Matheus Pichonelli http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal. Thu, 10 Sep 2020 07:00:14 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Gregorio: mito do carioca malandro só compete com o do paulista gestor http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/09/10/gregorio-mito-do-carioca-malandro-so-compete-com-o-do-paulista-gestor/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/09/10/gregorio-mito-do-carioca-malandro-so-compete-com-o-do-paulista-gestor/#respond Thu, 10 Sep 2020 07:00:14 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=3197

(iStock)Caro Gregorio.

Li sua crônica sobre a ingenuidade vendida como malandragem pelo carioca e quase me senti indenizado por meus quase 38 anos vivendo em solo paulista. Quase. Involuntário, meu sorriso no canto da boca, notei logo, era pura inveja da grama do vizinho. No caso do Rio, não basta a grama ser mais verde. Tem que ter o Cristo, a lagoa, a Urca, o bondinho e o Chico Buarque. 

O Monumento às Bandeiras mandou lembranças.

Não tem SUV entalada na garagem que dê conta do recalque.

Como paulista, minha relação com as cidades dotadas de belezas naturais, como o Rio, é a mesma do sujeito frustrado no amor que associa a beleza alheia à superficialidade. No auge do autoengano, digo a mim mesmo que sou feio, mas tenho excelência em gestão. Como se Crivella, Witzel, Cabral e grande elenco só pudessem florescer por aí.

Ah, vá.

A conversa pra gado dormir nos faz suportar o choque térmico de sair de um aeroporto ao lado da Ilha Fiscal e pousar num lugar que, do alto, parece um banheiro de ladrilho estourado para reformas. Isso não é azar. É projeto.

Você diz que não tem brasileiro mais inocente do que o carioca, que acredita em esquemas de pirâmide e nos mercadores da fé incrustados na política. Jamais diria isso, pois me falta lugar de fala e me sobra congêneres tipicamente paulistas. 

Nosso orgulho paulista se esgarça no primeiro passeio pela Marginal Tietê, o cartão de visitas da capital. Quando cheguei por ali eu nada entendi da dura poesia concreta da propaganda antienchente vendida pelo bom-mocismo tucano. Na terra da garoa todo dia é dia de obras e alagamento, nem sempre nesta ordem.

Aqui acreditamos em qualquer um que vista terno, vá à missa aos domingos e fale pausadamente no nosso ouvido: dá-para-fazer, não-sou-po-lí-ti-co, sou-do-empreendedorismo. Sabe tara? 

Pois aqui já nascemos com esse fetiche gravado no DNA. Antes da primeira esgoelada, os médicos batem na nossa bunda com uma régua de metas a serem batidas e contam para nossas mães: “Parabéns, é um gestor”.

E assim gerimos o tédio das vidas adultas confinadas olhando para prédios envidraçados, engolindo cerveja defumada no óleo diesel e dizendo: “Um dia chego lá em cima”. 

Nossa felicidade é um patinete alugado na saída da Faria Lima e todos os sonhos cabem na mochila.

De patinete em patinete, atualizamos a mística dos ancestrais que nos diziam: “Conduzimos, não somos conduzidos”. Pois somos a locomotiva do Brasil. E dos cartéis. E das linhas tortas do metrô. Da merenda. Da farinata. Dos fiscais do ISS. E dos amigos que não podem ser largados feridos no acostamento do Rodoanel.

Conduzindo, abrimos estradas pelo interior mostrando que somos capazes de fazer compras dentro do shopping sem precisar sair do carro.

Nosso orgulho paulista é o orgulho do povo eleito, que acelera e atropela.

Esse orgulho já elegeu excelências empreendedoras como Pitta, Maluf e Kassab para a prefeitura da capital. E, entre os dez representantes mais votados do estado para deputado, temos hoje um herdeiro chamado de 02, uma cosplay de jornalista, um dublê de defensor dos direitos do consumidor, um falso profeta e um ex-palhaço eleito dizendo que pior que tá não fica. Tá bom pra você?

Na última eleição, parte deste povo eleito ficou revoltado com a diferença do desempenho no Nordeste entre seu candidato favorito e o candidato opositor. “Depois vêm pedir emprego aqui”, diziam aos montes, em suas redes, os autodeclarados empreendedores que até outro dia atribuíram a falência de seus negócios à cobiça dos outros estados e ao Bolsa Família, que tornou mais difícil encontrar quem queira trabalhar.

Não se culpem demais por vocês terem se tornado berço eleitoral de um deputado mediano que da ponte Barra-Rio das Pedras foi alçado à Presidência. Ele também é coisa nossa. Bolsonaro é bandeirante de corpo e espírito. Nasceu e se criou por aqui e só chegou onde chegou porque convenceu os herdeiros do baronato de que por trás de um coração brucutu havia um gestor capaz de ler Keynes no original, zerar o déficit público em 12 meses e privatizar até “Os Orixás” de Djanira.

Deu tão certo que agora, para controlar o preço dos alimentos, ele precisar pedir ao dono da venda que colocou bandeira do Brasil e do estado de São Paulo na fachada para abrir mão do lucro em nome do patriotismo.

Malandro é malandro, gestor é gestor. Mané é outra coisa, meu.

]]>
0
De Flordelis aos ‘guardiões’, Brasil cozinha sua teocracia em fogo brando http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/09/07/de-flordelis-aos-guardioes-brasil-cozinha-sua-teocracia-em-fogo-brando/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/09/07/de-flordelis-aos-guardioes-brasil-cozinha-sua-teocracia-em-fogo-brando/#respond Mon, 07 Sep 2020 07:00:48 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=3178

Flordelis (Michel Jesus/Câmara dos Deputados/AFP)

O Irã é uma teocracia fundada e administrada sobre controles sociais rígidos. 

A Revolução Islâmica, instalada pelo aiatolá Khomeini há mais de 40 anos, tornou obrigatório o uso de véu para mulheres, segregou os espaços públicos por sexo, censurou a mídia para conter as influências ocidentais e proibiu o consumo de bebidas alcoólicas. Tudo foi zelosamente implementado, às vezes de forma bruta, pela polícia da moralidade e as forças paralimitares do país, como escreveu recentemente o repórter do New York Times radicado em Teerã Thomas Erdbrink. 

Veja também

No relato, Erdbrink contou que, ao longo dos anos, esse controle severo da vida social foi criando brechas e se flexibilizou até se aproximar do que nós, latino-americanos inspirados no american way of life, chamamos de normalidade.

É lá, neste espaço onde autoridades políticas e religiosas ainda se confundem, que se passa o filme “O Apartamento”, que está no catálogo da plataforma de streaming Belas Artes à La Carte e que vi pela primeira vez na semana passada.

Dirigido por Asghar Farhadi, o longa lançado em 2016 acompanha a mudança de um casal de atores para um novo apartamento após o prédio onde eles moram ser interditado sob risco de desmoronamento. Para bons cineastas, e Farhadi é um deles, meia metáfora sobre casamentos e sociedades em crise basta.

O novo lar pertence ao diretor da companhia teatral em que eles trabalham. A mudança acontece enquanto eles encenam a peça “A Morte do Caixeiro Viajante”, de Arthur Miller.

É entre um ambiente e outro que o Estado teocrático se embrenha até a medula de seus personagens.

O filme, em tese, não é sobre este Estado, mas este Estado está presente na sala de aula só para meninos, na menção à censura de uma cena da peça e na roupa vermelha de uma atriz que deveria representar uma prostituta nua.

Está também no banheiro do apartamento dos atores que, de tanto silenciar, perderam a capacidade de falar de si.

Naquele apartamento, os novos moradores tateiam no escuro tentando descobrir quem é a antiga misteriosa moradora que saiu do local às pressas e deixou para trás um quarto trancado e lotado de quinquilharias, com brinquedos e desenhos infantis.

Por mais que seja pressionado, o dramaturgo/proprietário se nega a dar qualquer informação sobre a ex-inquilina, de quem os vizinhos recriminam uma rotina dita pecaminosa.

Um dia, a atriz volta mais cedo para casa e autoriza a entrada de um homem estranho pensando que era o marido. Este, quando chega de fato, observa um rastro de sangue do banheiro até as escadas. É levado até o hospital, onde os médicos tentam conter um ferimento na cabeça da esposa.

Cena do filme “O apartamento”

O episódio traumático é envolto em silêncio. O pouco da raiva que conseguem elaborar é expresso em falas e atuações não ensaiadas na peça.

