Matheus Pichonelli http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal. Thu, 15 Aug 2019 07:00:25 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 De global a ex-bolsonarista: Alexandre Frota é o Forrest Gump nacional http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/08/15/de-global-a-ex-bolsonarista-alexandre-frota-e-o-forrest-gump-nacional/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/08/15/de-global-a-ex-bolsonarista-alexandre-frota-e-o-forrest-gump-nacional/#respond Thu, 15 Aug 2019 07:00:25 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=1669

Alexandre Frota (à dir.) em cena de “Sassaricando” com Rômulo Arantes (Foto: Nelson di Rago/TV Globo)

 

É bom prestar atenção para onde vai o deputado Alexandre Frota do PSL após criticar o filho do presidente Jair Bolsonaro e ser expulso do PSL. Poucos no país têm o olfato mais apurado que ele para sentir o vento das oportunidades surgidas no Brasil das últimas três décadas. E poucos incorporaram como ele as metamorfoses estéticas de todo um país.

Uma galeria de fotos da carreira do ator, político e pensador, publicada na quarta-feira (14/8) pelo jornal “O Globo”, mostra que ele é uma espécie de Forrest Gump da história nacional.

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Foi por falta de idade, e não de oportunidade, que ele não foi flagrado na Revolução de 1932, primeiro com os paulistas, depois com os soldados vitoriosos; ou nos protestos em defesa da família, em 1964, e depois nos das Diretas, quando a democracia voltou à moda.

Naqueles anos 1980, política ainda era assunto para profissionais, e Frota, camisa do Mengão embaixo do macacão, vivia o auge da fama como o global que namorava a Tancinha (Claudia Raia) em “Sassaricando”, novela que chegou a bater 60 pontos no Ibope. Na vida real, eles eram uma espécie de casal 20. O anúncio do casamento aconteceu ao vivo, no programa do Chacrinha. A união foi mais efêmera do que qualquer plano econômico do governo Sarney e durou até 1989.

Frota seguiu fazendo novela na Globo. Foi Raúl, Jaú, Boca, Pavão e Robson, este último papel em “Malhação”, febre da garotada no fim dos anos 90. Ele também foi Rico, na novela “Olho Por Olho”, em sua curta passagem pela TV Manchete dez anos antes de a emissora falir.

No começo dos anos 2000, já sentindo a onda da nova década, ele participou da “Casa dos Artistas”, o primeiro reality show da TV brasileira. Você pode não lembrar, mas poucas imagens falavam tanto sobre as referências estéticas daquele tempo do que Supla e Alexandre Frota no mesmo quadro.

Antecipando a diáspora brasileira a Portugal, ele também gravou um programa similar na antiga metrópole, onde fez vários stripteases e, a exemplo de Vampeta e Dinei, craques da época, preparou terreno para posar nu na G Magazine, um dos maiores cases de sucesso editorial da época.

O funk carioca começava a fazer sucesso. Era a década do Bonde do Tigrão, Cerol na Mão, Eguinha Pocotó e nosso Forrest Gump não podia ficar de fora: virou empresário e apresentador de programas de funk, no qual aparecia com o figurino da época: regata preta da Bad Boy, boné e tatuagem nos ombros que cresciam em proporção geométrica. Era o auge da estética Johnny Bravo, recentemente redescoberto por Bolsonaro.

Foi mais ou menos nessa época que ele decidiu trabalhar com a produtora Brasileirinhas, promissora empresa de filmes pornô made in Brasil. Poucos nomes dizem tanto sobre o início dos anos 2000 do que esse, mas logo vieram a pirataria, a internet e era melhor abraçar outras tendências.

Ele tentou a vida como jogador de futebol americano, modalidade que começava a fazer sucesso por aqui, atuou como produtor da “Praça É Nossa”, foi demitido em 2012 e, na encruzilhada da vida, como um país inteiro, um ano depois, decidiu decifrar qual era o recado das ruas durante os protestos de 2013.

Foi mais ou menos nessa época que a política começava a substituir a novela como tema favorito nos almoços de domingo, e Frota, em sua fase paneleira/tuiteira, logo se tornou símbolo das manifestações pelo impeachment, depois de defender movimentos como o Escola sem Partido (hoje fora de moda).

Faltava só incorporar a faceta religiosa/moralista para, como muitos parceiros de rua, atravessar o rubicão dos protestos políticos em direção à política de fato. A máscara bolsonarista caiu como uma luva na onda que elegeu presidente o capitão, que, em sete meses de mandato, começa a se queimar com parte do eleitorado propondo racionamento da atividade intestinal ou presenteando o filho com uma embaixada nos EUA.

Sem boné, mas com terno e gravata, óculos de intelectual e a barba alinhada de quem passou pela barbearia antes de trabalhar, Alexandre Frota agora interpreta o personagem do deputado dedicado, disposto a aprovar as reformas e que demonstra ponderação diante das excrescências do presidente que ajudou a eleger.

Quer saber para onde vai o Brasil daqui a alguns anos? Observe para onde vai o nosso Forrest Gump. Se não estiver o futuro presidente, neste barco certamente estará ao menos a tendência do verão 2020. Run, Frota, Run!

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Ninguém quer paz e amor hoje: por que a edição 2019 de Woodstock flopou? http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/08/12/ninguem-quer-paz-e-amor-hoje-por-que-a-edicao-2019-de-woodstock-flopou/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/08/12/ninguem-quer-paz-e-amor-hoje-por-que-a-edicao-2019-de-woodstock-flopou/#respond Mon, 12 Aug 2019 07:00:37 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=1660

Cena do filme “Aconteceu em Woodstock”, de Ang Lee

John Lennon não estava entre as atrações de Woodstock em 1969, mas uma frase dita por ele, naquele mesmo ano, ajuda a explicar o sucesso do festival cujo slogan oficial era “Uma Exposição Aquariana: 3 Dias de Paz & Música”.

Há 50 anos, quando a década dos Anos Incríveis se encerrava, o beatle foi chamado por alguns críticos de “palhaço do ano” por conta de seu ativismo contra a guerra do Vietnã. Ele tinha acabado de devolver para a rainha da Inglaterra a medalha da Ordem do Império Britânico, em razão do apoio do seu país ao conflito. Ao ser indagado, ele lembrou que as pessoas sérias, como Kennedy, Luther King e Gandhi, haviam sido assassinadas. Para ele era motivo de orgulho ser o palhaço do ano “num mundo em que gente séria está se matando e destruindo em guerras como a do Vietnã”.

