubado em alguma plataforma política que aceite concorrência — ou tope ver mensagem privada jogada no ventilador na primeira oportunidade.

Pode até ser, mas todo cálculo agora é delicado. Inclusive para a parte interessada.

Sabe aquele papo de mudar o mindset, respirar novos ares, aceitar novos desafios? Pois é. A aventura bolsonarista de Sergio Moro, tão inflável quanto a vaidade de figurar nas festas e capas de revistas, é hoje apenas um case a ser lembrado nos futuros cursos de gestão de carreira. Um case do que não fazer para subir na vida.

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