Diante da censura, os personagens criam seus próprios monstros para chegar aos culpados por suposição. Ela pede para não envolver a polícia na história. Eles tentam seguir em frente, mas os fantasmas surgem em todos os cômodos da casa.

Da tragédia que se desenha, está mais claro para os espectadores do que para os personagens que tudo poderia ter sido resolvido de outra forma se a cena não fosse acobertada pela vergonha em um país onde toda a nudez será castigada.

Tudo entra em uma zona nebulosa porque ninguém sabe quem vivia naquele quarto trancado. 

Diferentemente do Irã, uma república teocrática que se abre aos poucos, o Brasil é uma república democrática que tem se fechado a cada dia.

Um aiatolá que se escandalizasse com nosso Carnaval antes e depois de 79, quando respondíamos à censura com porchanchada, talvez se chocasse ainda mais sabendo como, em banho maria, a vergonha e a censura passaram a integrar também o léxico das relações sociais no Brasil contemporâneo.

Neste país em transição, o presidente fala sem cerimônias em escolher um ministro “terrivelmente evangélico” para o Supremo Tribunal Federal, uma ministra de Direitos Humanos quer legislar sobre direitos reprodutivos, um prefeito manda recolher HQs com cenas de beijo gay em uma Bienal, milícias e guardiões da religião promovem ameaças e censuras em hospitais, as armas, e não os livros, viraram objetos de desejo pessoal, a Justiça flerta com censura prévia, comediantes são atacados por canais oficiais, a palavra “gênero” virou maldição nas escolas, o uso de termos não religiosos em livros didáticos é interpretado como “ataque à fé” e uma criança é obrigada a entrar pelo porta-malas de um automóvel no hospital para fugir de fundamentalistas com a Bíblia na mão e cumprir sua vontade de não levar em frente a gravidez resultante do estupro sistemático que se perpetua no silêncio.

Vítimas como ela agora são coagidas a contar à polícia o que aconteceu se quiserem ter acesso ao sistema público de saúde, o que na prática perpetua ainda mais o silêncio.

Mais do que dramas privados, há escândalos desta tragédia pública que escancaram o espírito de uma época. É o caso do assassinato do pastor Anderson do Carmo que, por trás das pregações e engajamento missionário na criação de 50 filhos adotivos, mantinha uma rotina incestuosa e abusiva que levou a mulher, a deputada federal Flordelis dos Santos de Souza a encomendar, segundo a polícia, o seu destino. Tudo para não escandalizar o nome de Deus diante de uma possível separação.

Sem que ninguém anunciasse, essa república fundamentalista em que o Brasil está fincando as suas bases já pauta silêncios, decisões e tragédias nas estruturas trincadas das melhores famílias.

]]>
0
Fala de Bolsonaro sobre vacina é teste positivo para ignorância http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/09/03/fala-de-bolsonaro-sobre-vacina-e-teste-positivo-para-ignorancia/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/09/03/fala-de-bolsonaro-sobre-vacina-e-teste-positivo-para-ignorancia/#respond Thu, 03 Sep 2020 07:00:13 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=3166

(Eduardo Anizelli/ Folhapress)

O general que na pandemia assumiu interinamente o Ministério da Saúde nomeou, na semana passada, um veterinário para comandar o Departamento de Imunizações e Doenças Transmissíveis

Se tudo der certo (para ele), o especialista em prevenção e controle de doenças em animais será responsável pelo programa nacional de imunização dos brasileiros que falam e pensam quando as primeiras doses da vacina contra a covid-19 estiverem prontas para distribuição.

Isso se os humanos que pensam ser quadrúpedes permitirem.

Veja também

Quatro dias depois da escolha, uma apoiadora pediu ao presidente Jair Bolsonaro “não deixar fazer esse negócio de vacina, não, viu? Isso é perigoso”.

Com os dedos, Bolsonaro fez uma espécie de continência à interlocutora e saiu pela tangente: “Ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina”.

No Twitter, a Secretaria de Comunicação do governo endossou a conversa. Prometeu recursos para estados e municípios, recursos para saúde e economia. Prometeu “TUDO” em caixa alta, “mas impor obrigações definitivamente não está nos planos”.

Para mau comunicador, meia confusão basta.

Na mesma semana, o Brasil passava dos 120 mil mortos por coronavírus, número 60 vezes maior do que previa um dos principais conselheiros do governo para a área da saúde. O boicote aos esforços pelo isolamento tinha como meta “salvar a economia”. O rombo de quase 10% do PIB do segundo trimestre mostra que não conseguiu nem uma coisa nem outra.

No sexto mês da pandemia, Bolsonaro decidiu brincar com o sistema de imunização do país com um aceno aos grupos antivacina, um flerte com o atraso em pleno século 21. Não existe cura, afinal, contra a ignorância.

Este flerte, que contraria uma lei do próprio governo, já chega com sinal trocado. “Impor obrigações” aos cidadãos, aqui, pode ser lido como uma tentativa do governo de fugir de seus deveres e responsabilidades em relação à saúde pública. Os mercadores da salvação paga agradecem, enquanto os bolsonaristas mais fanáticos já preparam memes ligando o Zé Gotinha ao comunismo.

De duas uma. Ou Bolsonaro não sabe o que diz ou sabe muito bem, e isso só piora a situação. Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente, que o capitão gostaria de mandar para a latrina, “é obrigatória a vacinação das crianças nos casos recomendados pelas autoridades sanitárias”.

Essas autoridades passaram a quarentena tentando vencer o vírus e as sabotagens explícitas da maior autoridade política do país.

O saldo está aí.

Em entrevista recente ao podcast Café da Manhã, da Folha de S.Paulo, a professora de Saúde Pública da USP Deisy Ventura lembrou que qualquer manual básico sobre gestão de emergências tem na comunicação de risco um pilar fundamental. Isso se faz com discurso unificado e clareza e deve reforçar a confiança nas autoridades sanitárias. “Na comunicação somos um desastre completo, inclusive por conflitos e partidarização de questões que não têm nenhuma relação com política no sentido eleitoral”, disse a especialista.

Em alguns casos, a comunicação oficial não era só errática. Era mentirosa, como o post sobre uma suposta queda no número de mortes por doenças respiratórias no Ceará que o Instagram precisou cobrir com o selo de fake news.

No Brasil, a vacinação foi responsável pela erradicação da varíola e da poliomielite (paralisia infantil), mas isso parece um detalhe em um tempo em que, para evitar a divulgação de más notícias, é preciso matar o mensageiro –ou impedir que faça seu trabalho, como tentaram os Guardiões do Crivella, amigo do peito do presidente, no Rio.

Em abril, quando pouco mais de mil pessoas já haviam morrido por coronavírus no país, Bolsonaro apelou ao seu “direito de ir e vir” ao provocar uma das muitas aglomerações que promoveria ao longo da pandemia. Ele chegou a vetar a obrigatoriedade do uso de máscaras em espaço público, para alegria de quem confunde liberdade individual e direito à autossabotagem com direito a ser mau cidadão e infectar outras pessoas.

Tudo em nome da liberdade, conceito no vocabulário bolsonarista que não se estende à autonomia da Polícia Federal, à vontade da maioria dos procuradores do Ministério Público ou a ministros indispostos a vender a cloroquina e o armamentismo como solução para todas as dores. 

Esse conceito se aplica menos ainda à liberdade de professores abordarem temas como educação sexual em sala de aula, de bancos públicos dialogarem com grupos LGBT, de servidores se manifestarem como antifascistas nas redes ou de uma criança de dez anos interromper a gravidez após ser sistematicamente estuprada pelo tio. Para pessoas como ela, liberdade é uma blitz de fundamentalistas na frente de um hospital.

]]>
0
Sem aplausos, com buzinas: o dia em que levei meu filho ao teatro drive-in http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/08/31/sem-aplausos-com-buzinas-o-dia-em-que-levei-meu-filho-ao-teatro-drive-in/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/08/31/sem-aplausos-com-buzinas-o-dia-em-que-levei-meu-filho-ao-teatro-drive-in/#respond Mon, 31 Aug 2020 07:00:51 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=3148

Foto: Cine Drive Campinas

Sábado retrasado fomos ao teatro.

Foi uma surra de “novo normal”.

Não, nossa cidade ainda não avançou para a faixa azul da pandemia, as pessoas seguem se contaminando a rodo e já não lembro da última vez que sentei numa poltrona e ouvi uma gravação pedir para desligar bips, pagers e celulares. Talvez tenha sido no tempo em que alguém ainda usava bip.