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A estupidez daquele conflito, somada à memória ainda recente das atrocidades da Segunda Guerra Mundial, era razão suficiente para que muitos jovens daquela geração, e Lennon era um deles, rejeitassem o estilo de vida dos pais e avós que produziram (ou não conseguiram interromper) tantas catástrofes ao longo do século. Todos ali eram, de alguma forma, sobreviventes, e celebrar a vida, pensando em um outro mundo possível, era uma forma de enfrentar a sombra ainda presente da morte.

Esse era o espírito do tempo em agosto de 1969, quando cerca de 400 mil pessoas, metade delas sem pagar ingressos, desembarcaram num verdadeiro pasto de uma propriedade rural no município de Bethel, no estado de Nova York, para assistir a três dias (e meio) de concerto povoado por símbolos da liberdade e slogans de paz e amor.

Foi uma catarse, e também o sinal de que o amor podia vencer o ódio, que a caretice das gerações anteriores estava enterrada e que a música poderia unir mais vozes do que as metralhadoras de uma triste trincheira.

Mas, 50 anos depois, por que a edição do Woodstock prevista para ser uma grande celebração em 2019 flopou?

O “Woodstock 50”, como seria chamado o evento, enfrentava havia meses problemas financeiros e de autorização. Miley Cyrus, Jay-Z, John Fogerty, Carlos Santana, Joe McDonald: em um ano, nomes da nova e da velha geração foram desistindo de participar da celebração, que seria realizada num anfiteatro em Columbia para menos de 30 mil pessoas.

Era a crônica de uma morte anunciada. Na nova roupagem, não era só a claustrofobia dos novos tempos que afastava Woodstock das origens. A primeira edição do festival, afinal, foi uma revolução, e só foi uma revolução porque parte dos presentes não tinha ideia de onde estava indo, nem como, nem para quê. Eis os motores das grandes mudanças de qualquer época, marcadas pela espontaneidade e pela imprevisibilidade – que em 1969 encontrou o espírito contestatório do tempo para canalizar o grito de toda uma geração.

Ah, sim: é preciso reconhecer também um certo grau de irresponsabilidade/inconsciência para se embrenhar num local até então desconhecido só na base do boca-a-boca (o amadorismo das instalações era proporcional ao encantamento daquele desembarque de afetos, como mostra o filme  “Aconteceu em Woodstock”, de Ang Lee).

Em 2019, os slogans são bem outros, e não só porque os investidores já se apropriaram deles e inflacionaram os espaços hoje restritos.

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O nó é que a memória dos grandes desastres do século 20 hoje está com as bordas borradas, a ponto de não assustar mais ninguém – tanto que poucos se importam em dançar à beira do abismo, ilhados, em bolhas, fones de ouvido e rotas certas, se tempo a perder, desenhadas pelo Waze. Pelas ruas, andamos o tempo todo calçados no slogan “me deixem em paz sem amor”. Não à toa a geração Y é a que menos faz sexo desde os nascidos em 1920.

Poucos temem a guerra, e muitos rejeitam o estilo de vida dos pais e avós que se deleitaram nos anos de paz de amor e deixaram aos filhos e netos um mundo em crise.

O pêndulo da história mudou, e talvez seja necessário voltar a Jonhn Lennon para entender o porquê. Em 1981, quando a era Thatcher-Reagan ainda se iniciava, o autor de “Imagine” foi assassinado com um tiro por um fã em frente ao edifício Dakota, em Nova York. O tiro alvejou também a crença de que os palhaços, ao idealizarem um outro mundo, estavam imunes às perversidades do mundo real. The dream is over.

Veio, então, uma era de austeridade. De sonhos direcionados a prédios espelhados de escritórios e planos de voo individuais. Veio a Aids. A guerra às drogas. O 11 de Setembro. As guerras preventivas. Se jogar no mundo ficou perigoso. Com medo, preferimos nos trancar. E tudo o que um dia se deslumbrou como liberdade foi, pouco a pouco, substituído por um punhado de segurança e inveja de quem viu e viveu o que pra nós é só um quadro na parede.

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Moro, homens estão realmente mais violentos porque estão “intimidados”? http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/08/08/moro-homens-estao-realmente-mais-violentos-porque-estao-intimidados/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/08/08/moro-homens-estao-realmente-mais-violentos-porque-estao-intimidados/#respond Thu, 08 Aug 2019 07:00:22 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=1644

O ministro da Justiça, Sergio Moro ((Marcelo Camargo/Agência Brasil)

“Talvez, nós homens nos sintamos intimidados. Talvez, nós, homens, percebamos que o mundo está mudando e, por conta dessa intimidação, infelizmente, por vezes, recorremos à violência para afirmar uma pretensa superioridade que não mais existe”, afirmou o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, em uma cerimônia para celebrar os 13 anos da Lei Maria da Penha.

Segundo ele, “nós precisamos de políticas de proteção de mulheres porque elas são fortes, elas estão em maior número. Nós, homens, temos que reconhecer que, em geral, elas são melhores do que os homens. Talvez porque as mulheres são em maior número, porque as mulheres são em geral melhores.”

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O que parece um elogio, com um chamado à mudança de postura, é, na verdade, um reforço de estereótipos quando o assunto é violência doméstica. Afinal, como medir se uma mulher é “forte” ou “fraca” a ponto de estimular ou desativar qualquer inclinação agressiva masculina?

Em tempos recentes, houve um aumento na percepção e nos registros de feminicídios (quando o crime é cometido por menosprezo à condição feminina) no país. A morte violenta intencional de mulheres no ambiente doméstico cresceu 17% em cinco anos, segundo o Atlas da Violência 2019.

Quando se atribuiu esse cenário a uma reação às conquistas dos últimos anos, porém, a impressão é que nada disso teria acontecido se as vítimas estivessem em casa, silenciadas e domesticadas – como se não conhecêssemos inúmeros casos de violência doméstica contra quem cumpre o script da “bela, recatada e do lar”.

Os agressores não agem assim (só) porque estão afrontados, mas porque são criados em uma cultura calcada na agressividade como valor, que confundem os corpos femininos com propriedades e sabem que têm poucas chances de serem punidos, mesmo com toda a contestação a essa construção da masculinidade – a ponto de fazer sucesso, nas redes sociais, o deboche de uma lanchonete que lançou o sanduíche Maria da Penha, que continha “repolho roxo”, numa referência a “olho roxo”.