Um dia no teatro infantil drive-in. (Matheus Pichonelli)

Mas, depois de meses trancafiados em casa, não parecia má ideia, nem a mim nem à mãe, trancafiar uma criança de sete anos em um automóvel por cerca de duas horas. Ou que talvez, só talvez, nosso filho não estivesse tão animado assim para assistir à peça inspirada em uma história da Disney que ele nunca ligou. Fosse uma projeção de jogos de luta no videogame em tela grande, vá lá.

Mas não custava tentar, e ao entrar no quinto mês de pandemia qualquer atração parecia mais interessante do que as paredes do meu quarto. Nem que fosse para conferir a encenação dos melhores lances de Athlético Paranaense e Palmeiras, um dos maiores horrores já transmitidos pela televisão em tempos recentes.

E fomos.

Não era exatamente uma vantagem poder ir ao teatro com a mesma roupa que usava desde a noite anterior, mas era um alento.

Veja também

Para entrar na arena, em formato drive-in, foi preciso passar por um túnel sanitário onde uma equipe estrategicamente localizada nos pontos de acesso, tirava, com uma máquina, a nossa temperatura e distribuía um folheto com um QR Code. Era o código para chamar comida pelo aplicativo.

Parecia que íamos entrar em alguma plataforma futurística, mas era só o estacionamento de um shopping da região.

Lá, bastava selecionar os produtos pelo celular e alguém com face shield brotava da terra contaminada com iguarias como pipoca, balas, chocolates e até cerveja dentro da mochila. Pensei em comprar algumas, mas me censurei por causa do valor, o suficiente, em outros tempos, para comprar o terreno onde seria realizado aquele espetáculo. Não valia o preço da logística para sair do carro caso, sob o efeito do diurético, precisasse ir ao banheiro daquela trincheira. 

Pois, em vez de lanterninhas, era preciso chamar alguém por aplicativo para entrar na fila de banheiros high tech ao lado do palco.

Tudo ficou ainda mais complexo quando pensamos na engenharia de tráfego necessária para dar a marcha a ré e desfazer a fileira de carros ao redor quando nosso filho começou a ficar agitado demais naquele ambiente. Com DEZ MINUTOS de espetáculo. Nem a cúpula da CET daria conta do abre-e-fecha, entra-e-sai sobre rodas. 

Foi uma rápida e dolorosa negociação, que terminou com um acordo em termos justos. Ele nos dava o silêncio e a mãe dava a ele, além de pipoca (TRINTA E OITO REAIS O COMBO COM ÁGUA E CHOCOLATE), uma folha para desenhar e acesso irrestrito a tudo o que tinha no celular, inclusive YouTube e o joguinho do Super Mário Run.

Acho que foi neste momento que os atores perceberam que nosso carro parou de chacoalhar.

Os sons do aparelho, é verdade, competiam com os da frequência do rádio, por onde podíamos ouvir o que acontecia na peça.

Os ruídos incomodavam menos do que o sol de um fim de tarde sem nuvens, cujos raios refletidos no vidro dianteiro nublavam qualquer visão. Mesmo para nós, estacionados em um cercadinho de ferro na segunda fileira. 

O palco tinha o auxílio de dois telões e um cenário virtual que trocava conforme os personagens mudavam de ambiente. Uma hora estavam na floresta. Outro, na praça. Depois, em um castelo. Nos outros carros, víamos crianças escalando o banco de passageiros ou embrulhadas no cobertor. Era o fim de semana mais gelado do ano.

Apesar dos contratempos, os atores seguiam de pé. Encenavam, cantavam e dançavam com figurinos propícios a uma tarde de verão. 

O termômetro marcava 15 graus, mas fora do automóvel a sensação térmica não devia ser melhor.

A certa altura, minha atenção competia com uma preocupação algo paternal de quem via a temperatura despencar conforme anoitecia. Eles não estão com frio? Não vão pegar gripe desse jeito? Se alguém espirrar a carga viral chega até aqui?

E ventava. Muito. Ventava tanto que as rajadas cortavam os diálogos ecoados pelos microfones. “Eu gostaria de dizer que Fuuuuuuuuu”. “Mas não é certo você Faaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa”.

Em um espetáculo drive-in, o nível de atenção não é o mesmo de quando nos incubamos em uma “caixa”, fechada em quatro paredes, e a iluminação se concentra no palco. Ao fundo, as árvores chacoalhavam. As varandas dos prédios em volta se iluminavam. E não tinha como não perguntar por que diabos chegavam tantos carros no shopping num sábado de pandemia.

Com os espectadores fechados numa cápsula automotiva, os atores não podiam ouvir nem vaias nem aplausos. Pediam, em vez disso, buzinas. 

Elas pipocaram em diversos momentos do espetáculo, um clássico de outro século coalhado de referências ao Brasil atual –um personagem se negava a atravessar uma floresta com medo de lobos e do coronavírus. Se fechássemos os olhos, poderíamos matar saudade dos tempos de engarrafamento na marginal.

Meu mau humor só foi dobrado quando, ao fim do espetáculo, entre lágrimas, um dos atores da trupe agradeceu o esforço de todos para estarem lá: “Não foi do jeito que queríamos. Queríamos ter voltado antes e não podíamos, mas estamos aqui. Sem aplausos, mas com buzinas, voltamos a emocionar e nos emocionar”.

Naquele momento, já era começo de noite. O termômetro marcava 13ºC, com viés de baixa para a próxima atração.

A opção drive-in pode não ser o melhor dos programas para quem tem filhos agitados e acelerados, como o nosso. Mas tem todo nosso respeito (e buzinas) quem, apesar dos perrengues e das condições sanitárias possíveis, faz de tudo um pouco para o show continuar.

]]>
0
Bolsonaro: criança que trabalha aos 10 construirá um robô aos 20? http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/08/27/bolsonaro-crianca-que-trabalha-aos-10-construira-um-robo-aos-20/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/08/27/bolsonaro-crianca-que-trabalha-aos-10-construira-um-robo-aos-20/#respond Thu, 27 Aug 2020 07:00:24 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=3135

(iStock)Das dez maiores companhias do planeta em 2020, sete eram gigantes da tecnologia. As demais –dois conglomerados financeiros e uma grande rede de supermercados– já não vivem nem se conectam aos clientes e acionistas sem inteligência artificial.

O impacto dessas empresas no mundo contemporâneo começou a ser desenhado muito antes, quando seus fundadores, programadores e engenheiros ainda estavam na faculdade. Um deles lançou sua plataforma em 2004 entre uma aula e outra em Harvard e, oito anos depois, sua plataforma possuía 1 bilhão de usuários ativos, rendendo ao seu criador uma fortuna avaliada, à época, em US$ 12 bilhões –e multiplicada por cinco na última contagem.

Veja também

Não seria exagero afirmar que todos esses gênios do mundo moderno em algum momento chegaram à vida adulta sabendo somar ou ler notícias ao menos até o segundo parágrafo. Isso seria impossível se tivessem passado parte da infância e da adolescência carregando carvão em alguma mina subterrânea de suas cidades.

Na última terça-feira (25), Jair Bolsonaro disse sentir saudade dos tempos em que “menor” podia trabalhar.

O presidente, para quem o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) deveria ser rasgado e jogado na latrina por estimular a “vagabundagem e malandragem infantil”, acredita que hoje as crianças podem tudo, inclusive “cheirar um paralelepípedo de crack sem problema algum”. Puro populismo, como escreveu a Maria Carolina Trevisan em seu blog.

Alguém deveria perguntar, além das razões para alguém depositar R$ 89 mil na conta da primeira-dama, em que país vive o presidente e do que exatamente sente saudade.

Se quisesse estimular o saudosismo, ele não precisaria esperar algum novo gênio do Vale do Silício inventar uma máquina do tempo para voltar à era de ouro do progresso nacional. Bastaria pegar seu avião presidencial e pousar às margens de uma rodovia entre Papagaios e Pitangui, no interior de Minas, e ouvir a história das crianças e dos adolescentes que, sem aula na pandemia, tiveram de aumentar a carga de trabalho enrolando cigarros de palha.

Neste local, visitado pelo repórter Daniel Camargos, do Repórter Brasil, é possível ganhar R$ 100 enrolando até 2.000 cigarros, com muitas dores nas costas e nenhum equipamento de proteção. Lá os tempos são de ouro –para quem contrata o serviço.

Não são casos isolados, e estou falando de trabalho, trabalho, não de “ajudei meus pais nas férias”.