Desde antes de nossos avôs, mais precisamente no tempo em que feminicídio era ainda chamado de “crime passional”, os homens eram violentos, e eles não estavam necessariamente “afrontados”, e sim bem confortáveis, pelas relações de forças da época.

O que pode ter mudado, de fato, é o reconhecimento maior dessa violência, que leva à busca por direitos e medidas de proteção, que leva ao maior número de notificações.

Mas o poço dessa violência é bem mais fundo. Como explicou, em uma entrevista recente ao site da Fiocruz, a pesquisadora Suely Deslandes, professora de pós-graduação em Saúde da Criança e da Mulher (PGSCM) do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), lembrou que ainda hoje as mulheres mais pobres, e especialmente as mulheres negras, têm muitos dos seus direitos desrespeitados, sofrem discriminações e não desfrutam das mesmas oportunidades de escolarização, emprego, acesso a serviços, acumulando isolamento social e falta de apoio, tornando-se, muitas vezes, dependentes de um companheiro violento. 

Em muitos lugares do país, lembrou ela, ainda faltam de equipamentos, equipes treinadas e dificuldade de acesso de mulheres aos mecanismos básicos de denúncias e medidas protetivas. Ela defende medidas de prevenção, como a necessária e “urgente discussão sobre desigualdades de gênero nas escolas como um processo de educação para os e as adolescentes”.

Resta saber como esse debate será levantado por um governo que vê o armamento como solução (as taxas de homicídios em casa por arma de fogo aumentaram 30% em dez anos) e que determina os papeis de homens e mulheres a partir das cores que cada um deve vestir.

Na mesma cerimônia, Moro e outras autoridades assinaram um pacto do governo federal para o combate à violência contra a mulher. Entre as signatárias estava Damares Alves, titular do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, para quem as jovens da Ilha de Marajó são estupradas porque não usam calcinha.

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Iludido com a sua virilidade, Johnny Bravo é a cara do presidente Bolsonaro http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/08/07/iludido-com-sua-virilidade-johnny-bravo-e-a-cara-do-presidente-bolsonaro/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/08/07/iludido-com-sua-virilidade-johnny-bravo-e-a-cara-do-presidente-bolsonaro/#respond Wed, 07 Aug 2019 21:43:53 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=1637

Johnny Bravo, o personagem limitadão que inspira o presidente da República

 

Centennials correram em peso ao Google para pescar a referência. “A imprensa tem que entender que eu, Johnny Bravo, Jair Bolsonaro, ganhou, porra! Ganhou, porra!”, disse o presidente Jair Bolsonaro em discurso durante a semana.

Quem encontrou no YouTube algum episódio perdido do sucesso da TV paga entre 1997 e 2004 deve ter estranhado a autonomeação. Afinal, quem seria capaz de se identificar com uma caricatura tão tosca, de tão clara, de um personagem cuja estupidez estava mais que desenhada na cabeça diminuta pendurada em um corpo imenso e quase inútil?

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Tivesse falado “eu, Darth Vader” ou “eu, Caco Antibes”, vilões mais complexos, o presidente talvez assustasse mais a plateia, mas não diria tanto sobre si ou sobre como observa a si mesmo. Essa autoimagem, ao que parece, é incapaz de captar a ironia. “Eu, Johnny Bravo” é uma forma marombada de dizer “Eu, Pateta” ou “Eu, Homer Simpson”- personagens que tinham como marca a incapacidade cognitiva.

A autorreferência, mais tarde compartilhada em sua conta no Twitter, é quase uma afirmação da caricatura que se criou em torno do “mito” presidencial: o sujeito que passa vergonha enquanto faz flexões diante das câmeras mas está convicto de que está abafando.

Como o presidente, Johnny Bravo é o personagem que passa tanto tempo namorando a si mesmo que, no fim da história, não consegue entender por que todo mundo se afasta. O personagem é a caricatura perfeita do que Pedro Cardoso definiu certa vez como homem iludido com a sua própria virilidade.

A nossa versão tupiniquim de Johnny Bravo é o valentão cercado de referências masculinas, piadas de fundo de sala, compostas pelas brincadeiras com tamanho da cabeça de nordestinos e do pênis de orientais, que determina quais são as propagandas adequadas para a família, que confunde filme sobre prostituição com pornografia, e que convida estrangeiros a ficarem à vontade para vir aqui fazer sexo com as brasileiras.

Nos anos 90, essa caricatura expunha ao ridículo o playboy marombado metido a predador e incapaz de tomar sorvete sem sujar a testa. Nos anos 2010, a versão decadente do anti-herói subiu no palanque e descobriu que era uma multidão.

Seria, como o desenho animado, uma caricatura até simpática, por inofensiva, se não tivesse na mão a caneta presidencial.

Mais grave do que a identificação com um desenho animado é a confusão que o nosso Johnny Bravo faz entre oposição e o papel da imprensa. Para ele, a campanha acabou para os jornalistas no momento em que ele venceu as eleições – sendo assim, restaria aos profissionais da imprensa apenas abrir mão de seu papel e passar os próximos quatro anos bajulando o candidato eleito.

Bolsonaro aparentemente não entende nem de desenho animado, nem de jornalismo, nem do papel que ocupa como presidente.

Notícias sobre a contratação de 102 parentes ou parentes de amigos em 30 anos de carreira, uso de candidatos laranja por ministros e colegas de partido, flerte com o nepotismo, carregamento de cocaína em avião oficial e desmatamento da maior floresta tropical do mundo não seriam, para ele, uma forma de fiscalizar as contradições do candidato vencedor, mas revanchismo de quem foi derrotado nas eleições por ele, Johnny Bravo, porra!

Diferentemente de outro mito, o de Narciso, condenado ao se apaixonar por si, é esse personagem estúpido e atrapalhado do desenho animado que o presidente observa quando sua imagem é refletida no espelho. Alguém precisa avisar o presidente que a imagem está desfocada. E que não se sabe de nenhum episódio em que o personagem falastrão da série acabou bem.

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Em vez de criticar, políticos querem que você reze: prece agora é lei em SP http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/08/05/em-vez-de-criticar-politicos-querem-que-voce-reze-prece-agora-e-lei-em-sp/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/08/05/em-vez-de-criticar-politicos-querem-que-voce-reze-prece-agora-e-lei-em-sp/#respond Mon, 05 Aug 2019 07:00:06 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=1628  

Nem rezando… (iStock)

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), sancionou, na semana passada, um projeto de lei que institui o “Dia da Oração pelas Autoridades da Nação”. A partir de agora, a data pode ser comemorada em todas as terceiras segundas-feiras do mês.