Enquanto dedicam tempo e esforço em um trabalho de repetição manual, jovens de idades semelhantes, longe dali e com acesso amplo aos livros que o ministro Paulo Guedes (Economia) quer encarecer, já plantam as sementes de um mundo que em breve pode ser povoado por humanoides, carros voadores, vacinas para novos coronavírus e máquinas capazes de realizar cirurgias com precisão –tudo isso conectados à internet de quinta, sexta, sétima e infinita geração que um dia vamos precisar entender para usar ou construir.

Adepto do penso, logo desisto, Bolsonaro talvez nunca tenha se perguntado o que faziam na infância seus conterrâneos hoje reconhecidos por desenvolver inteligência artificial para acompanhantes robóticos ou por criar superespécies de vegetais, resistentes ao frio, à seca e a pragas, com ajuda da engenharia genética.

Quando a gente conversa com um desses pesquisadores para as reportagens do Tilt, a editoria de tecnologia do UOL, uma pergunta inevitável é o quanto eles precisaram estudar para criar as bases desse fantástico mundo novo que se desenha e já está acontecendo (não sei vocês, mas para mim é incrível, quase absurdo, pensar que humanos são capazes de usar uma enzima de bactéria para editar o DNA dos organismos, inclusive vírus ou animais, em técnicas revolucionárias como o Crispr. Pois isso já acontece no Brasil).

Qualquer grande líder contemporâneo sabe que tecnologia e inovação são as duas únicas pernas necessárias para seu país dar o salto que este novo mundo exigirá. O sarrafo está próximo da lua, e ela em breve pode até ser habitada.

Bolsonaro prefere citar como exemplo a criança que foi um dia e precisou trabalhar aos dez anos. 

O adulto que se tornou não tem hoje o menor apreço pelo saber científico, inclusive o dos médicos que alertavam para o desastre em uma pandemia que ele ajudou a transformar em carnificina.

Como presidente, ele poderia citar as crianças que não têm acesso à escola, se desdobram vendendo bala no farol e viram alvo fácil do tráfico.

Se tivesse um pouco mais de generosidade e curiosidade científica para saber o que trazem os livros, aqueles objetos de comunistas que hoje pretende taxar, o presidente que passou 30 anos na Câmara sem produzir absolutamente nada saberia qual é a probabilidade de uma criança que só sabe enrolar cigarro aos dez anos de idade construir um robô aos 20? Qual a chance de não seguir enrolando cigarro aos 80, se chegar viva até lá.

Caso se questionasse, Bolsonaro saberia também que nenhum jovem é capaz de trabalhar horas desreguladas durante o dia, aprender a ler os códigos de comando de um mundo cada vez mais complexo de tarde e reinventar o futuro de noite.

Sobre a associação entre a proibição do trabalho infantil e o passe livre para crianças fumarem “paralelepípedos de crack”, Bolsonaro poderia dizer onde é que elas andam tranquilamente. No país que ele deveria governar, metade das pessoas detidas em apreensões policiais carregava menos de 5,8 gramas da droga. O conceito de liberdade é a morte precoce, a violência dos adultos na rua ou a prisão pela vida toda, mas e daí?

No futuro, ninguém vai perceber as lorotas de candidatos a autocratas nem a maloqueiragem dos cheques em família enquanto eles ensinam crianças a manusear armas em vez de livros.

]]>
0
Cineasta faz de “Músicas para Morrer de Amor” um manifesto contra o cinismo http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/08/24/cineasta-faz-de-musicas-para-morrer-de-amor-um-manifesto-contra-o-cinismo/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/08/24/cineasta-faz-de-musicas-para-morrer-de-amor-um-manifesto-contra-o-cinismo/#respond Mon, 24 Aug 2020 07:00:08 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=3100

Denise Fraga e Caio Horowicz em cena do filme “Músicas para morrer de amor”. Fotos: Divulgação/Vitrine Filmes

Dias atrás, depois de saber que o teste dela tinha dado positivo para covid-19, decidi escrever nas redes como era estranho, para a gente, ficar longe, mesmo na mesma casa. Como meu teste e o do nosso filho dera negativo, montamos, por precaução, um cordão sanitário entre os corredores para os quartos e a sala, onde passei a dormir com ele.

Embora sem sintomas, o distanciamento forçado, entre máscaras, lembrou os dez anos de relacionamento à distância, com todos os perrengues dos relacionamentos à distância. Foram seis anos de namoro e quatro de casamento assim, entre bate-e-voltas no fim de semana de São Paulo para o interior e vice-versa.

De 2014 para cá, já sob o mesmo teto, nos acostumamos a fazer tudo, mas tudo mesmo, juntos. A ponto de não saber qual a minha toalha ou escova de dentes no nosso banheiro.

Veja também

Foram alguns dias de tensão, encerrados apenas com a notícia do segundo teste, que apontou a presença de anticorpos e não mais do coronavírus. (Estamos bem, apesar do susto, e do abalo emocional da notícia).

Nesse período, uma música não me saiu da cabeça. Cantados por Nando Reis, os versos falavam de alguém esperando que o tempo voasse para que a pessoa amada retornasse e pudesse ser abraçada e beijada de novo.

Sei lá por que diabos quis dividir isso com as redes, mas o arrependimento veio segundos depois. No mesmo domingo, uma leitora me escreveu no Facebook para reclamar da pieguice dos meus textos. Fiz um favor a ela, e agora ela não terá seu feed contaminado pelo meu sentimentalismo barato.

Em outros tempos, teria revisto minha hospedagem naquela rede, mas por sorte havia conversado dias antes, por telefone, com o cineasta Rafael Gomes para falar exatamente de como, de um tempo pra cá, sentimentalismo virou palavrão em uma época mediada pelo cinismo.

Rafael Gomes é diretor de “Música para Morrer de Amor”, filme que foi exibido no circuito drive-in no penúltimo fim de semana e está disponível, desde o dia 20 de agosto, nas plataformas de streaming. O filme é baseado na premiada peça “Música para Cortar os Pulsos”, com os mesmos atores e direção, e que tem rasgado corações desde a estreia, no começo da década.

Conta a história de um grupo de amigos que transitam em uma metrópole onde encontram e experienciam as diferentes formas de se amar. Ricardo (Victor Mendes) é apaixonado por Felipe (Caio Horowicz), que é apaixonado por Isabela (Mayara Constantino), que tenta se reerguer após ver o namorado (Ícaro Silva) sair de casa a trabalho e não voltar.

Entre ruídos, beijos e aforismos (“certas pessoas jamais teriam se apaixonado se não tivessem ouvido falar do amor”), eles circulam em um ambiente libertário, entre festas e encontros em repúblicas não mais de estudantes, mas de jovens adultos tentando sobreviver na tal selva de pedra, concreto e impessoalidade. Aqui e ali, os limites dessa liberdade começam a aparecer, como quando o casal de amigas do trabalho traz uma outra mulher para o relacionamento e começa a lidar com questões como ciúmes, responsabilidade afetiva, etc.

Talvez impactado pela vida adulta, talvez por não transitar nos espaços mais descolados das grandes cidades há uns bons seis anos, talvez por observar uma mudança de ares num tempo em que só podemos nos apaixonar por nós mesmos e pelas metas profissionais, perguntei ao diretor se fazia sentido imaginar que ele acabava de lançar um filme que capturou o espírito de uma época, mas uma época que, se não tinha acabado, estava no fim. Uma época em que ainda era possível se apaixonar durante um show de música ou uma apresentação da Virada Cultural.

Ele concordou discordando. Para além de lançar um filme que celebra (mas não idealiza) o amor romântico em um contexto de pandemia, quando o encontro dos corpos está naturalmente suspenso, a produção chega ao público em um momento de virada, marcada por ataques à classe artística, mais libertária por natureza (os personagens trabalham em um departamento cultural), restrições e policiamentos em curso em relação ao convívio e os afetos que transbordavam livremente, na medida do possível, nesta cidade retratada. Existia amor em São Paulo, lembra?

“Aquela vida, mesmo que volte a ser um pouco como era, já não será a mesma. Do lugar onde estou já parti. Essa é a sensação. Isso por um lado me deixa arrasado”, diz o diretor.

Ele conta perceber, em seu círculo pessoal, uma espécie de “aversão à intensidade” cada vez maior. Tudo ficou ainda mais complicado pela mediação das telas, que se tornaram onipresentes e, no filme, servem como interdição entre os atores das “narrativas de si”.

“Durante essa década, sinto que a gente tem se fechado muito, se tornado mais cínico e irônico com a própria sentimentalidade. Mas, ao mesmo tempo, pensando na minha experiência, percebo que essa sentimentalidade está lá represada. Só precisa que alguém diga: ‘pode ser, pode fazer’.”