A ideia, segundo o autor da proposta, deputado estadual Reinaldo Alguz (PV), é “que o povo passe orar e não criticar as autoridades constituídas no Estado de São Paulo e por toda a Nação Brasileira”. Afinal, neste país que notabilizou as palavras “fé” e “resiliência” na pele e nas camisas de seus cidadãos, é ainda comum, veja só, “ouvirmos críticas e condenações verbais a respeito de nossos governantes e políticos em geral”.

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A proposta chega a lembrar um meme, que até hoje não sabemos se criado por um apoiador ou um opositor disfarçado com ironia fina em um protesto, segundo o qual a nossa energia negativa estava levando o mito Jair Bolsonaro a errar.

Pela lógica, se as vaias e ofensas a Dilma Rousseff no jogo de estreia da Copa de 2014, na Arena Corinthians, em Itaquera, fossem substituídas por orações, a presidenta não só estaria no cargo até outro dia como os 7 a 1 nas semifinais seriam certamente contidos pelas boas vibes. Pelo jeito, nossa energia ruim foi o elemento surpresa, e fatal, do ataque alemão. Agora tudo (não) faz sentido.

O pior é que tenho dito, à boca pequena (na verdade até postei no Facebook), que o Brasil de 2019 me obriga a rezar.

O terço no meu bolso direito e o escapulário no peito já deveriam acusar minha dedicação a causas divinas, mas nunca quis misturar uma coisa com outra – minha mãe, catequista, diz que estou jurado toda vez que peço ajuda divina para reverter alguma adversidade esportiva que envolva o Palmeiras e a seleção brasileira.

Doria e o deputado que me desculpem, mas, como filho obediente, pretendo continuar não misturando fé com causas políticas nem esportivas.

Explico. Quando criança, ouvia dos adultos que um dos pecados da carne era discutir política, religião e futebol. Na vida adulta, comecei a desconfiar que não discutir significava não contestar, e isso é o sonho de qualquer político, padre/pastor ou treinador: que nos sentássemos nas arquibancadas com a obediência bovina de quem assiste sem se rebelar à espera paralisante de que a bola entre ou que decisões políticas, como a liberação de armas, não promovam uma carnificina entre irmãos. Não é preciso entrar em campo. Basta torcer.

Desde 1500 os brasileiros têm dado demonstrações claras de desobediência sobre as leis que regem o que deve ou não ser discutido –como provam as discussões acaloradas no bar ou nas mesas-redondas de TV sobre se foi ou não pênalti, ou a briga fratricida no Facebook entre quem votou diferente nas últimas eleições.

Religião, por sua vez, é um tema muito menos discutido do que deveria. Se fosse, estaríamos questionando, a essa altura, em que momento santos e profetas disseram “armai-vos uns aos outros” e outras determinações que só os homens de certas inclinações políticas parecem encontrar nos textos sagrados.

Isso não impede ninguém de ter fé. A minha, apesar de todas as provações e desconfianças sobre se alguém está, de fato, guiando a coisa toda (sim, sou vacilante quando o assunto é fé), ainda se direciona a algo que não entendo, não vejo, não tenho controle e tento reconhecer como uma força superior. Pode não estar no céu, mas nas águas, no solo, nas plantas e em tudo o que me parece sagrado e me dê alguma noção de amparo e sentido.

Essa fé, seja ela vacilante ou não, pressupõe uma noção de espera e provação por dias melhores sobre algo que não tenho o menor controle.

É o contrário do que deveria mediar nossa relação com a política: seus representantes não são deuses nem estão no olimpo. São um de nós, de carne e osso como nós, passíveis a erros como nós, e por isso mesmo passíveis de cobrança – como nós.

“Rezar” para que façam o melhor é matar a essência da própria atividade política, que requer vigilância, transparência, ação e participação.

Diferentemente do que ensinavam os antigos, não é pecado discutir os temas ditos indiscutíveis, mas sim misturar uma coisa à outra e transformar sujeitos políticos em entidades divinas que, façam o que fizerem, merecem apenas nossa reza. “Fé”, em outras palavras, é um conceito radicalmente incompatível com os valores políticos porque requer espera, e não confronto.

O Brasil, realmente, me obriga a rezar. Para nos livrar de espertalhões que usam o nome de Deus para fazer o que bem querem ou fugir de suas responsabilidades na terra. Se o inferno realmente existir, tenho a impressão de que muitos devotos já estão condenados.

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Brasil que defende tortura e mata índios não está polarizado. Está demente http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/08/01/brasil-que-defende-tortura-e-mata-indios-nao-esta-polarizado-esta-demente/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/08/01/brasil-que-defende-tortura-e-mata-indios-nao-esta-polarizado-esta-demente/#respond Thu, 01 Aug 2019 07:00:41 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=1618

O presidente Jair Bolsonaro (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Antonio Prata tem razão em dizer que não estamos dando nome aos bois quando tratamos do governo Bolsonaro, e que falhamos miseravelmente toda vez que enquadramos como “polêmicas” e “controversas” as falas recentes do presidente sobre desmatamento, jornalistas, cinema e nordestinos.

“Polêmico” é gostar de Engenheiros do Hawaii (eu, inclusive, gosto).

Como bem lembrou o escritor e cronista, as declarações do capitão são mentirosas, autoritárias, dirigistas, preconceituosas e ofensivas.

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A lista cresce em proporção geométrica, e já na segunda-feira se somava ao deboche pela morte do pai de uma criança de dois anos durante a ditadura. Essa criança é hoje o presidente nacional da OAB.

Não era, novamente, uma fala “polêmica”. Era desumana, cruel, estarrecedora, e deveria ser enquadrada como crime de responsabilidade.

Se alguém acordou normalmente no dia seguinte, como se nada tivesse acontecido, é porque a miséria da nossa gramática consagrou o senso-comum como a única resposta para uma realidade que já não conseguimos captar – ou por preguiça, ou por pura incapacidade. Essa pobreza sintática nos leva a uma precária noção de mundo – é como querer pintar uma cidade de infinitas nuances cromáticas com apenas duas cores disponíveis. Vai sair um borrão.

Um borrão recorrente das análises mais empobrecidas é que vivemos em um país “polarizado” – como se, na última eleição, não houvesse outras 12 opções além de um candidato que profere mentiras e homenageia torturador em rede nacional.

Quem observa as pesquisas de opinião pode, de fato, imaginar que há muita gente querendo coisas muito diferentes e expressando isso nas ruas, e nas urnas, sem que uma maioria clara esteja consolidada.

Mas, como diria Renato Russo (polêmico, eu sei), estamos medindo forças desiguais.

Bolsonaro não representa um grupo que aceita e pensa simplesmente diferente dos demais. Representa a trucidação da diferença. E isso, em si, é uma diferença de forças muito desproporcional quando deste lado está o presidente da República.

Polarização pressupõe uma disputa simétrica de forças separadas por diferentes convicções. Mas nem tudo é questão de “opinião” no Brasil de 2019, sobretudo quando ter opinião se confunde com a defesa da morte e da tortura de quem não pensa igual.

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Isso não significa que não existe lado nessa história. Eu tenho o meu, e ele me leva a repetir diariamente a quem já não consigo manter uma conversa minimamente civilizada sem ser alvo de ataques de todo tipo: “discordo e repudio sua fala sobre os vivos, os mortos e os desaparecidos, e considero aviltante alguém usar a vitória nas urnas para arrumar uma boquinha para um filho na embaixada dos EUA, mas jamais seria capaz de desejar a você o que você deseja para mim, para a minha família, para meus amigos, para todo mundo que não pensa como você”.

Dizer, em alto e bom som, que não importa o que a pessoa faça, diga e represente, ela não merece ser torturada, nem ter a memória trucidada diante dos filhos que não puderam enterrar os pais, nem dos pais que não enterraram os filhos, não é questão de “opinião”. É ter a mais básica noção de humanidade. É o que na minha terra chamam de “caráter”.

Na peça “Antígona”, Creonte herda o trono e proíbe que o corpo de Polinice, morto em uma batalha, fosse sequer enterrado. A peça é sobre a vilania de quem tripudia sobre os mortos, e essa vilania é atualizada todos os dias cada vez que alguém sapateia sobre a memória de quem já não está aqui para se defender ou aplaude quem rasga placas em homenagem a quem morreu por uma causa.

Quem acredita que a suposta “polarização” dá conta de explicar o Brasil atual parte do pressuposto de que há concordâncias básicas sobre valores, mas discordâncias sobre os caminhos para se construir um país melhor. Não é.

Enquanto uns reivindicam o direito a existir, há quem manifeste o desejo de destruir – florestas, povos indígenas, adversários, a memória e o compromisso com a verdade. Não há lados iguais quando um desses lados quer apenas a morte e a destruição. (Ou, por acaso, alguém está acuado com declarações de índios que nos acusam de viver como animais e ameaçam transformar nossas casas, terras e modos de vida em uma grande reserva com ocas e arco e flecha? A inversão da ofensiva, por impensável, soa ridícula).

A limitação da nossa gramática é a limitação das nossas visões de mundo e das formas de estar neste mundo. É necessário dar nome aos bois e não cair na armadilha confortável do senso comum.

Esse senso comum diz que o Brasil está polarizado. Não é verdade. O Brasil está demente, com a memória e capacidade cognitiva comprometidas por palavras que não expressam uma verdade, mas impressões da realidade. E terá cada vez menos noção da própria demência quanto mais naturalizado como “controverso” o que no dicionário é puro ódio e destruição.

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Em Porto Rico, politicamente incorreto tem outro nome e ninguém passa pano http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/07/29/em-porto-rico-politicamente-incorreto-tem-outro-nome-e-ninguem-passa-pano/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/07/29/em-porto-rico-politicamente-incorreto-tem-outro-nome-e-ninguem-passa-pano/#respond Mon, 29 Jul 2019 07:00:52 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=1605

Alex Wong/Getty Images North America/AFP

Faça o teste em casa: quando alguém faz algum tipo de comentário ofensivo a grupos sociais e minorias, quanto tempo demora para outro alguém correr com um pano gigante dizendo que, veja lá, veja bem, ele não falou por mal, não é de coração, é apenas um sujeito simples, de modo chucro e vocabulário limitado, ainda ligado a um tempo e lugar em que ainda era normal falar assim e é melhor não revidar para não reforçar o preconceito?

A ciência ainda não tem resposta para essa pergunta, mas, em se tratando de Brasil, e se o ofensor for figura pública, dessas que “falam o que pensam” e atribuem ao “politicamente correto” todos os males corretivos da nação, a proporção entre o tempo e o tamanho do pano é calculada em quilômetros por segundos.

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Pois em Porto Rico, terra de Rick Martin, essa postura rendeu demissão por justa causa – não de um gerente de loja, mas de um GOVERNADOR e toda sua rede de assessores.

Tudo começou quando o mandatário, Ricardo Rosselló, decidiu se reunir com outros 11 marmanjos em um grupo de mensagens privadas de celular. No chat, eles ridicularizavam celebridades, políticos e jornalistas locais com comentários sexistas e homofóbicos.

Adversários eram chamados de “mama-pica”, homossexuais, de “veadinhos”, participantes de Miss Universo, de adeptas de “softporn” e adversárias, de “vadias” que mereciam apanhar ou morrerem baleadas.

Sobrou até para Rick Martin, maior ídolo pop da nação, gay assumido e que, segundo um dos participantes, “é tão machista que fode com homens porque mulheres não estão à altura. Puro patriarcado.”

As ofensas não pouparam sequer as vítimas do furacão Maria, que devastou a ilha em 2017, chamadas de “cadáveres para alimentar os corvos” – os corvos, no caso, eram os adversários.

A revelação das mensagens de ódio levou uma multidão às ruas para pedir a renúncia do governador e sua equipe. Isso se confirmou na quinta-feira, 25/07.

Além de Ricky Martin, os protestos reuniram outros porto-riquenhos famosos, como o ator Benício Del Toro, o rapper Residente e o ícone do reggaeton Bad Bunny.

As revelações foram feitas pelo Centro de Jornalismo Investigativo de Porto Rico, que teve acesso a quase 900 páginas de comentários feitos por Rosselló e seus assessores mais próximos em um grupo privado do Telegram.

Foi o estopim para que as pessoas fossem às ruas, numa mobilização que durou 12 dias – e prometem se prorrogar devido à insatisfação também com os substitutos de Rosselló.