Para ele, a sociedade tem se fechado por medo. “É tanto ataque, tanta coisa de que a gente tem que se defender, que de fato a gente acaba represando muito sentimento. Fazer filme é também dizer: ‘tá tudo bem, pega na minha mão, olha no meu olho, vamos chorar juntos. Vamos deixar essa música rasgar a gente um pouco’.”

 

Como o título sugere, as músicas do filme não estão lá por adereço. São personagens vivas de uma história que já começa com os versos de Cazuza, talvez o compositor brasileiro que mais viveu a vida em toda a sua intensidade, em “Maior Abandonado”.

São, ao todo, 35 fonogramas pensados e inseridos no filme pelo diretor musical, produtor e ex-repórter da Folha de S.Paulo Marcus Preto. Tem um pouco de tudo ali: de Bach a Garlos Gardel, passando por Karina Buhr e Caetano Veloso.

Foi Marcus Preto quem fez o meio-campo com os artistas que aparecem em cena cantando ou interpretando seus próprios papéis:  Maria Gadú, Fafá de Belém, Tim Bernardes, Maurício Pereira, Clarice Falcão, Cesar Lacerda e Milton Nascimento, de quem a participação renderia um filme à parte.

Durante a apresentação de Milton no Coala Festival, em 2018, ficou combinado entre as equipes do show e do filme que um dos atores subiria ao palco para fazer uma declaração de amor. Faltou avisar apenas os técnicos de som, que tiraram de lá o personagem apaixonado. O público, sem entender nada, entrou na brincadeira e vibrou.

É esse tipo de sentimentalismo rasgado que o filme tenta resgatar. “As pessoas percebem que existe um terreno de uma certa liberdade para serem menos cínicas não só em relação a si. O avesso (a esse cinismo) está lá planando, esperando chacoalhar”, diz Rafael. 

Para o diretor, o filme joga luz e constata, sem fazer apologia aberta nem problematizar a ponto de questionar a validade, a quebra de modelos tradicionais de relacionamento. “O modelo da família monogâmica heterossexual é muito arraigado. É mais forte do que a gente pensa. Acho lindo quem vive outras experiências, mas, ao mesmo tempo, os modelos antigos estão sempre criando problematizações, deles e dos novos modelos, e isso vira um grande caldeirão de incertezas. E nos retraímos cada vez mais.”

Segundo o cineasta, as pessoas andam avessas aos relacionamentos e à criação de laços mais profundos. “A própria denominação de amor é antiga, mas válida. Você quebra o paradigma e põe o que no lugar?”

Ao mesmo tempo, Rafael, que se define como um velho millennial, diz observar com atenção como as gerações mais jovens estão “realmente e vivamente experimentando essas novas possibilidades”.

É de olho nessa vitalidade ora suspensa que o filme serve como antídoto para a solidão das pessoas dessas capitais, como dizia um antigo compositor cearense para quem nem tudo é divino, nem tudo era maravilhoso.

“Hoje você vive tantos contatos e interações virtuais que acaba organizando uma narrativa para você mesmo nas telas, nas redes. Isso dá uma sensação de preenchimento, mas em essência você está sozinho. Em vez de buscar mais as relações corpo a corpo, a gente vai sistematizando essa solidão, acaba fugindo mais, e se distanciando tanto daquilo que já não sabe mais como fazer. Na hora que você vai se envolver aquilo te dá mais medo, mais aflição. Isso reatroalimenta as duas coisas: a essa solidão com o cinismo e um certo fechamento para uma vida mais intensa, mais aberta, mais rasgada.”

Para quem anda trancafiado em casa e tem vergonha do que dá dentro da gente e não devia, “Música para Morrer de Amor” ajuda a iluminar quem ainda pretende descobrir no último momento um tempo que refaz o que desfez. E que, como nos versos de Chico Buarque, recolhe todo o sentimento e bota no corpo uma outra vez.

]]>
0
De Romero Britto a Madonna: ódio a algo ou alguém é o fã-clube que nos une http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/08/20/de-romero-britto-a-madonna-odio-a-algo-ou-alguem-e-o-fa-clube-que-nos-une/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/08/20/de-romero-britto-a-madonna-odio-a-algo-ou-alguem-e-o-fa-clube-que-nos-une/#respond Thu, 20 Aug 2020 07:00:07 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=3116

Romero Britto (Tim P. Whitby/Getty Images for EJAF)

Existem passagens da vida que a gente, de vergonha, esconde, tranca num baú e cerca de armadilhas para que nunca ninguém tenha acesso nem faça uso indevido das memórias. Eu, por exemplo, ficaria envergonhado se alguém soubesse que, entre oito e nove anos, criei com meus primos o fã-clube dos Goonies em Araraquara.

Era uma agremiação restrita. 

Para entrar nela, tinha que amar o filme de Richard Donner sobre todas as coisas e os seus personagens como a nós mesmos. Nos encontros, só podíamos nos chamar pelo codinome. Eu era o Mikey. Meu irmão, o Bocão. O Dênis, meu primo mais novo e mais criativo, era o Dado. E o Tiago, o mais velho, era o Brand.

O tio Claudio, que nos vigiava entre uma cerveja e outra, era o Sloth. 

Veja também

Não sei o que tínhamos na cabeça, mas, em algum momento daquela fase da vida, acreditamos realmente que, se procurássemos bem, um dia encontraríamos, como no filme, o tesouro enterrado por algum pirata na zona rural de Araraquara, onde andávamos atentos de bicicleta a mais ou menos 350 quilômetros do navio mais próximo. Apesar das probabilidades, nunca vou esquecer o dia em que meu irmão encontrou a ponta de um objeto prateado enterrado perto de um canavial e nos botou para cavar. Era uma colher.

Vem daquela época, imagino, a expressão “fã de carteirinha”. Meu pai era fã-clube Raul Seixas. Minha mãe, Roberto Carlos.

Meu tio, o Sloth da brincadeira, era conhecido no camping que costumava frequentar como o cara que ouvia Zé Ramalho o dia inteiro.

Na escola, tinha fã-clube de todo tipo, da Xuxa ao New Kids on the Block.

Gostar de alguma coisa era o que conferia a nossa identidade. As pessoas se juntavam para ouvir as mesmas músicas, torcer pelo mesmo time e falar sobre a mesma paixão, nem que fosse um modelo antigo de automóvel ou um filme da Sessão da Tarde.

Não tenho provas, mas tenho convicção de que os fã-clubes, desses de carteirinhas, já não fazem sentido no mundo de hoje. Viraram não só um troço do passado, mas um motivo de piada.

Por isso, nunca vou contar pra ninguém que, sim, já tive carteirinha do fã-clube dos Goonies de Araraquara.

Do Orkut ao Facebook, só o ódio une

Pode ser só impressão de quem está mais perto dos 50 do que dos 10 anos de idade. Mas pode ser também o impacto de uma época: se alguém quisesse reunir os primos hoje, seria para manifestar a raiva contra alguma coisa. Sairia de cena o fã-clube dos Goonies e entraria, sei lá, o clube da “Morte à Lagoa Azul”.

Minha amiga Adriana Dias, antropóloga da Unicamp, conta como as redes sociais ajudaram a sistematizar o ódio em nossa época. Isso desde os tempos do Orkut, onde as comunidades com mais engajamento eram justamente as que expressavam o ódio a alguma coisa, de meias molhadas ao Djavan.

Os sucessores da plataforma, que Deus a tenha, entenderam o fenômeno e transformaram o Twitter, o Facebook e até o Instagram em verdadeiras correias de transmissão desse ódio. Não tem quem não ande naquele terreno minado sem detonar algum explosivo no próprio colo.

A Madonna, que caiu na bobagem de defender a cloroquina, que o diga. 

Na semana passada, questionei em um artigo por que estávamos nos esbaldando com a cena de uma mulher que foi até a galeria do Romero Britto em Miami e estraçalhou uma obra assinada pelo artista plástico, dada a ela de presente pelo marido. 

Na gravação, de 2017, ela havia mandado o artista pernambucano se colocar em seu lugar e ser mais humilde, já que ele teria tratado mal os funcionários do restaurante dela –uma atitude, claro, detestável.

A mulher se transformou em heroína da única cena disponível para julgamento ali. A outra, que ninguém viu, virou verdade a priori. Afinal, diz a lenda, brasileiro pode ter o dinheiro que for, mas se não faz bobagem na entrada, faz na saída.

E Romero Britto, não é de hoje, é uma figura que todos nós amamos odiar. Por quê? 