Impossível não pensar e comparar com o caso brasileiro, onde a divulgação de conversas inadequadas entre juiz e acusadores na Lava Jato se transformou numa brecha para atacar e demonizar a essência da atividade jornalística, e não o conteúdo das mensagens.

Pudera: nada do que foi dito no chat privado em Porto Rico já não foi dito diversas vezes por aqui em conversas abertas, sem qualquer intermediação de hackers.

No Brasil é diferente…

Quando deputado, Jair Bolsonaro já chamou os colegas Jean Wyllys de “veado” e “queima-rosca” e Maria do Rosário, de “vagabunda”. Uma jornalista foi chamada de idiota. (Para não ser injusto, Lula também já se referiu à cidade de Pelotas como “polo exportador de veado“).

Em vez de escândalo, a ofensa, por aqui, é símbolo da sinceridade em um ambiente tomado pela artificialidade das gravatas e discurso treinado dos políticos mais empolados. Nos ambientes privados, é só “brincadeira”.

Bolsonaro tanto sapateou sobre tantos que ganhou, de presente, a cadeira de presidente, de onde agora acusa gratuitamente atrizes e realizadores do cinema de usarem dinheiro público pra fazer filme pornô e chama conterrâneos nordestinos de “paraíba”.

No auge da eleição, houve quem imaginasse que a cadeira presidencial fosse uma espécie de traje civilizatório que moderaria as inclinações ofensivas do deputado sincerão. Quem acreditou pensou viver em Porto Rico. Lá o politicamente incorreto tem outro nome.

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Mãe perde guarda do filho por morar em favela. Pobreza agora é crime? http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/07/23/mae-perde-guarda-do-filho-por-morar-em-favela-pobreza-agora-e-crime/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/07/23/mae-perde-guarda-do-filho-por-morar-em-favela-pobreza-agora-e-crime/#respond Tue, 23 Jul 2019 19:36:00 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=1591

A comunidade de Manguinhos, no Rio de Janeiro (Junius/CC – Via Agência Brasil)

É puro suco de Brasil a decisão de um juiz de tirar de uma mãe a guarda de uma criança de oito anos sob o argumento de que ela vive na favela de Manguinhos, no Rio de Janeiro.

A história foi relevada na última segunda-feira pela repórter Elenilce Bottari, do jornal O Globo. A sentença é de 12 de julho e determina que a criança deve viver com o pai, um militar com casa em Joinville, município de Santa Catarina a cerca de 900km dali. Ele não vê o filho há quatro anos.

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O menino mora na comunidade carioca com a mãe e um irmão mais velho, de outro casamento. Segundo a reportagem, a mãe, Rosilaine Santiago, trabalha como agente comunitária de saúde, tem carteira assinada e casa própria. O filho estuda em colégio particular.

Mas, mesmo com um laudo psicossocial indicando que ela tem condições de cuidar da criança, para o magistrado que deu a sentença, “nos dias que correm, é mais seguro residir fora do município do Rio de Janeiro”. A cidade, segundo ele, “tornou-se uma sementeira de crimes, havendo para todos o risco diuturno de morrer. Em Joinville-SC, este risco estará sensivelmente reduzido para a criança”.

Para fundamentar a decisão, ele comparou o índice de desenvolvimento humano (IDH) das duas regiões, e desconsiderou o histórico de agressões registrado pela mulher contra o ex-marido. “Ele gritava com meu filho mais velho. Bebia e ficava violento. A situação ficou insustentável, até o dia que me ameaçou com uma faca. Registrei queixa e ganhei uma medida protetiva. A separação foi em abril de 2014. Em julho, entrei com o processo e ganhei a guarda provisória, até sermos surpreendidos com essa reviravolta”, contou ela à repórter.

Segundo o jornal, a comunidade em que ela e os filhos nasceram e foram criados vive, de fato, sob a ameaça dos confrontos entre traficantes e policiais. A reportagem lembra, porém, que Joinville, com 577 mil habitantes, soma 34 casos de assassinato desde janeiro – uma taxa de 22,4 assassinatos por 100 mil habitantes. A do Rio é de 35,6.

A decisão foi considerada “absurda e preconceituosa” pelo Ministério Público do Rio. A seção da OAB no estado pediu explicações ao Tribunal de Justiça.

Todos apontam que a sentença é fruto de preconceito contra uma comunidade inteira – o que fica ainda mais evidente com as declarações do advogado Carlos Frederico Smolka Baptista, defensor do pai.

“Moro há 36 anos em Joinville. Esta cidade é a Europa do Brasil”, gabou-se. Segundo ele, o pai só não procura a criança porque supostamente está jurado de morte na comunidade. “Se um cara louro de olhos azuis entrar na comunidade procurando ela, vai tomar bala”, sentenciou.

Uma lógica perversa

A fala e a decisão judicial são exemplos de como a criminalização da pobreza e o machismo ainda pautam o sistema judicial no país. “Além do machismo e do elitismo, a decisão não leva em conta o bem-estar da criança”, diz a cientista política Fhoutine Marie.

Ela questiona: “Como vão tirar uma criança da guarda da mãe, um ambiente onde está sendo bem cuidada, e fazer essa criança viver num lugar onde ela não tem nenhum laço? O pai é um estranho pra ela. É um absurdo como não se leva em conta o bem-estar psicológico dela. Essa ideia de que a pessoa corre o risco de morrer porque vive no Rio de Janeiro… Bom, isso vale para qualquer pessoa viva. Qualquer pessoa corre o risco. Isso é porque se trata de uma comunidade pobre. Se ela vivesse no Leblon, o argumento seria diferente.”

Essa lógica vitima pessoas a quem o Estado deveria cuidar e proteger, e não jogar aos leões. Ela não só é resultado, mas reforça o estigma sobre as áreas periféricas, como se a pobreza fosse um crime em si, num processo em que o sociólogo, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e fundador do Observatório de Favelas do Rio de Janeiro, Jailson de Souza e Silva, classifica como “paradigma da ausência”.

Parte desse estigma, segundo o militante, é resultado da representação da favela nos setores dominantes, dos quais a Justiça é parte de uma bolha composta por pessoas de classe social alta que não têm nenhum reconhecimento da realidade das periferias. “Eles só veem a carência, a precariedade. É um retrato da lógica perversa de Estado e sociedade que a gente vive.”