Fiz esse questionamento e recebi algumas respostas. Porque se trata de um artista deslumbrado, arrogante, bajulador, com talento menor e símbolo do brega-chique da elite que enriquece e vai desfilar de carro importado nos EUA. Sua derrocada, expressa em seu rosto assustado na cena da galeria, era a vitória contra tudo o que representa. 

Questionei, então, o quanto haveria de preconceito naquele êxtase –um preconceito mais nosso, claro, do que da dona do restaurante, que não é obrigada a falar português nem a saber das nossas discriminações internas.

Mas, estando nós num país onde a discriminação se revela entre quem serve e é servido, quem pode ou não frequentar certos espaços, contei ter estranhado a euforia por ver alguém que, se não tivesse dinheiro, ouviria a vida toda que não tinha direito de acessar um restaurante como o dela. O ódio à sua figura impedia qualquer análise além do “tomou porque mereceu”.

E criava uma trava nos olhos ao fato apontado pela pedagoga e ativista Rita Louzeiro em sua página no Facebook: “pessoas negras quando cometem algum ato considerado errado são sempre punidas de formas desproporcionais. Independente do posicionamento político, do teor da arte produzida, do tamanho do erro ou do acerto, artistas negros continuam negros antes de serem artistas”.

No dia seguinte à publicação, recebi todo tipo de mensagens nas minhas caixas. Nenhuma era de bom dia.

Noves fora as discordâncias necessárias que qualquer contraponto suscita –além, é claro, do fato de eu poder estar completamente equivocado — a virulência de algumas mensagens chamava a atenção. Não pelo tom, que já se tornou comum na vida em rede, mas pelo campo de onde partiam.

Um professor de comunicação pediu a cassação do meu diploma. “Bosta”, “idiota”, “babaca” viraram elogio. Um leitor tentou me ensinar que inimigo se trata com sapatada na cara, e não com benefício da dúvida. Outro me acusou de ser eu o único preconceituoso da cena, já que ninguém precisava da minha pena nem da minha compaixão. (Não era um texto sobre compaixão, mas fica difícil não lembrar de um certo presidente eleito dizendo que falar sobre preconceito afaga o “coitadismo”).

E vinham emojis de vômitos e xingamentos de avatares de Trotskis, Niemeyers e punhos cerrados me chamando de elitista, passador de pano, bolsonominion, esquerda namastê e adicto da empatia e uma das razões para o Brasil se encontrar onde está. 

Pensei se não estaria louco. Será que foi um delírio a briga com amigos de infância, paulistas como eu, que, no segundo turno das últimas eleições presidenciais, se queixaram dos votos da região Nordeste dizendo “depois esses nordestinos vêm aqui pedir emprego”?

Ou quando vi pessoas em posição de chefia desligar o telefone com atendentes de telemarketing porque do outro lado alguém tinha “voz de baiano”?

Será que ouvi bem, em uma entrevista recente, a deputada Luiza Erundina me dizer que sofreu e sofre até hoje preconceito em São Paulo por ser paraibana?

Ok, só o preconceito do Sul-Sudeste não é razão suficiente para explicar o fenômeno anti-Romero Britto –de quem, repito, não tenho procuração. E é possível, sim, rir da cena e não ter qualquer preconceito contra o alvo.

Uma amiga, que tem se dedicado à psicanálise, diz acreditar que a internet é diferente do mundo real, onde os sujeitos são castrados desde a infância para controlar as pulsões.

Na internet, não. Na internet, o gozo é livre e não existe superego. E interromper o gozo é declarar uma guerra.

E o que provoca mais gozo ali se não saber que podemos odiar juntos o mesmo objeto odiável?

Criamos, assim, os haters de carteirinha. O que me une a você e a outra multidão não é o amor em comum, mas o ódio a algo ou alguém. Isso nos confere identidade. E confere rusgas: se você não odeia o que odeio, você não é digno de entrar em minha morada virtual.

A internet é o campo do justiçamento, e isso é diferente de sentir raiva por uma injustiça.

Mesmo tendo bajulado todos os presidentes eleitos desde, sei lá, Deodoro da Fonseca, Romero Britto, por méritos próprios, ficou associado ao bolsonarismo depois que presenteou o fã de torturador e a primeira-dama dos cheques estranhos com um de seus quadros. 

O fato é que, mesmo sabendo disso, revi a cena e substituí o riso inicial pelo mal-estar. Decidi escrever sobre o caso e deixei claro que não tenho ódio por um sujeito supostamente odiável. Foi o suficiente para ser mandado para o paredão dos inimigos da decência.

O ressentimento como motor

Se você não odeia nem foi odiado em algum momento no Brasil de 2020, você é extraterrestre, sim.

Esse ódio é movimentado pelo ressentimento, que por sua vez é movido pela sensação de perda. 

Isso parece notável entre os grupos conservadores fundamentalistas, que veem até na sombra o risco da perda de prestígio e da dissolução dos valores judaico-cristãos-medievais pelos quais mantinham certo status, ao menos em casa.

E, na esteira da ascensão e queda de um projeto de país minado por operações policiais e delações, há também os que perderam a hegemonia do campo político e se engajaram em buscar culpados para isso. Esses também se ressentiram.

Em suas memórias, o escritor Sándor Márai conta que na Hungria destroçada do pós-guerra, onde a opressão nacional-socialista dera lugar à ocupação soviética, as esperanças de recomeço foram ofuscadas pela emergência de novos ódios: todos haviam perdido alguma coisa –sempre a mais importante. 

Naquele país, escreve o tradutor Paulo Schiller na apresentação de um livro húngaro, a solidariedade dos tempos da guerra dava lugar a uma profunda insatisfação. Odiava-se quem havia perdido menos, odiava-se quem não tinha ódio suficiente, odiavam-se os traidores e os novos oportunistas.

Aparentemente, sem que uma única bomba estourasse em nosso quintal, o Brasil chegou a esta fase: estamos o tempo todo mirando a metralhadora cheia de mágoas nas caras dos que perderam menos em uma década marcada pela crise econômica e política, em que grupos hegemônicos viraram farelo e outros se fortaleceram prometendo destruir muito e construir pouco. Ser “anti” é a única senha de mobilização possível. Azar de quem cruzar essa frente.

Como uma carne cortada aos poucos, eliminamos quem não odeia suficientemente como nós até sobrar um único naco, moralmente superior, vitorioso e solitário. O metal dessa lâmina é o ressentimento, e ele não move só o inimigo ridicularizado pelo meme. 

Nosso ressentimento já passou da hora de ser levado a sério.

]]>
0
Obrigado, Adnet. Sem você nossa quarentena seria (ainda mais) insuportável http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/08/17/obrigado-adnet-sem-voce-nossa-quarentena-seria-ainda-mais-insuportavel/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/08/17/obrigado-adnet-sem-voce-nossa-quarentena-seria-ainda-mais-insuportavel/#respond Mon, 17 Aug 2020 07:00:23 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=3074

Marcelo Adnet imita políticos em seu programa (Reprodução)

A realidade tem sido deprimente para todo mundo em 2020. 

Mas ela seria muito mais amarga se não fosse o Marcelo Adnet.

Com seus esquetes curtíssimos do “Sinta-se em Casa”, o humorista, ator, cantor e compositor parece ter encontrado na cena política uma espécie de Santo Graal da inspiração que precisa ser exposto, como paródia, até ser purgado. 

Veja também

Para qualquer comediante, seria difícil competir com o nonsense oferecido diariamente pela vida real. Ainda mais para quem precisou se trancafiar em casa. Mas o sujeito parece ter um figurino inacabável nas cordas vocais capazes de colocar no mesmo cenário figuras como Jair Bolsonaro, Sergio Moro, Fabrício Queiroz, João Doria, Dilma Rousseff, Lula, Ciro Gomes e Marina Silva (na réééde). Na piada, como na vida, governistas e opositores se comunicam em ruídos girando em falso e tentando chegar a lugar algum.

Nos últimos vídeos até Donald Trump tem aparecido em imitação impagável em lives com Nicolás Maduro, Boris Johnson e Vladimir Putin. Detalhe: se já é difícil captar trejeitos na língua nativa, fazer piada em inglês ou portunhol deve ser tão complexo quanto cantar heavy metal com a voz de Caetano Veloso. Ok, isso ele fazia já nos tempos de MTV.

Não sei vocês, mas eu nunca mais consegui ouvir a voz de nenhum desses personagens reais sem imaginar que eles estão sendo, na verdade, dublados por algum imitador. Pois a cada dia que passa eles estão mais próximos da imitação de Adnet.