A decisão do juiz, segundo ele, mostra o absurdo do Estado brasileiro que nós temos. “O Estado não garante segurança pública, que é um direito fundamental do cidadão para todas as pessoas, permite que grupos armados dominem territórios, os territórios das pessoas mais empobrecidas, e depois um braço desse mesmo Estado, que é o Judiciário, retira o direito de uma mãe criar seu filho porque estaria em uma área perigosa”, resume ele ao blog.

Somos mais de um milhão e meio de pessoas vivendo na favela. Retirar o direito da mãe não tem cabimento algum. É uma Justiça que não reconhece dimensões de potência, de solidariedade que existem dentro da favela. Isso é puro preconceito”, diz.

Ele reitera que é claro que tem situações de violência e situações de risco no local, mas afirma que, se o pai está preocupado com isso, a Justiça poderia exigir que ele pagasse um lugar fora dali. “É uma questão objetiva, humanitária. A guarda não foi destituída porque ela é uma péssima mãe, inconsequente, porque ela não respeitava o direito da criança, e sim por viver em situação de empobrecimento. Está tudo errado.”

Souza e Silva diz que é papel de grupos como o Observatório da Favela cobrar que o Estado cumpra seu papel. “Existem muitas soluções, menos essa abertamente preconceituosa com a mãe, e perniciosa com a criança.”

O professor defende que pensar a periferia como território inventivo é uma forma de superar o paradigma da ausência e da carência. O desafio é superar as violências estruturais do racismo institucional, do sexismo e do patrimonialismo do processo de desumanização do outro – afinal, lembra Souza e Silva, se desumanizo o outro, posso elimina-lo, porque tirei dele algo que é fundamental, e que me aproxima dele, que é a sua humanidade.

A sentença do magistrado carioca é prova de que essa humanidade é artigo de luxo no Brasil de 2019.

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Do ódio à eliminação: morte de sem-teto mostra que a barbárie nos atropelou http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/07/20/do-odio-a-eliminacao-morte-de-sem-teto-mostra-que-a-barbarie-nos-atropelou/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/07/20/do-odio-a-eliminacao-morte-de-sem-teto-mostra-que-a-barbarie-nos-atropelou/#respond Sat, 20 Jul 2019 07:00:23 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=1562

Reprodução: Dogville

A cidade parecia uma maquete no ponto mais alto. Na pequena varanda que acabava num barranco, era possível enxergar a chaminé da fábrica, a caixa d’água, a avenida principal, o antigo clube, o supermercado. Tudo em miniatura.

Do outro lado era, literalmente, tudo mato. Um mato modelado pelo relevo colinoso, típico do Planalto Atlântico paulista.

A distância preservava quem estava em casa dos ruídos da cidade, mas não a vista. A poucos metros dali, o silêncio era quebrado por um vizinho que, no meio da tarde, resolveu tocar piano.

A paz daquela vila era exatamente o que buscava quando quis voltar ao interior, após 12 anos dividindo apartamento com amigos em São Paulo, entre buzinas, engarrafamento, estresse e neuroses produtivas.

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Não sei exatamente do que fugia, mas um registro  dos meus últimos dias na capital, marcados pela intensificação de protestos de todo tipo, foi a fala de um promotor diante de uma mobilização popular: “Estou há duas horas tentando voltar para casa mas tem um bando de bugios revoltados parando a avenida Faria Lima e a Marginal Pinheiros. Por favor, alguém poderia avisar a Tropa de Choque que essa região faz parte do meu Tribunal do Júri e que se eles matarem esses f… eu arquivarei o inquérito policial”.

O ar puro do interior, pensei, me levaria para longe da barbárie que começava a rosnar na cidade grande. Mudar era uma forma de não enlouquecer.

Só não nos mudamos para aquela vila, na Estrada dos Jequitibás, em Valinhos (SP), devido ao preço do metro quadrado de uma área cada vez mais valorizada. Optamos por um local mais acessível. E igualmente alto, de onde pudéssemos contemplar um pouco a paisagem pontilhada por morros e árvores.

Aquela estrada era uma espécie de Pasárgada para onde levava os pensamentos (e minha bicicleta) toda vez que precisava respirar.

Não é mais. Na quinta-feira, 18/07, famílias do acampamento do MST Marielle Vive, localizado perto dali, faziam um protesto naquela estrada para denunciar a falta de fornecimento de água no local. Fecharam um pedaço da pista, distribuíam panfletos e alimentos produzidos por eles mesmos.

Antes que eles concluíssem o protesto, um homem com uma camionete em alta velocidade jogou o veículo contra a aglomeração. Um senhor de 72 anos morreu na hora, e um cinegrafista ficou ferido.

Luís Ferreira da Costa foi socorrido de ambulância até a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Valinhos, perto do ponto onde eu pegava ônibus todos os dias até pouco tempo. Não resistiu.

O motorista, de 60 anos, foi detido no fim do dia. Na delegacia, ele disse que acelerou por medo, após o veículo ser cercado, e que não percebeu que tinha matado alguém.

A frase resume o espírito de nosso tempo, no qual o medo, pai da raiva e avô da covardia, serve de justificativa para tudo, inclusive a barbárie – essa natureza distante que há quase um ano e meio vitimou, a 490 quilômetros do local onde escolhi viver, uma vereadora que dá nome ao acampamento.

O motorista não percebeu que havia matado alguém porque Luís Ferreira da Costa não era “alguém” – a bandeira e o boné do movimento que acusavam a destituição de qualquer posse o tornava facilmente eliminável no país das capitanias hereditárias, da grilagem, do suborno para erguer megaempreendimentos em área de proteção.

Olho para a foto da vítima, pai de dez filhos e avô de 16 netos que estava prestes a concluir um curso de alfabetização. E me pergunto que mal ele faria a alguém. Seu crime? Querer um pouco de água e um chão para plantar.

“Tem que passar em cima. A estrada é livre para todo mundo andar”, disse o irmão do motorista, para quem quisesse ouvir (e registrar), ao chegar à delegacia.

Em outras palavras: o direito da camionete prevaleceu.

Espírito do tempo

Para quem não compreendeu o espírito do tempo, nada pode ser mais didático do que a defesa do direito a acelerar, atropele quem atropelar. A vida, nessas ocasiões, é um produto de valor escasso.

Durante o dia, lembrei da forma como ouvi, inúmeras vezes, amigos e vizinhos, muitos deles queridos, se referirem ao acampamento onde vivia o seu Luís como uma espécie de tumor e fonte de todos os males contra a ordem da nossa pequena cidade, mais uma entre tantas mediada por muros, condomínios fechados, cercas eletrificadas – pelo medo, enfim.

Minha Pasárgada estava mais para Dogville, o filme de Lars Von Trier que mostra como os mais pacíficos e pacatos ambientes podem abrigar também vilanias inconfessáveis. A impressão é reforçada ao pensar que, meses atrás, o morador de um condomínio vizinho ao meu entrou armado na Catedral de Campinas e cometeu uma chacina.

Nesse imenso Dogville que se tornou o Brasil, facilitar o acesso a armas parece ser a única grande solução imaginada pelas lideranças que se fortalecem na divisão e no discurso contra movimentos e seus integrantes extermináveis.

Busco, em um vídeo antigo, as palavras da psicanalista e pesquisadora da UFRJ Teresa Pinheiro, em uma palestra que acompanhei, logo que cheguei por aqui, em busca de um laço de pertencimento e coletividade que pareciam destroçados na minha velha rotina na cidade grande:

“Só podemos pensar em pertencimento se pensarmos na ideia de bem comum. Só vamos nos colocar no lugar do outro quando imaginarmos o outro no nosso lugar. Quando rompo com a ideia de alteridade, entro na barbárie. Eu posso matar uma barata porque ela não tem subjetividade. O gato de casa tem subjetividade. Ele sente, sofre, se alegra, fica triste. Eu empresto toda a minha subjetividade a ele. Quando eu não empresto, eu posso matar. E posso fazer coisas horrorosas. O regime escravocrata foi montado nisso, na ideia de que o negro não tinha alma. Na Segunda Guerra Mundial foi a mesma coisa: os inimigos não são meus iguais, são diferentes”.

O mundo explode longe, mas as migalhas caem todas em nosso quintal. Em vez de paz, eles estão cobertos de sangue.

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Bolsonaro escolheu alvo errado: ‘Bruna Surfistinha’ é sobre pais de família http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/07/19/bolsonaro-escolheu-alvo-errado-bruna-surfistinha-e-sobre-pais-de-familia/ http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2019/07/19/bolsonaro-escolheu-alvo-errado-bruna-surfistinha-e-sobre-pais-de-familia/#respond Fri, 19 Jul 2019 20:38:52 +0000 http://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/?p=1575

Deborah Secco em cena do filme “Bruna Surfistinha” (Dovulgação)

 

Jair Bolsonaro declarou que não pode admitir que, com dinheiro público, se façam filmes como o da Bruna Surfistinha. “Não dá. Não somos contra essa ou aquela opção, mas o ativismo não podemos permitir em respeito às famílias. É uma coisa que mudou com a chegada do governo”, disse.

Para o leitor desavisado, a fala do presidente leva a crer que, até sua chegada ao poder, o Brasil era uma grande suruba filmada e subsidiada pelo dinheiro dos celibatários involuntários.

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A declaração foi feita durante um cerimônia para comunicar mudanças na Ancine, Agência Nacional de Cinema, na quinta-feira, dia 18.

Eleito pelo voto popular, Jair Bolsonaro tem não o direito, mas o dever de definir o que deve e o que não deve ser prioridade quando o assunto é dinheiro público. A miséria, por exemplo, parece não ser uma das preocupações, como deu a entender ao dizer que “passar fome no Brasil é uma grande mentira”.

A menção ao filme “Bruna Surfistinha”, que teve mais de 2 milhões de espectadores, gerou 400 empregos e milhões em impostos diretos e indiretos, porém, deveria ligar um alerta sobre quem, em “respeito às famílias”, está sentado no cofre do Tesouro e começa a determinar o que é ou não de bom gosto.

Sabemos, ou deveríamos saber, como essa conversa termina – pela lógica bolsonarista, não demora para os recursos e energias da produção audiovisual serem direcionados para histórias de superação, moralidade e meritocracia com títulos providenciais como “O Filho” ou “Os Herdeiros”, possíveis sucessos de público e crítica entre os youtubers chapa-branca.

Falta explicar por que uma família se espantaria com o longa dirigido por Marcus Baldini e estrelado por Deborah Secco – a menos que algumas dessas famílias tenham receio de saber o que fazem seus pais quando dizem que vão ficar até mais tarde no escritório ou vão sair para pescar com os amigos. (A cena mais pornográfica do longa é quando um cliente abre a carteira para mostrar a foto da filha que chama de xodó e outros, na sequência, compartilham com a protagonista seus dilemas profissionais, afetivos, familiares).

Fico em dúvida se o presidente viu o filme. Se viu, não entendeu: o enredo não reforça nem de longe o terraplanismo cinematográfico que ele tenta produzir dizendo que seus antecessores financiaram a indecência. O filme, afinal, não faz oba-oba nem propaganda da esbórnia, mas um retrato crítico da exploração sexual, da violência, dos limites éticos entre dinheiro e acesso a corpos e do mundo das drogas – o que leva a personagem a viver não uma doce vida, mas um grande conflito e um grande vazio.

Há modos e modos de encarar essas questões. O pior deles é tapar olhos, bocas, narinas e orelhas, criando falsos inimigos com falsos dilemas.

A estratégia é parecida com o discurso sobre as tais “doutrinação” e “ideologia de gênero” nas escolas. Num país que silencia a violência sexual contra crianças, parte dela praticada em casa e por pessoas conhecidas das vítimas, “falar” sobre o problema se tornou sinônimo de sexualização precoce.

É uma forma de jogar no limbo não só estratégias efetivas de identificação de violência e difusão dos canais de denúncia, como também as orientações sobre prevenção de doenças ou gravidez precoce.

Mais fácil tampar tudo com uma massa de concreto e escrever em cima: TABU. E deixar que a iniciação visual e sexual dos jovens brasileiros seja mediada apenas pelos canais de pornografia de livre acesso que transbordam pela internet.

O ataque aparentemente aleatório a uma produção como “Bruna Surfistinha”, para possivelmente reivindicar o maior controle sobre o que o Estado deve subsidiar para consumo das famílias, é mais uma falsa dicotomia.

Como bem lembraram os internautas ao longo do dia, a fala seria menos estranha, à lógica e à coerência, se não partisse do mesmo presidente que, tempos atrás, justificava o recebimento de auxílio-moradia, mesmo tendo imóvel em Brasília, dizendo que precisava de um lugar “pra comer gente”.

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