Essa imitação é econômica em recursos. Uma peruca até aparece em cena, com um terno aqui, um óculos ali, uma camiseta da seleção acolá e, pronto, a paródia está pronta, como cópia autêntica de uma realidade mediada pela farsa. 

Sua versão do Bolsonaro aparece não gritar nem mais nem menos do que o personagem que chegou ao Planalto prometendo lutar contra os moinhos no caminho da família brasileira, a começar pelo kit gay, uma farsa inventada para ganhar eleição. 

Com Adnet, o presidente é escancarado com suas cu-es-tões, seus isso-aê, sua incapacidade de pronunciar uma palavra com mais de duas sílabas e sua risada pavorosa de carrasco que estrangula em regozijo.

Nós, pessoas normais, vemos o drama e queremos deitar em posição fetal e chorar até as gerações z e alpha terem idade suficiente para disputar cargo político e aposentar os entulhos autoritários do século 20.

Adnet deve sentir o mesmo, mas tem a opção de pegar a caricatura em estado bruto e desembrutecer, como quem diz: é esse mesmo o seu mito? Retocado, o que sobra do messias desenhado em postagens e gabinetes do ódio, ou da bajulação, que anda a cavalo, que especula o golpe e quer ser pintado como Júlio César?

O que sobra é o comentário entre vizinhos na manhã seguinte. Você viu a última imitação do Adnet? Qual, aquela em que o Bolsonaro fala com o Renato Gaúcho? A que ele toma uma prensa do Donald Trump? Ou a que ele aparece cantando uma versão particular de “Mila” com mil e uma noites de amor em cloroquina? (Desafio alguém lembrar da canção original depois de ouvir os versos adaptados: “sem comprovação ficou, ninguém te aceitou. Sem medicina certa, ciência ou autoridade. Sem ministro da saúde, pode tudo rolar. Até ema agredindo. Querendo me bicar. Eu e você contra o PT e o PSOL”).

Adnet, que nesta segunda-feira poderá ser visto sem disfarce ou imitação no programa Roda Viva, da TV Cultura, é herdeiro de uma tradição, entre comediantes, que faz da imitação o seu recurso, num leque de personagens que varia conforme o tom de voz, como fazia Chico Anysio. Há quem tenha contado 154 personagens chicoanysianos até 2012. Adnet tem tempo para chegar lá.

Numa época em que rir era chutar quem já é esculachado pela vida, geralmente os tipos populares, sem dentes e sem estudo, Adnet fugiu do humor reaça que marcou o stand-up comedy na virada dos anos 2000 para 2010 e trouxe para a cena, sem precisar apelar, os influencers, políticos ou não, de seu tempo. Com a paródia, criou a sua “A vida como ela é” particular.

Entre esses tipos pincelados estavam lideranças que alguns levavam a sério até perceberem que elas estavam mais próximas de um esquete do Monty Python do que do desafio histórico que assumiram ao serem eleitas.

Rir delas não é a suspensão, em si, da gravidade de tudo o que representam, mas uma forma de observar com lupas uma caricatura que não precisa ser pintada em cores fortes para gritar. Basta uma demão de tinta. E elas passam a falar por si. Como a demofobia de Bia Doria, em sua fala sobre moradores de rua, copiada e colada sem que soubéssemos, afinal, o que era verídico e o que era verissimilhança.

“Estamos vivendo numa época de dificuldades, mas a dificuldade traz descobertas”, disse Adnet, em uma entrevista recente.

Até a quarentena, percorrer a cidade e observar trajetos e trejeitos nos bares, nas praias e nas repartições era tão importante para o humorista quanto para o cronista do seu tempo. Adnet diz que aprendeu a observar o mundo pela janela de casa quando jovem.

Essa janela hoje são as muitas telas por onde ele testemunha e tem absorvido os sotaques do burlesco antes de serem retransmitidos em outras telas. Entre uma e outra há uma casa com jardim e piscina. É ali, por contrassenso, que o Brasil se revela.

Do sertanejo que foi colocado a beber e sumiu de cena levado pelo cavalo ao passeio de jet ski do presidente para celebrar o que não merece celebração, não tem nada que escape daquele humor minimalista e expandido por confinamento.

O Brasil dos últimos anos está todo lá em forma de caricatura, a etapa seguinte, quase instantânea, de uma história que não só se repete, mas se embrenha entre a tragédia e a farsa.

Tem quem não ria e queira ver morto quem botou o espelho ali. Esses estão perdidos.

E tem quem ri de nervoso.

Alvo da ira dos fanáticos de sempre, Adnet admitiu que o comediante brasileiro hoje não pode atuar com tranquilidade, pois trabalha com medo, sob xingamentos e ameaças. “É um clima muito ruim para a democracia.”

É, sim. Mas a exposição do ridículo ao crivo da comédia é também uma forma de resistir.

Tornou-se um clichê, pelo excesso de uso, o velho ditado: é rindo que se castigam os costumes. Se for, o riso nunca foi tão necessário quanto no Brasil de 2020.

Na casa de Marcelo Adnet cabe um país inteiro que não pode desaprender a sorrir. 

Enquanto nos confinamos, ele gravou um nome no panteão dos grandes humoristas da nossa história. Se já não for o maior.

]]>
0
Romero Britto: por que rimos de um nordestino sendo esculachado nos EUA? http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/08/15/romero-britto-por-que-rimos-de-um-nordestino-sendo-esculachado-nos-eua/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/08/15/romero-britto-por-que-rimos-de-um-nordestino-sendo-esculachado-nos-eua/#respond Sat, 15 Aug 2020 15:56:23 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=3087

Correu feito rastilho de pólvora, na sexta-feira (14), o vídeo em que uma mulher vai até a galeria do artista plástico Romero Britto, em Miami (EUA), e estraçalha uma obra de sua autoria avaliada em R$ 26 mil. O ato seria uma vingança após o artista plástico recifense supostamente humilhar os funcionários da mulher em um restaurante perto dali.

No embalo das postagens, e das lembranças do tempo em que meus pais trabalhavam e eram também humilhados pelos motivos mais diversos (tipo não ter cinco CENTAVOS para troco) em um restaurante na cidade onde nasci, compartilhei com satisfação o vídeo como uma sentença. Não sabia exatamente o que meu conterrâneo tinha feito, mas se estava na internet devia ser verdade.

“Tomou?”, escrevi, entre risos. E fui dormir o sono dos justiceiros.

Quando acordei de sonhos intranquilos, decidi apagar a postagem. Revendo a cena, senti mais mal estar do que qualquer outra coisa.

Não tenho procuração para defender Romero Britto. Não sei como, em seu círculo pessoal, ele age e trata seus amigos, funcionários e fornecedores.

Ele é um homem rico, desses que vencem na vida e se tornam celebridade, e tem idade e dinheiro suficiente para se defender sozinho.

Sei, porém, que ele é persona non grata no círculo de uma certa inteligência que define o que é e o que não é bom gosto. Nesses círculos, não cabem admiradores das cores primárias espalhadas nos recortes geométricos que reproduzem qualquer coisa, de gatos siameses a poderosos da cena política, geralmente oferecidos aos homenageados como mimo.

Veja também

Aparentemente, Romero Britto é uma espécie de bajulador-geral da República, esteja quem estiver no poder. E isso é razão, não exatamente injusta, de deboche.

Até aí, você pode gostar ou não. Pode comprar seus quadros ou penduricalhos ou não. Ostentar ou não.

Pode achar ridículo e até rir da cena — quem sou eu para dizer o que é ou não objeto de gozo em tempos tão cinzentos como a pandemia.

Mas, passado o primeiro impacto, algo me caiu mal no bolo digestivo da brincadeira.

Em tempos em que as redes pautam o noticiário, e não o contrário, soube pelo jornal que a razão para tanta ira foi que o artista plástico reservou uma mesa para 20 pessoas para tomar café da manhã a preços módicos e ainda pediu desconto. E quem nunca?

No vídeo, a dona do restaurante desanca: “Você humilhou meus funcionários, pediu que eles tirassem a música e pediu que eles não falassem, porque senão o senhor não iria mais”. Não sou juiz da causa. Nem da educação alheia nem da elegância.

Da dona do restaurante nada sei, a não ser, pelas primeiras notícias, que é americana (ou espanhola?) e se dirigiu a um brasileiro em espanhol. Ninguém é obrigado a saber que no Brasil falamos português. E que nossa capital não é Buenos Aires.

Mas não posso deixar de questionar se haveria tanto rebuliço com a cena se um americano branco e rico tivesse pedido, em um restaurante onde reservou uma mesa, para que alguém baixasse o som. Poderia ser indelicado a ponto de dizer que, caso contrário, não voltaria mais à espelunca, mas ele receberia como troco uma visita colérica em seu ambiente de trabalho pouco depois?

A cena alimentaria o transe das redes se este americano branco fosse, finalmente, “colocado em seu lugar?”.

Ou o que estamos celebrando é só uma versão 2.0 daquela conversa elitista à brasileira que vê uma pessoa negra em posição de comando e se vinga chamando de “pretinho metido” porque ele está na mesa do restaurante e não na cozinha?

Dúvidas, apenas dúvidas.

Pois, na dúvida, apaguei minha postagem em tom de chacota. Ela fazia coro ao sentimento catártico de justiça com as próprias mãos contra alguém que não teve nem a chance de responder ao ver seu trabalho estraçalhado para alegria da plateia sedenta por vingança. Vingança de quê?

De novo, não tenho procuração de ninguém, nem nunca vou saber o que Romero Britto, rico e já crescidinho, faz e fala em seu círculo pessoal.

Mas me nego a celebrar a imagem de um estrangeiro ou estrangeira humilhando um nordestino que ganha a vida honestamente, goste-se ou não de seu trabalho, longe de seu país. Sejamos menos vira-latas.

Ou então vamos ouvir o cearense Belchior:

“Não, eu não sou do lugar dos esquecidos, não sou da nação dos condenados, não sou do sertão dos ofendidos, você sabe bem. Conheço o meu lugar.”

]]>
0
Com Kamala Harris na briga, pesadelo iniciado em 2016 estará perto do fim? http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/08/13/com-kamala-harris-na-briga-pesadelo-iniciado-em-2016-estara-perto-do-fim/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2020/08/13/com-kamala-harris-na-briga-pesadelo-iniciado-em-2016-estara-perto-do-fim/#respond Thu, 13 Aug 2020 07:00:22 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=3064

A senadora e pré-candidata à vice-presidência dos EUA, Kamala Harris (Tom Williams/CQ-Roll Call, Inc via Getty Images)

No meio do caminho havia um protesto naquela caminhada despretensiosa pela avenida Paulista em outubro de 2016.

Curioso, me aproximei para saber qual era a da rapaziada de cabelo acaju no Brasil do pós-impeachment. O que pediam? O fim do preço abusivo dos transportes públicos? Mais ciclovias? A paz mundial?

Veja também

A resposta estava numa das muitas faixas onde se lia o nome do então candidato a presidente dos Estados Unidos Donald Trump. Entre os entusiastas da candidatura do empresário e ex-apresentador de TV estava um cover do Axl Rose com um cartaz que estampava, ao estilo “procura-se” de faroeste, um sujeito de óculos e suspensórios sob a inscrição: “Olavo tem razão”.

Ao lado, Hillary Clinton, a candidata democrata da disputa, surgia em uma jaula. Em outra placa, ela e o então presidente americano Barack Obama sorriam acima da legenda: “Eles nos roubaram”.

Numa miscelânea que nem o tropicalismo nem o manifesto pau-brasil conseguiram imaginar, voavam sobre as cabeças as bandeiras do estado de São Paulo, do Brasil, de Israel e dos EUA –muitas.

A aglomeração se concentrava em frente a um banco multinacional.

Tudo era caricato demais para ser verdade. Mais caricato do que o arquétipo do Almeidinha, personagem inventado pelos amigos da faculdade que representava tudo o que não queríamos (e prometíamos não) ser quando a vida adulta se impusesse: um sujeito ignorante, americanoide, reacionário, avesso à cultura popular brasileira, falsamente patriota, arrivista, frustrado, ressentido e brutalizado pelas próprias convicções.

Era tão improvável reunir tantos predicados num mesmo escopo que aquele protótipo soava como piada. E a piada começava a perder a graça ao desfilar orgulhosa pela avenida mais famosa do país.

“Agora vai, hein?”, disse um amigo, me cutucando com o cotovelo e rindo litros da pretensão tupiniquim de enviar, daqui, boas vibes para o candidato azarão das eleições americanas. Àquela altura, Trump comia poeira nas pesquisas de intenção de voto para a Casa Branca.

Era claro que aquele bufão alaranjado, a versão americana do Almeidinha cuja obsessão era construir um muro na fronteira com o México, não venceria.

A corrida logo seria esquecida, e ele voltaria a ser só um nome nas torres cafonas de sua empreiteira e o figurante de uma cena em que atende o telefonema do filho riquinho, arrogante e desleal no filme “Os Batutinhas” *. Governar a maior potência militar do planeta, imagina?

Naquele entorno, algumas nuvens começaram a se formar quando um grupo antifascista cercou os manifestantes.

Começou um bate-boca.

Alguém tentou arrancar a bandeira americana.

O manifestante se defendeu.

O pau da bandeira quebrou na cabeça de um.

Foi então que o primeiro soco estalou.

Outros se sucederam, entre pontapés e voadoras.

Coisa fina.

Quem não entrou na briga começou a pedir ajuda à PM, que até então só observava. Um antifa foi pego pelo cangote por um soldado. Apanhou muito antes de ser levado para um canto, com as mãos para cima. A ele se juntaram outros dois.

Com as bandeiras definhadas, mas protegidos, os fãs de Donald Trump começaram a gritar palavras de ordem como numa torre de Babel. “Sergio Moro, estou com você”, dizia um diante das câmeras. Outros estimulavam a violência da polícia contra quem vaiava o ato.

A polifonia ganhou um princípio de coro quando o primeiro começou a cantar: “Brasil, urgente, Bolsonaro presidente”.

Quem? Ah, sim, aquele deputado nebuloso do fundão do Congresso, que em 30 anos nunca aprovou um projeto de lei, tarado por armas e torturadores, que prometia bater, prender, socar, matar 30 mil brasileiros e dar um golpe assim que assumisse? KKK. Cada ideia.

Ainda assustado e sem entender exatamente o que queriam aquelas pessoas (o fim da corrupção, como mostram agora os cheques de Fabrício Queiroz, não era), me lembro daquela manifestação como um anteparo do que viria pela frente. Havia um princípio de tornado na frente daquele banco estrangeiro. Uma espécie de explosão que poderia ou não ser contida. Uma caixa de Pandora que se abriu e nunca mais fechou.

“Relaxa, é só um grupo minoritário. Um bando de malucos. O Brasil não é isso aí, não”, dizia o meu amigo, fazendo pouco caso da minha preocupação.

O resto é história.

O playboy que o pequeno grupo de brasileiros exaltava não só virou presidente dos Estados Unidos como se tornou o chefe informal de um bajulador eleito na mesma onda por aqui. Tudo o que faz por lá é descaradamente imitado aqui.

Se mandar, seu preposto em Brasília é capaz de pular no poço de cloroquina e ainda dizer “eu te amo”. Alguém ainda vai provar que foi Donald Trump quem mandou o congênere deitar, rolar, fingir que morreu e oferecer remédio para a ema, só para se divertir com as imagens do subalterno numa roda entre amigos.

Juntos, os presidentes carne-e-unha e almas-gêmeas se tornaram sócios no desastre de uma pandemia que matou 164 mil pessoas até aqui num país e mais de 100 mil, no outro. 

Na última terça-feira (11), o pré-candidato democrata Joe Biden, favorito contra Trump na disputa pela Casa Branca, anunciou, após semanas de atos antirracistas pelo país, que a senadora pela Califórnia Kamala Harris será a candidata a vice em sua chapa. Ela será a primeira mulher negra a concorrer ao cargo.

Trump, o machão que fala com o dedo erguido enquanto a companheira-troféu enfeita o cenário, correu como um garoto da quinta série às redes para fazer troça da escolha. “Kamala falsa”, ele escreveu. Faltou chamar de feia e boba.

Era uma forma de acusar o golpe.

O anúncio me fez voltar quase quatro anos no tempo, quando ser adulto ainda tinha seu charme, ao menos entre as figuras públicas.

O anúncio de Kamala, que já criticou Bolsonaro pela omissão na questão ambiental, talvez seja o começo do fim daquele pesadelo em que mergulhei quando resolvi caminhar pela Paulista no já distante 2016 e que nunca mais acabou.

 

*Erramos: inicialmente, escrevi que o riquinho de “Os Batutinhas” havia sido interpretado por Macaulay Culkin, mas na verdade o ator era Blake McIver Ewing.

]]>
0